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As insondáveis lógicas de mercado

por Pedro Brinca, em 16.06.14

O mercado livre e concorrencial, vulgo capitalista, funciona com base na lei da oferta e da procura. Isso leva automaticamente à valorização dos produtos de acordo com a sua utilidade, qualidade e escassez. Também os profissionais, na perspetiva de recursos humanos, se transformam rapidamente em custos de produção, vistos na mesma lógica de mercado, porque disputados pelas empresas do setor.

Por isso, não se consegue entender esta lógica que tem prevalecido na área da comunicação social, de onde têm sido afastados os bons profissionais, para baixar os custos de produção, ficando a prevalecer os recursos humanos menos qualificados, menos experimentados e menos habilitados a garantir a desejada qualidade. A aposta em matéria-prima de nível inferior nunca foi uma boa estratégia quando se trabalha para um mercado vivo e exigente.

E talvez o problema seja mesmo este. Para o mercado tanto lhe faz, “bacalhau basta”. Quando o consumidor come qualquer coisa que lhe ponham à frente, acaba por comer “coelho por lebre”. E lá se tinha que voltar ao velho dilema do ovo e da galinha, para saber o que nasceu primeiro, se a falta de exigência do consumidor ou o baixo nível de qualidade da oferta.

Mas trabalhar num órgão de comunicação social é mais do que exercer uma mera tarefa económica. Há uma responsabilidade social inerente, aliás como em qualquer outra atividade, mas aqui com um grau de exigência superior. É impensável que um restaurante não garanta a segurança alimentar e até os bons hábitos de consumo, apenas numa lógica de lucro. Há, aliás, legislação para o garantir. Mas ainda não se fizeram leis para garantir a segurança intelectual.

O que os novos gestores da Controlinveste não compreendem, ou até sabem bem demais, é que uma rádio não vale pela sua antena, pelos seus estúdios e nem até pela sua marca. Vale pelos seus profissionais, pois são eles que distinguem as rádios umas das outras. Despedir os melhores elementos da redação de uma rádio para poupar dinheiro é como despedir os jogadores titulares do Benfica e ir jogar com as reservas. O campeonato estaria perdido…

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publicado às 13:00


Democracia da cenoura

por Pedro Brinca, em 30.04.14

Estão quase a realizar-se as eleições para o Parlamento Europeu. Não é preciso ter grandes capacidades divinatórias para adivinhar que vão ter uma elevada abstenção.

 

Os trabalhadores da Amarsul, empresa que faz a recolha do lixo nos municípios da península de Setúbal, decretaram greve para o início deste mês de Maio. Dias 30 de Abril e 2 de Maio, mais propriamente. Não é preciso ser bruxo para perceber que vai contar com uma enorme adesão.

 

É que os sindicatos já perceberam que, por muito meritório que seja o motivo da contestação, é preciso acrescentar sempre algo de mais apelativo. E um fim-de-semana prolongado de cinco dias é uma boa motivação para fazer greve.

 

Talvez fosse bom aprender alguma coisa com esta estratégia e começar a agendar os atos eleitorais para os dias de semana, com direito a faltar ao emprego mediante justificativo do dever cívico cumprido.

 

No fundo, é o que se faz com as dádivas de sangue. Muitos só colaboram para poderem ganhar uns dias de descanso. E foi essa a solução encontrada recentemente para que os contribuintes cumpram os seus deveres fiscais, com o sorteio de um automóvel.

 

Votar ao domingo implica trocar o lazer pelo dever e a tal ninguém está disposto. Vamos lá montar uma democracia com o engodo da cenoura na ponta da vara. De palas nos olhos, lá se cumprem as obrigações, ainda que pelas razões erradas.

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publicado às 12:32


Uma lição de cidadania

por Pedro Brinca, em 26.03.14

A maioria dos portugueses vive em casa própria, geralmente em prédios onde adquiriram um apartamento. Compraram um andar, endividando-se quase para a vida toda, ao mesmo tempo que compravam em copropriedade as partes comuns do prédio, como a entrada, as escadas ou o telhado. São donos efetivos do prédio.

 

Para a gestão das partes comuns, os donos elegem anualmente uma administração de condomínio para que, à vez, cada um vá tomando conta daquilo que é de todos. O administrador fica automaticamente mandatado para fazer a gestão corrente do edifício, pagando à empregada de limpeza e fazendo a substituição das lâmpadas que se fundam.

 

Assuntos de maior responsabilidade, como obras no telhado ou a troca de uma porta estragada, se envolver custos avultados, deverão ser discutidos e aprovados em assembleias extraordinárias. Para a aprovação das contas correntes e nomeação da nova administração faz-se uma reunião ordinária anual.

 

Mas há muita gente, cada vez mais, que apesar de serem donos do prédio, não aparecem sequer nas reuniões de condóminos. Sabem que há uns que vão sempre e que resolvem o que houver para tratar, pelo que não precisam de perder o episódio da novela ou deixar o conforto do sofá. Exceto quando têm um problema no seu andar, porque aí já aparecem com exigências.

 

Quem vai às reuniões e quem assume as funções de administração de condomínio são, afinal, sempre os mesmos e uma pequena percentagem dos proprietários. São eles que perdem tempo, são eles que se preocupam em discutir e encontrar soluções. Os outros, além de optarem pela solução mais confortável, ainda beneficiam da vantagem de poder criticar as decisões em que não participaram.

 

É um desporto nacional, criticar as opções dos outros mas nunca fazer parte da solução. Há quem lhes chame treinadores de bancada. Criticam todas as decisões e estão imunes a críticas porque não participaram em nenhuma. Ganham duas vezes. Não se maçam e ainda chateiam os outros.

 

 Afinal, é isto que acontece na gestão do país. Todos são seus coproprietários, mas poucos se incomodam em participar nas soluções. Há sempre alguém que se chega à frente e que será depois o alvo de todas as críticas. Nesse aspeto, os políticos merecem o nosso respeito e consideração, porque para chegarem aos lugares de poder tiveram que participar em muitas reuniões. Abdicaram vezes sem conta do sofá.

 

Se eles se aproveitam indevidamente do poder, ou se são sempre os mesmos em rotatividade, é precisamente porque a maioria das pessoas entende não levantar o rabo e não se arriscar a ser criticado. Mas quem opta pela omissão é também verdadeiramente responsável pelas decisões que são tomadas.

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publicado às 15:14


A culpa é dos psicólogos

por Pedro Brinca, em 18.02.14

Ainda não há muitos anos, as crianças simplesmente cresciam. E os pais garantiam-lhes as condições mínimas para tal. De resto, serviam para ajudar na lida da casa, se fossem meninas, ou na horta, no caso dos rapazes. E que não atrapalhassem. Nem pensar que se metessem em conversas ou assuntos de adultos. Os fedelhos não tinham importância.

 

Depois, de repente, veio uma geração de pais que centrou a sua vida em redor dos filhos. Passaram a condicionar horários e a gerir as agendas para ir levar e buscar os meninos à escola, ao futebol, à natação, ao bailado e à música, quando no caso deles o autocarro tinha servido perfeitamente. De um papel insignificante na família, passaram a reis e senhores da casa.

 

Surgiu a preocupação de proteger as crianças de todos os traumas, ocultando-lhes os problemas, fazendo-os crer que o mundo é cor-de-rosa. E impôs-se a teoria criada pelos psicólogos do estímulo positivo. Até aí tudo bem, se não levada ao exagero.

 

O menino nasce e ouve todos os dias que é o mais lindo do mundo. Faz um desenho e é o maior artista do mundo. Diz alguma coisa e é o mais inteligente do mundo. Interrompe as conversas dos adultos e todos têm que lhe dar atenção, por maiores parvoíces que diga.

 

Na escola não o corrigem nem contrariam. Se disserem que o desenho podia estar melhor ainda aparece o pai no dia seguinte com ameaças ao professor, por estar a frustrar as expectativas e, com isso, a hipotecar o futuro da criança. No ensino superior também o deixam passar incólume, pois, desde que pague, tem direito ao diploma. As faculdades hoje apenas vendem diplomas.

 

O pior é quando o menino, já grande, consegue arranjar um emprego. Quando lhe fazem o primeiro reparo sobre a qualidade do trabalho ele revolta-se. Então, toda a vida ouviu dizer que era fantástico e agora vem alguém pôr-lhe defeitos? A ele, que sempre se julgou o maior…

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publicado às 12:26


O fascínio do que está para vir

por Pedro Brinca, em 27.01.14

O último programa “Prós e Contras” da RTP, famoso pelos debates sobre os grandes temas da atualidade, foi dedicado ao jornalismo e aos “Conteúdos do Futuro”. Com a presença do ministro Poiares Maduro o assunto acabou por ser quase exclusivamente o futuro da RTP e não o que se esperava do tema. Mas o momento alto talvez tenha sido quando foi apresentado um “miúdo” de 16 anos que está a criar um jornal digital.

 

Há uma tendência incrível no jornalismo para encontrar estes casos. Uma obsessão por descobrir o futuro antes de ele nascer. Aliás, outro dos convidados era igualmente um jornalista que está a preparar o lançamento do Observador, um novo jornal digital. No fundo, para falar de experiência real na área digital só estava o Paulo Querido, especialista reconhecido na área.

 

Quando se esperava que alguém partilhasse experiências sobre projetos que indiquem de alguma forma o futuro do jornalismo, ouviu-se falar de intenções. Aliás, seria interessante fazer um levantamento das imensas notícias e espaço mediático dedicado nos últimos anos a projetos que estão para nascer. O mais curioso é que alguns resultam em abortos.

 

Parece que já ninguém se recorda da Imaterial.TV. Durante meia dúzia de meses não se falou noutra coisa. Participaram em dezenas de debates pelo país, foram entrevistados e opinaram em todo o lado. O projeto nunca chegou a nascer e quarenta jornalistas foram abandonados no desemprego.

 

Mas num programa sobre jornalismo no canal público de televisão, com a presença de um ministro, um ex-secretário de Estado e o ex-presidente da ERC, convidar um miúdo de 16 anos para falar sobre o jornal que está a criar soa estranho. Soa estranho e a esturro. Não que a iniciativa e o empreendedorismo, sobretudo nestas idades, não seja de louvar, mas porque não se pode pôr tudo no mesmo saco.

 

Para ser um jornal, reconhecido como tal, tem que ter jornalistas profissionais, com carteira, porque a lei assim o exige. Para ter carteira terá que ter mais de 18 anos e um curso superior. Ele não tem, mas poderá ser apenas o investidor e empregar profissionais habilitados. Mas não será com o dinheiro dele, certamente.

 

Por isso, dar destaque a estes casos pode ser pernicioso. Isto é, alguém terá encomendado, certamente, a sua presença. Mas vamos ver se não é mais um caso como o do Martim, outro miúdo que o Prós e Contras divulgou como imberbe empresário de 15 anos e que afinal mais não fazia do que comprar t-shirts por atacado, estampar qualquer coisa e vender.

 

É de gabar a iniciativa, pois há muita gente que não a tem sequer. Mas não se pode confundir empreendedorismo com chico-espertice nem empresas com esquemas para ganhar dinheiro. As empresas cumprem a lei, pagam impostos e são escrutinadas ao pormenor pelos organismos públicos, na perspetiva de sacar sempre mais algum dinheiro ao desgraçado.

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publicado às 11:10


Os donos do bom gosto

por Pedro Brinca, em 28.10.13

Há umas semanas foram colocadas umas esculturas numa rotunda de Setúbal e a polémica estoirou num ápice. Anda um monte de gente indignada porque “aquilo não tem jeito nenhum”. Chamam-lhe a “rampa de lançamento de mísseis” ou os “supositórios gigantes”, quando à evidência se nota que se tratam de três sardinhas esculpidas em pedra, colocadas na vertical.

Setúbal tem-se reclamado como a capital do peixe assado. Na verdade, é difícil encontrar melhor sítio para comer umas sardinhas na brasa, feitas em assadores com um modelo específico que ficaram típicos à porta dos restaurantes e que não têm igual noutra localidade. Por isso, as sardinhas parecem uma escolha natural de um artista quando confrontado com uma encomenda para um monumento para a cidade.

A rotunda em causa, de construção recente, fica próximo do embarque dos barcos para Tróia, numa zona típica da cidade, junto do bairro das Fontainhas, local onde, durante décadas, estiveram localizadas dezenas de fábricas de conserva. A meia dúzia de metros está mesmo uma dessas antigas fábricas, hoje transformada em Museu do Trabalho. Ao que parece, a escultora em causa é mesmo filha ou neta desses proprietários.

Ora, uma escultora natural de Setúbal, ligada familiarmente à atividade conserveira, conhecedora, portanto, da identidade da cidade, parece ser uma escolha mais do que acertada para a autoria da obra. Escolheu fazer umas sardinhas e parece óbvia a escolha. Podiam estar deitadas numa grelha, tornavam-se mais reais, mas o efeito visual proporcionado a quem passasse seria bem mais duvidoso. Estão em pé, estranhamente, mas é a única forma de se fazerem notar.

Pode-se questionar um conjunto de opções técnicas, mas questionar o gosto é uma coisa bem estranha. Aliás, comum em Setúbal. Há perto de trinta anos os ânimos andavam exaltados por causa do “mamarracho” da Praça de Portugal. Agora, também um monte de críticas se fizeram ouvir sobre uns painéis que uns artistas pintaram para o futuro centro comercial Alegro, a convite deste, e que estão expostos em redor da obra. Como aliás têm criticado uma série de grafitis que a câmara tem promovido ao longo da cidade

Há gente que se sente mesmo dona do bom gosto. Que tem sempre opções melhores para tudo o que é feito, mas de quem ninguém conhece obra nenhuma. Afinal, se virmos bem, o Picasso não sabia desenhar e o Dali pintava umas coisas esquisitas. E mesmo a Joana Vasconcelos, a quem hoje todos se vergam porque foi reconhecida no estrangeiro, não faria muito diferente daquelas sardinhas. Talvez lhes acrescentasse umas rendinhas, mas todos iriam considerar uma obra de arte notável.

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publicado às 16:05


O jornalismo está a acabar

por Pedro Brinca, em 04.10.13

O jornalismo é um pilar da democracia, um garante das liberdades e garantias, o suporte do direito constitucional de informar e ser informado. Mas está a acabar. Têm vindo a matá-lo. E os jornalistas têm dado um forte contributo. O mais grave é que parece que ninguém se importa.

 

Todos acompanharam a polémica nestas últimas eleições em torno da cobertura televisiva, que não aconteceu, como consequência de uma imposição da Comissão Nacional de Eleições que decidiu retirar autonomia aos jornalistas para definirem os seus critérios editoriais. E muitos se revoltaram contra as televisões, considerando que é lógico e natural que um organismo público decida o que um órgão de comunicação social deve ou não transmitir.

 

À conta dessa intromissão, as televisões não organizaram debates com os candidatos, o que também seria pouco sensato num país com 308 concelhos, a não ser que, como de costume, se preocupassem apenas com Lisboa e Porto. Mas houve muita imprensa regional que organizou nas suas áreas de intervenção, tentando, porventura, cumprir a determinação da CNE, embora esta pouco se preocupe pelo que se passa fora das duas grandes cidades.

 

Caricato é que a maioria dos candidatos decidiu também impor um modelo de debate, que a maior parte dos organizadores decidiu acatar rapidamente, até porque é muito menos trabalhoso. Informam-se os candidatos sobre os temas a abordar, estes preparam as suas intervenções em casa e depois têm uns minutos para falar sobre cada assunto, debitando os discursos demagógicos que já lhes conhecemos.

Os “moderadores” limitam-se a contar o tempo e a apresentar o candidato seguinte. De debate não tem nada e o resultado é completamente estéril.

 

Mas estas imposições aos jornalistas, que tudo aceitam numa política de ir sobrevivendo sem levantar ondas, há muito que alastram nas redações. São raros já os protagonistas da atualidade, por muito pequenos que sejam em termos de importância e reconhecimento social, que se dispõem a conversar com um jornalista para esclarecimento deste e dos seus leitores. Há muito que impera a tirania dos comunicados e as respostas em monólogo por escrito. Pedem-se umas pequenas declarações sobre um assunto e vem por e-mail um texto de três páginas de discurso vazio e nada esclarecedor.

 

A maior parte das redações vai aceitando e quem se recusa sujeita-se à incompreensão reservada a quem rema contra a maré. Mesmo que se alegue o interesse superior dos leitores e do seu esclarecimento. Mas estes não estão nem aí. Consomem qualquer coisa que se lhes ponha no prato. E, no dia em que desaparecer o último jornalista de uma redação e tudo se limite ao copiar e colar do discurso institucional, parece que ninguém vai dar por nada.

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publicado às 14:59


O circo está montado

por Pedro Brinca, em 10.09.13

Estamos em vésperas de eleições autárquicas. Os candidatos e as comitivas partidárias estão nervosos. Alguns estão mesmo histéricos. Perderam há muito a noção do razoável, a sensatez, a cordialidade e até o respeito e a boa educação.

 

A comunicação social vive da sua credibilidade e independência. Para evitar confusões ou desvios, a própria Comissão Nacional de Eleições reforçou as regras para a cobertura das autárquicas deste ano. Mas praticamente todas as candidaturas vivem obcecadas com a ideia de poderem ser marginalizados, ostracizados ou menosprezados pelos jornalistas.

 

Algumas forças partidárias são, aliás, profissionais desta estratégia. A maioria dos partidos pequenos é como se vivessem na clandestinidade. Nunca aparecem e depois surgem inscritas nas listas aprovadas pelos tribunais. Não informam a comunicação social, raramente fornecem contactos dos candidatos e não respondem a telefonemas nem a mensagens de correio eletrónico.

 

Ou seja, fazem tudo para não aparecer. E depois, nos momentos oportunos, lá estão armados em vítimas. Porque não foram convidados para um debate, porque não foram entrevistados. A estratégia da autovitimização a tentar colher simpatias e a lançar ruído por todo o lado.

Mas também os grandes partidos, os dos profissionais, proporcionam momentos desesperantes para quem tenta fazer um simples trabalho de esclarecimento das populações neste período eleitoral. Respondem sempre com agressividade, como se percebessem à partida que a intenção dos jornalistas é prejudicar a sua candidatura, em benefício das outras.

 

Para a realização de um simples debate entre candidatos, surgem exigências inauditas, quase como se fossem vedetas do showbiz e tudo lhes fosse permitido. Sorteio para o lugar na mesa, sorteio para a ordem das intervenções, perguntas iguais para todos e tempo cronometrado e rigoroso, sorteio para a ordem da intervenção final dedicada ao apelo ao voto.

 

Vão desculpar, mas isto assim não parece um debate, mas um concurso de televisão. E se é por uma questão de justiça, talvez o ideal não fosse dar o mesmo tempo a cada candidato, mas contar as palavras que cada um pronuncia, para salvaguardar os direitos de quem fala mais lento e até de algum gago que eventualmente se candidate.

 

A mesquinhez atinge níveis nunca antes vistos. Como se algum espetador na sala fosse decidir a sua orientação de voto por um candidato estar sentado mais ao centro ou à ponta da mesa. Como se o tempo ocupado com palavras ocas e demagogia contribuísse para o esclarecimento.
Afinal, esclarecimento é o que menos pretendem, só e apenas animar o circo.

 

Mas há mais exigências. Definição do número de lugares para as claques de apoio. Sorteio para a localização das claques na sala. E até a exigência de que a comunicação social se entenda e organize um único debate entre todos os meios.

Uma boa ideia. Já era tempo também de os partidos se entenderem e fazerem uma lista única, que assim nem precisávamos de organizar debates. Nem de eleições…

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publicado às 13:06


Mudar o mundo

por Pedro Brinca, em 27.08.13

O soldado Bradley Manning foi condenado a 35 anos de prisão pela maior fuga de informação classificada da história dos Estados Unidos. O jovem de 25 anos passou para o site da Wikileaks perto de um milhão de telegramas diplomáticos norte-americanos e ficheiros do Departamento de Defesa sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque, denunciando muitas atrocidades que aí foram cometidas pelos militares.

A União Americana para a Defesa das Liberdades Cívicas considerou que “um sistema legal que não distingue entre fugas de informação para a imprensa, feitas no interesse do público, e traição ao país não só vai produzir resultados injustos como privar o público de informação vital para a democracia".

Julian Assange está desde Junho de 2012 na embaixada do Equador em Londres sob asilo político, evitando assim ser extraditado para a Suécia, onde é acusado de um crime de violação e outro de abuso sexual, naquilo que parece ter sido uma armadilha que lhe foi montada. O ativista diz temer ser posteriormente extraditado da Suécia para os EUA, para ser julgado por espionagem.

Mesmo refugiado, o fundador da WikiLeaks afirmou há duas semanas que a população mundial está em dívida para com o analista informático Edward Snowden, que aponta como responsável pela reforma do programa de espionagem anunciada pelo Presidente dos Estados Unidos. Para Assange, as medidas avançadas por Barack Obama "validam o papel de Snowden" como denunciador de comportamentos alegadamente ilegais ou desonestos por parte de uma organização.

O antigo colaborador dos serviços secretos norte-americanos Edward Snowden está em asilo temporário na Rússia para evitar a justiça norte-americana, depois de ter revelado documentos que mostravam os amplos programas secretos de monitorização de comunicações telefónicas e digitais pelos governos dos EUA e do Reino Unido.

Entretanto, o Guardian, jornal utilizado para as revelações, foi ameaçado de um processo judicial se não destruísse ou entregasse todos os arquivos fornecidos por Snowden. Dois agentes supervisionaram a destruição dos discos rígidos na sede da publicação, mas o editor disse que isso não impedirá o jornal de continuar a fazer revelações, já que havia cópias no exterior.

O principal jornalista do Guardian", Glenn Greenwald, vive no Rio de Janeiro, o que lhe permite ainda alguma tranquilidade face às investidas governamentais britânicas, mas o seu companheiro, o brasileiro David Miranda, passou nove horas detido pelas autoridades no aeroporto de Heathrow. Os aparelhos eletrónicos que transportava foram confiscados.

Por cá, houve uns contratos danosos assinados por uma série de empresas públicas, os famosos swaps, que agora estão em investigação. Os documentos de trabalho que serviram de base a cinco dos oito relatórios de auditoria sobre os 'swaps' realizados no final de 2008 foram destruídos pela Inspeção-Geral de Finanças (IGF) depois de janeiro 2012, numa altura em que este dossiê já merecia atenção especial dentro do Ministério das Finanças.

Os Governos, as organizações públicas, as estruturas de Estado de países ditos democráticos e desenvolvidos andam a guardar segredos demais. Cada vez fazem mais sentido as teorias da conspiração. A adjetivação entre resistente e terrorista depende apenas do posicionamento do observador. Nos casos que envolvem a Wikileaks temos gente perseguida por ter ousado divulgar a verdade. Pensando que iam ajudar a criar um mundo melhor.

Bradley Manning, aliás Chelsea Manning, desabafou pouco antes do julgamento: “pergunto-me como é que eu pude pensar que poderia mudar o mundo, era um simples analista”.

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publicado às 18:01


A verdadeira silly season

por Pedro Brinca, em 17.07.13

Confrontado com a demissão de um ministro, que é também o líder de um dos partidos da coligação governamental, o Presidente da República foi colocado perante duas hipóteses, e só a ele cabia decidir. Ou aceitava a proposta de remodelação do Governo apresentada pelo primeiro-ministro ou convocava eleições antecipadas imediatas. Mas não decidiu por nenhuma. Simplesmente adiou o problema.


O Presidente decidiu então solicitar um compromisso de salvação nacional entre três partidos e convocar eleições antecipadas para daqui a um ano. A decisão de dissolver a Assembleia deve ser tomada como medida excecional, quando o Presidente entende que não estão reunidas as condições para a governação. Cavaco considera que agora existem condições para este Governo se manter mas já adivinha que daqui a um ano não existirão.


Ao anunciar eleições para 2014, abre oficialmente a campanha eleitoral, a que, no fundo, já se vinha a assistir. Neste cenário, o PS está impossibilitado de assumir um compromisso com o PSD pois tem que aproveitar os próximos meses para conquistar votos, demarcando-se, naturalmente, das decisões do Governo. Por seu lado, o PSD sabe que tudo o que fizer no próximo ano de nada servirá, pois o tempo não chegará para se redimir da imagem negativa entretanto criada, pelo que só poderá esperar a derrota, numas eleições que o Presidente pretende oferecer aos socialistas como recompensa pelo compromisso solicitado.


O CDS, com doze por cento dos votos, é curiosamente considerado como parte integrante do arco da governabilidade, afinal porque se sabe que PS e PSD alternarão entre si no poder, mas os centristas terão sempre lugar garantido no Governo desde que não existam maiorias absolutas. E assim, apesar da sua reduzida expressão eleitoral, este é o partido com mais poder porque apenas ele está disposto a garantir as condições de governação a PS e PSD, utilizando esse argumento para fazer chantagem sobre o partido que ganhar as eleições.


Mergulhado em plena crise económica, o país tem um insólito cenário político. Um Governo a prazo, obrigado a um acordo com o maior partido da oposição, que por sua vez não tem interesse nenhum nisso, e manietado por um pequeno partido que pode decidir o futuro deste e dos governos seguintes.


Este Governo tem um ministro demissionário em funções, outro que sabe estar na lista dos dispensáveis e uma ministra que é contestada desde o primeiro dia no cargo e que tem que reunir no Conselho de Ministros com um colega que disse que não governaria com ela. É aparentemente chefiado por um primeiro-ministro que foi desautorizado pelo Presidente da República, que simplesmente ignorou a sua proposta de remodelação do Executivo.


Entretanto, há uma moção de censura ao Governo e o Presidente vai de passeio às Ilhas Selvagens. Está tudo louco…

 

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publicado às 17:27




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  • silva

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