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Fado, Futebol, Fátima… e Faz de conta!

por Nuno Vaz da Silva, em 24.09.14

Ir a um serviço público e passar horas nas suas salas de espera não é apenas uma prova de ineficiência da administração pública mas também conduz a um exercício de análise político-pública que raros comentadores e políticos têm nos seus espaços de confissões semanais. Nas conversas que ecoam nos corredores e no contacto directo com muitos cidadãos, obtêm-se informações que não constam nas estatísticas, que escapam às elites políticas ou que são sucessiva e grosseiramente esquecidas!

Há em Portugal muita iliteracia política! São milhares e milhares de portugueses que não sabem ou não querem saber o que é e para que serve a política. Não se trata apenas de não saberem quem são os principais representantes da nação ou não saberem quais os seus poderes e respectivas limitações. Muitos portugueses não sabem sequer as diferenças básicas entre os principais regimes políticos!

Este desconhecimento e afastamento da política é algo que deveria preocupar os partidos políticos mas é alheio às suas propostas, pois é útil nas suas metodologias de demagogia. A sedução de eleitores por intermédio de argumentos despidos de sustentabilidade ou mesmo de qualquer interesse público é um bom exemplo desse tipo de terrorismo político.

Não há evidências de que os partidos ou os políticos pretendam alterar a sua postura a bem da nação. A imagem de líderes políticos que colocam em causa os seus próprios interesses em detrimento de um melhor e mais consciente sistema político é cada vez mais uma miragem no nosso país. Não parece existir qualquer vontade de mudança, qualquer determinação para melhorar Portugal ou os conhecimentos dos portugueses sobre a sociedade onde vivem.

O sistema político português está assente na iliteracia dos cidadãos e nos direitos reivindicados no pós 25 de Abril de 74. A maioria dos cidadãos ignora que a convivência em sociedade implica igualmente a existência de deveres e até de obrigações. Uns ignoram porque isso lhes dá jeito, outros por falta de informação e, pior ainda, outros por pura desinformação da classe política.

A culpa é de todos mas principalmente daqueles que têm responsabilidades e optam por manter tudo como está. Quando alguém sugere alterações políticas, rapidamente é abafado, deturpado ou enxovalhado numa luta incessante pela manutenção do status quo das elites.

Nada mudará se quem tem responsabilidades e poder de influência continuar estático! Uma simples ida, como utente/cliente, ao mercado, ao centro de saúde ou a uma repartição pública comprova o que digo, assim como o discurso de qualquer político com responsabilidades (fora dos períodos eleitorais), comprova que nada querem fazer para que Portugal e os portugueses sejam mais conscientes das escolhas que fazem!

Ou seja, em Portugal todos se queixam e há muito que pode ser feito mas na hora da verdade, poucos querem mudar alguma coisa.

Somos o país de Fátima, do Futebol, do Fado…e do Faz de conta!

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publicado às 15:41


Portugal não é igual à Grécia?

por Nuno Vaz da Silva, em 04.09.14

Este chavão que ouvimos vezes sem conta para nos tentarem distanciar dos problemas orçamentais da Grécia ficou na mente dos portugueses, criando um estigma negativo em relação a esse país europeu.

Se o problema da Grécia é, como parece, maior do que o português, há outros factores que nos afastam da situação grega e nem todos são aspectos positivos.

 

A Grécia é um território muito especial. Enquanto Portugal tem 2 arquipélagos que englobam uma dúzia de ilhas, a Grécia tem cerca de 3000 ilhas, muitas delas habitadas, com geografias completamente díspares e problemas de insularidade bem maiores do que os nossos. Imaginem o que é assegurar a administração deste território com construção e manutenção de aeroportos, estradas, portos e rotas marítimas ou mesmo escolas e serviços de saúde. Mas a Grécia é também um país com uma história excepcional e um património riquíssimo. Isso significa mais turismo e mais receitas dos visitantes. Todavia os custos elevados de manutenção desse património terão de ser assegurados pelo Estado, num trade-off incerto entre receitas e despesas.

Nas ruas de Atenas não circulam carros de alta cilindrada como vemos em Lisboa, o bairro das lojas e habitações de alto luxo é muito reduzido, ao contrário do que acontece em Lisboa, a alimentação é muito boa sem ser muito cara e servida com simpatia seja no restaurante mais exclusivo ou numa venda de rua.

 

Portugal não é a Grécia! Isso é uma verdade de Lapalice. Temos no entanto algumas parecenças. Tivemos de abandonar a agricultura incentivados por uma Politica Agrícola Comum desastrosa, quisemos atingir o bem-estar social médio dos europeus depressa demais, fomos seduzidos por bens de investimento provavelmente necessários mas com um custo de oportunidade demasiado elevado para as nossas possibilidades e tivemos problemas políticos com relações demasiado estreitas com grupos económicos.

 

O elevado deficit estrutural é um factor que aproxima mas também distancia Portugal da Grécia. O nosso território não é igual, a nossa história não é a mesma, as nossas opções foram distintas e os nossos políticos são diferentes. Contudo, fazemos parte da mesma Europa, do mesmo espaço único, somos geridos pelas mesmas forças de poder externas, tivemos de nos adaptar às definições da Politica Agrícola Comum e, acima de tudo, respondemos aos mesmos estímulos de crescimento europeu. Fomos impelidos a correr numa rampa de crescimento desenfreado sem qualquer sustentabilidade que ruiu e continuará a ruir se tardarmos a compreender que é necessário encontrar o próprio ritmo se quisermos ser bem sucedidos!

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publicado às 14:20


Temos maus especialistas, Alexandre Homem Cristo?

por Fátima Inácio Gomes, em 18.08.14

Um dos maiores encantos na vida é a capacidade de podermos ser sempre surpreendidos. Foi esse o sentimento que despontou em mim ao ler o título “Temos maus professores”, da crónica de Alexandre Homem Cristo, no “Observador”. Uma afirmação assim, tão contundente, impressiona logo pela sua vacuidade e sensacionalismo de festa popular de agosto. Sim, com certeza, temos maus professores, maus polícias, maus jornalistas, maus médicos, maus canalizadores, maus carpinteiros, maus pais, maus filhos, maus avós, maus rapazes, até bancos maus. Intrigada, fui pesquisar quem é este escrevedor tão esclarecido e a minha surpresa disparou quando me confrontei com um “mestre em ciência política e especialista em políticas de educação”! E disparou não apenas pelo buraco negro do título, mas pela argumentação encontrada para o justificar que tropeça grosseiramente na falácia, na generalização, no preconceito e na falta de informação. Vejamos, então, a fundamentação:

 

Argumento 1: “São alguns dos piores das gerações do presente que estão nas escolas a preparar as gerações do futuro” – é espantoso que chegue a esta conclusão a partir dos resultados da PACC (prova de avaliação de conhecimentos e capacidades), quando as “gerações do presente” que leccionam nas escolas não são, na sua larga maioria, estes professores. Quem realizou esta prova foram os professores contratados com menos de cinco anos, foram cerca de 10 mil inscritos e, de acordo com os números do ano letivo transato, apenas 300 ficaram colocados. Trezentos, Alexandre Homem Cristo! No activo, serão mais de 100 mil professores. Por outro, pode apresentar dados que relacionem estes 300 com os que falharam na prova? Afinal, está a falar de quem? Como pode alguém, consciencioso, informado e sério no trabalho fazer uma generalização tão grosseira quanto esta? Qual é o seu objectivo, verdadeiramente, ao denegrir toda uma classe indistintamente? Ou está a referir-se àqueles que ainda estão a estudar para professores? Se o está, nem o título é justo nem a frase é clara. Com as suas habilitações e com a responsabilidade de escrever num espaço de referência, exige-se mais.

 

Argumento 2: o corporativismo e os sindicatos, reactivos a qualquer “escrutínio”, não permitem uma avaliação verdadeira, “só aprovam avaliações em que são todos excelentes”. De facto, a Fenprof consegue ser irritante. Os sindicatos tendem a ser irritantes: é uma conquista democrática que parece já ultrapassada, verdade? Não vou aqui discutir a bondade da Fenprof, o sindicato apontado, mas gostaria de ter visto por parte do especialista uma análise fundamentada de quantos professores estão sindicalizados, para assim poder estabelecer uma relação factual entre algumas posições desses sindicatos e a dos professores. Formalmente, os sindicatos representam os professores. E na substância, representarão o pensamento da maior parte dos professores? Talvez se fizesse essa análise ficaria surpreendido. Eu, que sou professora, sei bem do que estou a falar, mas como não sou especialista, como o senhor, evitarei teorizar. Por outro lado, é já massacrante para um professor ouvir a estafada acusação de “não querem é ser avaliados”. Se há classe que é avaliada é esta. E por todos! Se em tempos houve grande polémica em torno do modelo de avaliação que a ministra Maria de Lurdes Rodrigues queria implementar, tal deveu-se ao disparate do modelo, não à fuga da avaliação pelos professores. Já chega de insistir no sofisma.

 

Argumento 3: a cereja estragada no topo do bolo - “Portugal tem maus professores. E não é por acaso: é fácil tornar-se professor. (…) quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de acção social. De acordo com os dados para o ano lectivo 2010/2011, 41% dos estudantes desta área de estudos obteve bolsa. Foi a percentagem mais elevada entre todas as áreas de estudos – ou seja, em nenhuma área há uma concentração tão grande de estudantes com baixo nível socioeconómico.”. Então, este mestre em ciência política responsabiliza o baixo nível socioeconómico dos alunos da área da educação pela existência dos “maus professores”? Em primeiríssimo lugar, deveria servir de conselheiro ao nosso governo, que muito tem contribuído para a diminuição das condições económicas da maior parte dos alunos, de todos os cursos. Por outro, devo dizer-lhe que esta que lhe fala é filha de uma costureira e de um empregado comercial, ambos com a 4ª classe. Cheguei a receber bolsa da acção social. Contudo, tenho um mestrado do tempo em que eram exigidos 4 anos para o fazer, uma licenciatura de 5 anos, um livro publicado e prefaciado por alguém que muito me honra (e que só me conheceu no momento da defesa da tese, sem favores, portanto), assim como outras coisas escritas no domínio da literatura que não importa aqui enunciar. Não senti que o nível socioeconómico dos meus pais me tivesse limitado nem as escolhas nem o caminho que segui (mas felizmente, sou do tempo de uma escola democrática, andava na 1ª classe quando se deu o 25 de abril). Não descuro, obviamente, o quanto um meio socioeconómico baixo pode dificultar os estudos – no meu tempo deixavam de estudar para ir trabalhar. Mas não define a competência do aluno. Contudo, sim, dou-lhe razão em algo: cada vez serão os piores alunos a irem para os cursos de ensino e é assustador pensar no que a Escola se vai tornar. E eu mesma o denunciei em tempos, neste mesmo espaço (http://parlamentoglobal.sic.sapo.pt/130354.html): com a deterioração das condições de trabalho, com o espezinhamento boçal dos professores como aquele que o próprio Alexandre Homem Cristo protagonizou, que bom aluno, mesmo sentindo vocação para tal, quererá ser professor? Com a sua crónica, que de estudo tem pouco, que belo serviço prestou à Educação neste país, meu caro especialista. Se não se dignificar esta profissão, com urgência, qual será o futuro das “futuras gerações”?

 

Sim, Alexandre Homem Cristo, temos maus professores – olhando para o produto, perguntar-me-ia sobre a qualidade dos seus. Mas não lhes farei essa injustiça, já que os não conheço. E porque, como sabemos, também há maus alunos.

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publicado às 12:21


Como evitar um novo BES

por Nuno Vaz da Silva, em 07.08.14

Depois dos problemas ocorridos no BPN e no BPP, pensava-se que o sistema financeiro português tinha ficado mais estável e expurgado de esquemas fraudulentos  de financiamento. As auditorias e inspecções passaram a ser mais incisivas, acompanhando as exigências da Troika para que as contas das entidades públicas e financeiras fossem mais rigorosas.

 

Termos como imparidades, testes de stress e reforço de provisões passaram a ser uma constante nas preocupações dos gestores financeiros, uns por real preocupação pela saúde da sua instituição, outros por mero receio das auditorias e inspecções externas.

Como se viu pelo recente escândalo do BES (não vale a pena eufemizar os acontecimentos porque a situação foi gravíssima), mesmo com a pressão constante das auditorias, o sector financeiro não ficou protegido contra o moral hazard.

 

Este risco de existir informação assimétrica em que um agente económico tem mais informação do que um terceiro, atingiu a insustentabilidade no caso do BES. Pelos últimos dados divulgados pelo Banco de Portugal, terá existido até uma quebra de confiança com informações incorrectas sobre financiamentos concedidos e outros produtos financeiros de elevada complexidade. Ou seja, a idoneidade e reputação (dois dos mais relevantes valores para ser membro da Administração de um Banco) terão ficado comprometidos.

 

O problema não é novo e não terá fim com a liquidação do BES. E a explicação é mais simples do que poderá parecer: Enquanto os gestores financeiros (e de outros mercados) tiverem prémios de produtividade em função dos lucros anuais obtidos, existirão incentivos perversos para ocorrerem problemas similares.

 

Mas haverá algo que se pode fazer para evitar nova catástrofe financeira?

Para se evitarem novas situações como a que ocorreu no BES, a legislação deverá incidir nos incentivos dos gestores e na criação de limites à renovação dos mandatos dos gestores financeiros. São apenas 2 exemplos aparentemente simples mas com impacto bastante relevante na gestão das instituições. Por um lado, a busca do lucro deixaria de ser o principal objectivo das instituições e com a rotatividade de gestores, os vícios da permanência em funções seriam diluídos.

 

Contudo, nenhuma medida poderá impedir quebras de confiança ou fraudes mas é imprescindível tomar medidas para reconquistar a credibilidade interna e externa do nosso sistema financeiro.

 

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publicado às 17:45


A Fúria dos Portugueses

por Fátima Inácio Gomes, em 04.08.14

A fúria dos portugueses será, naturalmente, demolidora. Não deixará pedra sobre pedra. É desta que o país se reforma, que a política se reforma, que a impunidade dos políticos e senhores da finança é reduzida a pó. Agora é que vão ser elas!

 

Já não dá para enganar: ao quarto banco salvo com dinheiro público, à custa dos nossos salários, dos nossos subsídios, das nossas reformas, da diminuição da qualidade do serviço nas escolas, nos hospitais, na segurança, o povo não só deixa de acreditar em quem o governa, como passa a agir, a exigir. O português é pacífico, mas não é néscio, é um povo valoroso e com história – o Poder treme já.

 

… ah, mas dizem-me que o primeiro-ministro ainda está, tranquilamente, a banhos, no Algarve. Apenas perturbado a planear alternativas lúdicas para o tempo chuvoso deste início de agosto. O presidente da república, por sua vez, dormirá a sesta. Terá até confidenciado que este ano o seu "jipe" de férias "não terá uma carga muito forte" (RTP, 30.07.2014). E as famílias da alta finança tomarão o chá com as restantes, mundiais, num qualquer off-shore, indignando-se, em conversas privadas, com a despesa do Estado em domínios que já deveriam ser privados (e estar a dar lucros, como a banca), como a educação, a saúde, a segurança social.

 

Ainda não tremem, então…. mas o povo português vai-se insurgir. Vai protestar numa qualquer repartição pública, para onde foi de madrugada para marcar a vez e ser atendido à hora do almoço. Se tiver sorte. Vai-se indignar contra o funcionário que lá está, sobrecarregado por dias a fio de utentes justamente indignados e pelo trabalho que se acumula, pois o Estado anda a gastar demasiado dinheiro a manter trabalhadores e dispensa-os. - A boa gestão manda cortar na despesa do Estado… há que haver dinheiro para salvar a gestão ruinosa dos banqueiros e dos grupos financeiros onde os políticos que nos governam têm interesses. - O povo português vai protestar, sim. Vai protestar com o funcionário que atende no centro de saúde, porque lhe diz que só terá consulta daí a uns meses, vai protestar por ter de ficar um dia inteiro à espera do milagre de uma vaga, vai protestar com o enfermeiro que perde a paciência, sobrecarregado pelo número de horas de trabalho, devido ao corte de pessoal. Vai protestar porque o professor já não quer saber do filho, cansado de andar com a casa às costas há anos sem que lhe reconheçam o trabalho, cansado de aguentar a revolta que os alunos levam da casa para a escola, a revolta dos pais desempregados.  E também vai protestar por o professor querer saber do filho, lhe lembrar responsabilidades, “quem sabe do meu filho sou eu, quem se julga que é?”.

 

Já são quatro os bancos salvos pelo Estado. Bancos que se afundaram devido aos negócios ruinosos daqueles que os dirigem, em benefício próprio. Exclusivamente próprio. No táxi, no cabeleireiro, no mecânico, na mercearia, o bom português dirá que “são todos uns ladrões”, “deveriam ir todos presos”, “os políticos são todos iguais”. Os comentadores da praça falarão de “imoralidade”, de “responsabilidade”, de “gestão danosa”. Mas o dinheiro do Estado irá salvar mais um banco. E quando o Governo vier anunciar, em breve, mais cortes nas funções do Estado, mais cortes na função pública, quem, não sendo funcionário público, virá defender a função pública? Quem se insurgirá? Quem se lembrará que a função pública, afinal, são os funcionários, os enfermeiros, os médicos, os polícias, os professores, os varredores de rua que fazem a máquina que os serve funcionar? Quantos agirão contra a gestão danosa destes Governos?

 

Sim, a fúria dos portugueses será demolidora. Vai-se virar contra aqueles que, cada vez com mais dificuldade, os servem. Não há grandeza neste povo, afinal. Não há génio, não há chama. E os Governos, sabendo disso, vão alimentando a pequenez deste povo, cultivando a divisão privado e público, trabalhador e reformado, novo e velho, porque assim lhes convém. Este povo fará como o fulano que, depois de ser enxovalhado pelo patrão se cala e, chegando a casa, pontapeia o cão que lhe festeja a chegada, dá uma bofetada ao filho que lhe mostra o caderno e espeta um murro à mulher que lhe faz a comida. Para depois se queixar do cão, do filho e da mulher.

Com um povo assim, não é difícil governar-se.

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publicado às 14:59


Quando os politicos deturpam a política

por Nuno Vaz da Silva, em 18.06.14

A politica moderna é cada vez mais uma ciência que abrange as actividades de captura e manutenção do poder. Esta concepção está bem presente nas lutas intra-partidárias e nas trocas de argumentos para alcançar o governo de um país.

O bem público pode até ser uma justificação para as trocas de argumentações politicas. Ainda assim é muito usual constatarmos que o alimento dos políticos modernos não é o bem estar dos seus concidadãos mas tão somente o aumento do poder em termos pessoais e para o seu grupo de influência.

Esta visão pouco romântica da politica tem provocado o afastamento de muitas pessoas que a consideravam uma actividade nobre e com ampla utilidade social. Para além disso, as lutas fratricidas pelo poder levam a rupturas pessoais e criam um ambiente desgastante que nem todos estão dispostos a tolerar.

Isto passa-se tanto em Portugal como em outros países e está bem visível no tipo de discurso dos candidatos a líderes políticos, recheado de demagogia, ataques pessoais, redundâncias e escasso em argumentos, perspectivas sustentáveis de futuro e estratégia.

Por exemplo, quando se assiste à alteração de apoios nos candidatos a líderes do PS sem ter havido uma real troca de argumentos sobre a melhor estratégia para o partido e para o país, isso demonstra para a sociedade que os militantes estarão mais preocupados em preferirem o candidato não pelo seu perfil nem pelo seu programa mas pela probabilidade de ser eleito e, assim, garantirem a melhoria do seu status quo pessoal.

A politica e a democracia têm perdido as nobres funções que estiveram na sua génese com esta adulteração dos seus objectivos primordiais. E a verdade é que se alguém pretende ser o Dom Quixote desta guerra pelo poder, facilmente é vencido pelo populismo demagógico de quem não tem, não quer e, infelizmente, não precisa de ter argumentos para ganhar a confiança dos seus pares (sejam eles militantes, simpatizantes ou cidadãos independentes).

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publicado às 12:56


As insondáveis lógicas de mercado

por Pedro Brinca, em 16.06.14

O mercado livre e concorrencial, vulgo capitalista, funciona com base na lei da oferta e da procura. Isso leva automaticamente à valorização dos produtos de acordo com a sua utilidade, qualidade e escassez. Também os profissionais, na perspetiva de recursos humanos, se transformam rapidamente em custos de produção, vistos na mesma lógica de mercado, porque disputados pelas empresas do setor.

Por isso, não se consegue entender esta lógica que tem prevalecido na área da comunicação social, de onde têm sido afastados os bons profissionais, para baixar os custos de produção, ficando a prevalecer os recursos humanos menos qualificados, menos experimentados e menos habilitados a garantir a desejada qualidade. A aposta em matéria-prima de nível inferior nunca foi uma boa estratégia quando se trabalha para um mercado vivo e exigente.

E talvez o problema seja mesmo este. Para o mercado tanto lhe faz, “bacalhau basta”. Quando o consumidor come qualquer coisa que lhe ponham à frente, acaba por comer “coelho por lebre”. E lá se tinha que voltar ao velho dilema do ovo e da galinha, para saber o que nasceu primeiro, se a falta de exigência do consumidor ou o baixo nível de qualidade da oferta.

Mas trabalhar num órgão de comunicação social é mais do que exercer uma mera tarefa económica. Há uma responsabilidade social inerente, aliás como em qualquer outra atividade, mas aqui com um grau de exigência superior. É impensável que um restaurante não garanta a segurança alimentar e até os bons hábitos de consumo, apenas numa lógica de lucro. Há, aliás, legislação para o garantir. Mas ainda não se fizeram leis para garantir a segurança intelectual.

O que os novos gestores da Controlinveste não compreendem, ou até sabem bem demais, é que uma rádio não vale pela sua antena, pelos seus estúdios e nem até pela sua marca. Vale pelos seus profissionais, pois são eles que distinguem as rádios umas das outras. Despedir os melhores elementos da redação de uma rádio para poupar dinheiro é como despedir os jogadores titulares do Benfica e ir jogar com as reservas. O campeonato estaria perdido…

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publicado às 13:00


Eleições em Portugal mas pouco europeias…

por Nuno Vaz da Silva, em 22.05.14

Aproxima-se a data das eleições europeias e começa a ser efectuado o balanço de mais uma campanha eleitoral repleta de acusações mas com reduzida discussão de argumentos sobre o futuro da Europa.

 

Esta não é uma realidade nova neste tipo de eleições. À falta de temas europeus cativantes para o eleitorado, os partidos recorrem a assuntos nacionais para aquecerem o tom dos discursos e roubarem o máximo número de votos à abstenção que se espera elevada. Esta estratégia, apesar de habitual, é profundamente errada por significar mais uma oportunidade perdida de discutir o presente e o futuro da Europa.

 

Não será de estranhar que os eleitores se questionem sobre a relevância deste acto eleitoral mas a verdade é que é bastante importante. Não só a maioria das decisões europeias têm primazia sobre a legislação nacional como a capacidade de influência dos deputados junto dos seus pares é determinante para o futuro de Portugal enquanto membro de pleno direito da União Europeia.

 

Ainda assim gostaria de destacar alguns aspectos interessantes deste período eleitoral:

 

1- A Petição “Nunca Mais”, cujo primeiro subscritor é o Professor Nogueira Leite e que pode ser encontrada aqui:

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=NuncaMais

 

2- Algumas propostas irrealistas como por exemplo a criação de um fundo que consolide as dívidas das famílias (proposta do PPM)

 

3- O reduzido empolgamento de Paulo Rangel, ao contrário daquilo que nos habituou em actos eleitorais anteriores

 

4- A ironia de alguns cartazes como a falsa selfie do PS

5- A argumentação de Marcelo Rebelo de Sousa, apelando no voto PSD/CDS como sendo um voto em Jean-Claude Juncker

6- Os tempos de antena verdadeiramente deprimentes e pouco esclarecedores

 

Quando uma campanha não tem relevância pelos argumentos mas sim pelos factos políticos, alguma coisa está errada. Ou os actores não querem discutir o tema; ou o tema é pouco discutível; ou então o eleitor não está interessado para essas questões. Seja uma das hipóteses, um misto das três ou outra qualquer, a verdade é que infelizmente estas eleições terão mais impacto em Portugal do que na Europa. Senão vejamos:

 

- A coligação governamental terá um mau resultado ou, pelo contrário, a diferença de votos face ao PS será pequena?

 

- António José Seguro afirma-se como candidato a Primeiro-ministro ou continuará a ser um líder interino?

 

- Os votos na coligação sustentarão o Governo ou provocarão uma mini remodelação?

 

Fica contudo por esclarecer o mais importante. Qual o projecto de Europa defendido pelos candidatos a deputados?

 

Afinal de contas, para isso é que existem eleições europeias!

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publicado às 10:51


Os exames e a implosão das escolas

por Fátima Inácio Gomes, em 22.05.14

Semana de exames para o 4º e 6º ano. Eis uma medida cara a Nuno Crato, o avatar do “rigor e da exigência” no sistema educativo. Nada tenho contra a aferição de resultados. Sequer contra exames de caráter nacional. Tenho, contudo, contra a parafernália paranóide que os rodeia.

 

De repente, vejo o ensino obsessivamente direccionado para os resultados nos exames. Os resultados dos meninos ditarão a competência do professor. Os resultados dos meninos ditarão a avaliação da escola. Os resultados dos meninos ditarão os rankings, as boas escolas, as más escolas. E esta ditadura recém-criada contamina o próprio processo de ensino - não importa já se há outras atividades promotoras de sucesso. De repente, todo o processo de ensino ficou direccionado para treinar os meninos para o bom desempenho num determinado formato de prova. Repito, os alunos são treinados, amestrados. E a pressão instala-se em toda a comunidade escolar - professores, alunos, pais: há treino específico em aulas suplementares, há centros de explicações para exames de 4º e 6º ano, as editoras publicam cadernos de preparação para os exames do 4º ano e 6º ano.

 

E isto na fase preparatória. Chegado o dia dos exames, novo filme. O “rigor e exigência” impõem que sejam outros professores os vigilantes (para não haver manipulação dos resultados), impõem a deslocação dos meninos para uma escola sede, impõem silêncio absoluto. Assim, em nome desta exigência, outros alunos não podem ter aulas… e os encarregados de educação destes alunos reclamam. Diz o presidente da Confap que “Houve um ano inteiro para preparar dois dias, de modo a que as escolas pudessem funcionar normalmente. Mas nada se fez e hoje é provável que muitos pais se vejam numa situação de não ter onde deixar os filhos". Tem toda razão. Mas se os ovos são os mesmos, a omelete não poderá ser diferente. O que é que o Ministério mudou nas condições das escolas, ou nas condições de realização das provas, para que a omelete melhorasse?

 

A verdade é que Nuno Crato sofrerá de uma forma de esquizofrenia que coloca em confronto o seu impulso de “rigor e exigência” e a sua pulsão de “implodidor” do Ministério que tutela. O Ministro está a implodir a escola pública, mas quer que ela seja, ao mesmo tempo, modelo de “rigor e exigência”. Assim, lança os exames de Cambridge, secundado por parceiros amigos, mas deixa às escolas o encargo de se “amanhar” com a logística, com a correcção e com as muitas páginas de directivas rigorosas e, algumas, até caricatas. Assim, obriga a que alunos de dezenas de escolas do 1º ciclo realizem a prova numa única escola, sendo impossível manter as aulas a decorrer com normalidade para os restantes alunos. Se são precisas salas para centenas de alunos, repito, centenas de alunos, que alternativa haverá se não a de desalojarem os alunos dos outros anos/ciclos? Se são precisos professores, que não os do 1º ciclo, para vigiar estas centenas de alunos, como não retirá-los da leccionação das aulas dos alunos de outros anos/ciclos? E o “rigor e exigência” devido a todos estes alunos?

 

Mas a ação esquizofrénica de Nuno Crato não é doença, é fachada. Porque, na verdade, o “rigor e exigência” é um placebo que mascara um objetivo único: implodir a escola pública, transformando-a no recurso dos pobres e dos sem alternativa. Porque quem tem poder de escolha correrá para a escola privada, por oferecer condições que cada vez menos a escola pública poderá oferecer, por ação do governo, não por incompetência das escolas. Como uma reportagem televisiva fez questão de mostrar, numa escola privada (como terá acontecido, aliás, nas restantes), os exames de 4º e 6º ano não impediram que os restantes alunos tivessem aulas – pois não, eram 28 alunos, contra as centenas que realizam nas escolas públicas; os meninos das escolas privadas foram para as suas escolas, para as suas salas, os meninos das públicas, muitos deles, tiveram de ir para outra localidade. Assim, todos quereremos ter os nossos filhos nas escolas privadas. Ainda bem que o senhor ministro está a pensar no cheque-ensino! Vai ser maravilhoso quando o menino do Bairro do Cerco for estudar para o Colégio Luso-Francês!...

 

Que imagem pretende, afinal, o senhor ministro dar da escola pública? É o mesmo que pedir a dois varredores para limpar a rua e a um entregar-lhe uma escova de dentes e a outro um aspirador e convidar-nos a escolher. Se de facto defende a escola pública, não a afunde e não privilegie as privadas, senhor ministro. Se de facto defende o “rigor e a exigência”, exija que, por exemplo, os alunos das escolas privadas realizem os exames nacionais do ensino secundário, aqueles que dão acesso ao ensino superior (e não os do 4º ano, que não são mais do que um acto de vaidade) nas escolas públicas, tal como acontecia quando foram inicialmente implementados. Porque também são conhecidas as “condições especiais” em que alunos de algumas escolas privadas realizam estas provas, tal como é do conhecimento público, e fruto de estudo, o desempenho dos alunos do privado e do público no ensino superior. Ou será que o “rigor e exigência” de Nuno Crato é também esquizofrénico e só toca a alguns?...

 

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publicado às 10:41


Democracia da cenoura

por Pedro Brinca, em 30.04.14

Estão quase a realizar-se as eleições para o Parlamento Europeu. Não é preciso ter grandes capacidades divinatórias para adivinhar que vão ter uma elevada abstenção.

 

Os trabalhadores da Amarsul, empresa que faz a recolha do lixo nos municípios da península de Setúbal, decretaram greve para o início deste mês de Maio. Dias 30 de Abril e 2 de Maio, mais propriamente. Não é preciso ser bruxo para perceber que vai contar com uma enorme adesão.

 

É que os sindicatos já perceberam que, por muito meritório que seja o motivo da contestação, é preciso acrescentar sempre algo de mais apelativo. E um fim-de-semana prolongado de cinco dias é uma boa motivação para fazer greve.

 

Talvez fosse bom aprender alguma coisa com esta estratégia e começar a agendar os atos eleitorais para os dias de semana, com direito a faltar ao emprego mediante justificativo do dever cívico cumprido.

 

No fundo, é o que se faz com as dádivas de sangue. Muitos só colaboram para poderem ganhar uns dias de descanso. E foi essa a solução encontrada recentemente para que os contribuintes cumpram os seus deveres fiscais, com o sorteio de um automóvel.

 

Votar ao domingo implica trocar o lazer pelo dever e a tal ninguém está disposto. Vamos lá montar uma democracia com o engodo da cenoura na ponta da vara. De palas nos olhos, lá se cumprem as obrigações, ainda que pelas razões erradas.

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publicado às 12:32




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