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Manual de Geografia Eleitoral – 1

por Paulo Guinote, em 10.03.14

Adoro politólogos. São uma espécie de comentadores de política só que em vez de lerem o Correio da Manhã no café estão na Universidade e vão à televisão.

 

No resto, indistinguem-se nos inconseguimentos das suas previsões, com duas meras excepções: António Costa Pinto porque diz coisas tão vagas e gerais que acerta sempre, mesmo quando falha, e Joaquim Aguiar porque é tão confuso que ninguém percebe o que diz e, por consequência, se acertou ou falhou.

 

Mas todos eles - com a possível honrosa ressalva do André Freire - pararam em termos teóricos nos anos 90 quando se divulgou com enorme sucesso a tese de que "as eleições se ganham ao centro".

 

Ora... nem Seguro, nem Passos Coelho são especiais inovadores e para as europeias atiraram os dois para o centro com Assis e Rangel que, com poucas divergências e muito sentido de Estado (mas o segundo tem postura mais engomada), estão ao colo um do outro no espectro político.

 

Qual a maior diferença?

 

É que Rangel está à frente de uma coligação que tem um partido inteiro para cobrir o seu lado direito pelo que pode instalar-se com um discurso inócuo ao centro, enquanto que o Assis se quer instalar ao centro, deixando a esquerda toda entregue à concorrência, talvez com a esperança de que o Bloco esteja em perda irremediável e o PCP não consiga ir muito longe dos dois dígitos.

 

Só que, mesmo num dia mediano, PCP e Bloco devem levar uns 15% do eleitorado à esquerda do PS e à direita do PSD tudo entra no mesmo saco.

 

O Tó Zé não percebeu isso.

 

Não percebeu que o centro ficou perdido, pois o Paulo Rangel tem um ar muito mais alinhadinho ao centro (mesmo se as suas convicções podem ser bem mais à direita) conservador, enquanto o Assis parece um miscasting seja em que perspectiva for, até porque depois de tantos disparates do passado só um distraído, surdo e analfabeto funcional o pode considerar "estruturante" da esquerda pequenina.

 

E o Tó Zé não percebeu isso e que está entalado numas eleições que deveria ganhar com uma enorme vantagem.

 

Porque ficou parado nas teorizações politológicas dos anos 90, não percebendo que nessa altura Guterres ganhou "ao centro" porque Cavaco Silva tinha deixado o PSD dizimado e o CDS num táxi e que Sócrates ganhou porque o adversário era o líder das santanettes.

 

Entretanto, a Terra girou umas vezes e era tempo do Tó Zé deixar de ter miúfa dos adversários internos e dos "esquerdistas".

 

E vai passar a noite das eleições num sobressalto.

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publicado às 10:50


Exames Made in Cambridge

por Paulo Guinote, em 03.02.14

Não é de agora que acho que os exames de 9º ano se devem estender também do Português e da Matemática ao Inglês (por causa da introdução no 1º ciclo que deveria ser sistemática e coerente e não um patchwork como acontece na prática), às Ciências (Naturais, da Natureza, com ou sem Físico-Química, mesmo que sem efeitos na avaliação final das disciplinas) e à História e Geografia (Ciências Sociais).

 

Para isso, acho que deveria ser introduzida um sistema de exames de forma gradual, não num dado ano ou momento por dá jeito, mas porque corresponda ao fim de um trajecto no ensino Básico de uma coorte de alunos que já teve Inglês no 1º ciclo.

 

Esse exame deve ter como orientação o programa da disciplina e as metas curriculares definidas com base nele e não um referencial externo que não conduziu o trabalho de professores e alunos ao longo de, pelo menos, 5 anos.

 

Deve ser um exame feito em articulação com os do Ensino Secundário.

 

Não deve ser um exame feito para efeitos de fogo de artifício e – sublinho-o – servir de base a um negócio de produção de materiais, formação, certificados e/ou explicações. Deve ser um exame como é o de Português ou de Matemática, mesmo com todas as críticas que merecem a muita gente, se possível imune a capelinhas académicas.

 

Este exame made in Cambridge – seja de nível XCÓCÓ2R1 ou de nível XIXI67LÇ21 – não faz parte de um sistema coerente de exames para o nosso Ensino Básico, nada garante que esteja de acordo com os programas em vigor e que os alunos e professores seguiram desde sempre, nem sequer sabemos se estão de acordo com as metas curriculares cujo cumprimento deveria ser avaliado daqui a 3 ou 5 anos.

 

O resto é conversa fiada.

 

Seja dos que criticam a examocracia, recusando toda e qualquer avaliação externa por questões de princípio ideológico, seja dos que querem qualquer exame, em especial se for oportunidade para estabelecer parcerias empreendedoras.

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publicado às 13:05


As Narrativas

por Paulo Guinote, em 22.01.14

A de Cavaco é que sempre foi uma pessoa honesta. Pessoalmente honesta. Pessoalmente impoluta. Pessoalmente incapaz de uma pequena malfeitoria. Os dois mandatos com maioria absoluta é que estragaram tudo porque deram para muita gente se aproveitar dele e à sombra dele cresceram as ervas daninhas. Tudo bem. Só que isso não explica a permanência dos diasloureiros e oliveiraecostas na sua órbita muito depois do exercício das tais maiorias, quando deles já não precisava e tal só se explica por opção própria. Mau avaliador da natureza humana? Pessoalmente… posso acreditar que sim, mas…

 

A de Guterres foi a de um pântano alegadamente percebido só ao fim de 6 anos, quando em entrevista muito recente na SICN o agora quase esquecido Manuel Monteiro contou os esquemas e tráficos de influências dessa segunda metade dos anos 90 em que um tal portas se ocupava a negociar posições nas empresas públicas e cargos de chefia na administração para os seus fiéis seguidores. Desconheceria ele que tal se passava? Era ele mais um dos que, pessoalmente, nunca prevaricou, nem aceitou que com o seu conhecimento se prevaricasse? Pessoalmente… posso acreditar, mas…

 

A de Barroso foi de se safar logo que arranjou melhor. Nem chegou a novela, foi mero episódio duplo de folhetim. Folhetim que continuou em tons paródicos com o Santana que, justiça lhe seja feita, era mais ao modelo republicano francês, mas com bandana em vez de capacete.

 

A de Sócrates, tal como lavrada em autos numa revista do Expresso com prosa emplumada de Clara Ferreira Alves e polvilhada de vernaculares expressões para dar mais densidade ao testemunho, é que teve de enfrentar as aristocracias do PS para se chegar ao poder e que isso implicou compromissos e outras coisas assim, incluindo um passeio à Tróia para implodir torres com o empresário preferido até deixar de o ser. Não é que tenha dito isso tudo, mas percebe-se. chegado ao poder, elevou ao pariato e armou cavaleiros aos varas, silvaspereiras, campos e outras inanidades carreiristas de tão escasso ou menor calibre, que fizeram trigo limpo do aparelho de Estado. Pessoalmente… diga ele o que disser… acho que pessoalmente mais valia ter um mínimo de pudor…

 

A de Passos Coelho, afilhado de um ângelo em vez de uma estrela, é a de que veio salvar o país e está a salvá-lo, a pulso e com muita coragem, que o salgado assim o incumbiu e o relvas congeminou, fora o resto da malta que é liberal que se farta desde que o estado lhe pague. O meu problema é que não percebo em que parte da história entram os branquinhos, relvas de segunda extracção, e mais os agora periféricos carrapatosos, catrogaspintelhentos, nogueirasleites ou os recadeiros televisivos como o sempre jovem mendes, mais aquela ganga toda de imberbes de mba por causa do apelido ou recrutada nos blogues “de referência”. Passos Coelho chegou ao poder para limpar a governação do lixo mas no lixo se vai comprazendo em enterrar. Pessoalmente… também pode ir falando o que bem entender… que já nem consigo ouvir, apenas vejo os fios que puxam a marioneta e a mão que faz a boca mover-se.

 

Todas as narrativas, em especial as mais longas, assentam na alegada honestidade ou probidade do Grande Líder, atraiçoado por gente menor, não representativa dos Altos Desígnios e Alta Obra feita.

 

É treta. Pura treta.

 

Dos que se afirmaram sempre independentes das pressões (Cavaco) aos que afirmam ter-se emancipado dessas pressões (Sócrates) desaguando neste que agora temos, que já se percebeu ser guiado pelas altas pressões, a verdade é que tudo se resume a uma rotação de clientelas sempre a sacar para si e as suas cliques o mais que podem, negando sempre tudo com o maior dos dislates e culpando “o Estado” pela “crise”, pelo “défice”, pelo “desequilíbrio das contas”, tudo culpa de cantoneiros e oficiais de justiça, professores e enfermeiros, juízes e polícias.

 

E o que é mais chato?

 

A porcaria de narrativa que está à espera que esta termine.

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publicado às 18:43


A nova Narrativa sobre a Liberdade de Escolha

por Paulo Guinote, em 22.11.13

Assim como pode ser entendida a partir de escritos e intervenções recentes sobre a matéria por parte de alguns dos seus defensores:

 

• Afinal a defesa da liberdade de escolha não é ideológica, pois o que pretendem é melhorar o serviço público de Educação e torná-lo economicamente mais barato. Quem há poucos tempo os ouvia clamar que o valor da “liberdade” (para alguns) estava acima de qualquer outro estava a ouvir mal.

 

• Mas, afinal o que está em causa também não é a racionalidade económica de tal medida, porque quando se argumenta que é possível absorver os alunos das escolas privadas com contrato de associação numa rede pública em contracção, argumentam que, enfim, o que interessa é a qualidade do serviço.

 

• Só que, afinal, não é qualidade do serviço que interessa mal se chama a atenção para o facto das escolas com contrato de associação não estarem assim tão bem colocadas nos rankings e, pelo contrário, ficarem atrás das melhores escolas públicas, passando a ser defendido que o que interessa mesmo é a satisfação “das famílias”.

 

• Quando se pergunta de que “famílias” estão a falar, se não estão apenas a pedir apoio para quem já é privilegiado, passam a dizer que isso agora não interessa nada que o que interessa é o valor supremo da “liberdade”.

 

E voltamos ao debate ideológico sobre a instrumentalização do conceito, que é quando – quando percebem que estão a deitar borda fora valores constitutivos dessa mesma liberdade, pois encaram-na de uma forma redutora ou, no limite, primitiva, em que impera a liberdade do mais forte – eles começam a dizer que o debate não é ideológico da parte deles que é dos outros.

 

E assim, por aí fora… em circuito fechado.

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publicado às 16:50


Moção de confiança aprovada

por Paulo Guinote, em 30.07.13

Ou seja, a maioria aprova a ministra swap, que fez contratos exóticos enquanto gestora pública durante os governos do PS mas não conhecia a sua verdadeira dimensão, embora tenha sido directora do Departamento de gestão Financeira da REFER de 2001 a 2007, coordenadora do Núcleo de Emissões e Mercados do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público e professora universitária (ok, foi na Lusíada, mas…) da área da Economia e Finanças.

 

E aprova aquele novo ministro que pertencia a um conselho muito importante de fiscalização da SLN que nada fiscalizou e muito antes já tinha sido simpático para com as aventuras fiscais de Oliveira e Costa. Quando esteve na FLAD aprovou a participação desta instituição no capital do Banco Privado Português, outro exemplo de sucesso do empreendedorismo nacional. Claro que nada disto faz dele malfeitor, ou algo semelhante; apenas faz dele uma pessoa demasiado distraída para ser governante, mesmo numa pasta de passeios e recepções como os Negócios estrangeiros.

 

E aprova ainda o ministro mais branquinho de sempre, tão branquinho e ingénuo que foi contratado por uma empresa de que quase desconhecia a existência e afirmou explicitamente não conhecer ao que se dedicava.

Isto para não falar em outras situações que permanecem do passado e que já se enquistaram.

 

Quanto aos grandes valores que dizem ter entrado para o Governo, sinceramente, não sei bem o que terão de tão excepcional, como bem assinalou um concorrente de Pires de Lima no mundo empresarial, Provavelmente receou foi dizer que o apelido tem sido o principal trunfo do novo fetiche ministerial de Paulo Portas. Quanto a Moreira da Silva, mais um presidente jotinha na ribalta, parece saber imenso sobre áreas acerca das quais o Governo não tem qualquer política, ou seja o crescimento sustentável e as alterações climáticas. Mas, quem se acomodou a Nobre Guedes (o anterior fetiche ministerial de Paulo Portas) também se acomoda bem a isso.

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publicado às 18:53


Os Testas de Ferro

por Paulo Guinote, em 15.07.13

Por alguma inacção e porque gosto dos devaneios do Luís Pedro Nunes, fiquei a ouvir uma longuíssima intervenção de Clara Ferreira Alves na última edição do Eixo do Mal, apesar daqueles óculos saídos directamente dos anos 70.

Depois de me abstrair, consegui isolar a ideia essencial – não muito inédita – de que Passos Coelho será PM enquanto os interesses económicos instalados em seu redor e que o levaram ao poder dele precisarem. CFA só se esqueceu de dizer que apenas se estará a passar o mesmo que se passou com Sócrates que caiu quando os banqueirosetc quiseram que caísse.

Concordo com CFA nessa análise pois fui sendo obrigado a reconhecer que PPC se revelou incapaz de ir além da tal coligação de interesses que, quando se afastou de Sócrates não o fez para que se desenvolvesse uma política de interesse nacional, mas apenas para que a política protegesse melhor os seus interesses particulares, no que Sócrates estava a revelar-se pouco eficaz.

Mas se esta ascensão de PM’s com base em coligações de apoios e interesses não é nova e remonta a muita boa e má gente do passado mais ou menos recente (basta rastrear os escândalos dos financiamentos políticos por essa Europa desde o pós-guerra), nos dias que vivemos parece uma prática generalizada e assumida como mainstream.

Pelo que PPC e o seu governo continuarão a existir – e Paulo Portas a meter a sua prosápia na sacola – enquanto os ditos interesses não encontraram âncora segura e fiável no PS. Daí a necessidade de reunir os três estarolas numa só solução governativa que afaste os indesejáveis e comprometa todos na gestão do pote.

Não é nada de novo, repito. E nem os fogachos que acenam com um Rui Rio e um António Costa trazem algo de novo, pois nada disso está devidamente consolidado e com as garantias de retribuição por apoios eventualmente a conceder.

E é nessa área das retribuições que, não me desenvolvendo por agora muito mais, por exemplo a área da Educação é central, por ser aquela que os interesses pensam existir um nicho muito apreciável de negócio a partir de uma redistribuição dos fluxos financeiros do orçamento do MEC.

Entretanto, lá por fora…

Tory party funding faces scrutiny as voters voice distrust of links with donors

Exclusive dinners, influential trade missions, and invaluable PR opportunities raise questions over David Cameron’s ties with big business.

Bárcenas pasa al ataque contra Rajoy y amenaza con contarlo todo ante el juez

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publicado às 16:19


A Questão Essencial Da Falta De Confiança

por Paulo Guinote, em 06.06.13

Há algo que o ministro Nuno Crato não parece ter entendido acerca dos professores e da relação deles para consigo.

 

Na entrevista de 3ª feira à TVI 24 e em algumas declarações recentes parece transparecer uma certa mágoa, talvez mesmo uma espécie de ressentimento em relação àqueles que se vão revelando ingratos em relação ao seu papel como governante que, nas suas palavras na TVI24, nem sequer fez declarações negativas sobre a classe docente e sempre afirmou estimar os professores. ou algo parecido. E que até fez publicar um documento para a organização do ano lectivo de 2013-14 aparentemente menos triturador do que seria de esperar.

 

Mas...

 

Nuno Crato parece não ter ainda entendido que a atitude dos professores (e não só) em relação a este governo e a qualquer dos seus elementos é a de completa falta de confiança, pois sabe-se que nada parece ser um "valor absoluto" e tudo parece ser transitório, ao mesmo tempo que nenhum compromisso do Estado para com os cidadãos comuns (desde a aposentação aos apoios sociais, passando pelas relações laborais na máquina administrativa do estado) tem qualquer valor contratual para ser verdadeiramente respeitado.

 

Resumindo, não existe qualquer base sólida sobre a qual seja possível estabelecer uma relação de confiança com qualquer governante em exercício, crescendo, muito pelo contrário, a plena consciência de que não há qualquer pudor em justificar o desrespeito pela garantia de ontem com qualquer argumento oportunista e com uma estratégia, no essencial, parecida à que antes se criticava aos governos de José Sócrates.

 

No caso do governo de Sócrates, fomo-nos habituando, mesmo que desgostando, a um estilo de fuga à realidade próximo do delírio, em que se substituíam os factos pela sua enunciação. Ele anunciava o fim da crise coma  convicção de que das suas palavras nasceria o crescimento económico.

 

No caso do governo de Passos Coelho temos algo um tanto ou quanto diferente, pois parece que as coisas são ditas, logo à partida, com a convicção de que se tornarão em... nada. A enunciação não se substitui à realidade, não há qualquer delírio, mas apenas uma enunciação instrumental para ocupar espaço e tempo, até ser substituída por outra enunciação que, por se saber totalmente desfasada dos factos, nem sequer se preocupa em justificar minimamente a anterior falsa enunciação.

 

Sócrates fazia declarações descoladas da realidade na esperança que elas se concretizassem. Passos Coelho faz declarações descoladas da realidade na certeza que elas não se concretizam.


E no meio disto tudo, todos os elementos do seu governo, Nuno Crato incluído, aceitaram esta estratégia como válida e exercitam-na com maior ou menor habilidade, mas já com muito diminuta capacidade de convencimento de quem os ouve.

 

Este despacho de organização do ano lectivo existe, mas nada garante que não seja retorcido, adaptado ou truncado daqui a um mês ou dois, quando se descobrir a enésima derrapagem orçamental e o mais que enésimo buraco nas contas, a qual criará novas condições concretas, apresentadas como inesperadas e imprevisíveis.

 

Embora todos saibamos que nada disto é real.

 

Nuno Crato não deveria estar magoado com os professores, mas sim consigo mesmo. Por ter aceitado continuar tanto tempo nesta estratégia (?) ao ponto de se distinguir muito pouco de um qualquer outro Rosalino ou Moedas.

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publicado às 12:38


Na Falta de Mineiros, Há Professores

por Paulo Guinote, em 16.05.13

Não é segredo que entre os tanques de pensamento que orbitam este governo e estiveram na origem de algum do seu ideário Margaret Thatcher é uma espécie de mãe espiritual.

 

Ora… aquela singular e mítica sucessão de vitórias eleitorais esteve quase para não acontecer, em virtude do que estava a ser o descalabro económico do seu primeiro mandato. Tudo acabou por ser salvo pelos argentinos, quando decidiram tomar as Malvinas/Falkland e a Maggie se tornou uma warlady. Só que por cá não temos ninguém que nos invada as Berlengas, sendo que a Madeira nem oferecida com dote a querem com o jardinesco lá instalado com o seu séquito. Então há que ir buscar uma lição diferente na governação da Dama de Ferro.

 

E os liberaizinhos de tertúlia encontram esse exemplo de firmeza e “liderança” na guerra travada pela sua idolatrada Margaret com os mineiros e os seus sindicatos, em particular com o então muito influente Arthur Scargill. Entre nós não há nenhum sindicato assim tão forte, nem o Arménio Carlos tem um estilo capilar tão arrojado, nem existe uma classe profissional tão vasta e determinada como era a dos mineiros britânicos quando os conservadores decidiram dizimá-los para mostrar como não temiam o movimento sindical.

 

Mas há os professores, em especial do ensino público. Que parecem ser (ainda) muitos e cujo rasto de demonização, iniciado há meia dúzia de anos por Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, parece ser fácil de retomar, até porque muitos dos meninos-guerreiros assessores do actual governo parecem nutrir por eles um ódio muito particular, como se sentissem especial prazer em apoucá-los, acusando-os, conforme os momentos, de serem privilegiados mas igualmente incompetentes, uma espécie de aristocracia proletária, qualificada como que por engano, mas no fundo uns inúteis, se bem que relativamente perigosos.


Sei que não faz muito sentido, mas naquelas cabecinhas engomadinhas é tudo assim, muito elaborado mas na base da pobreza intelectual franciscana, alimentada a preconceito, ignorância factual mas muita prosápia e peneirice de quem leu umas coisas e teve aulas em estrangeiro.


(ahhhhh… este parágrafo, embora curto, fez-me libertar uma boa quantidade de toxinas… e ainda não adjectivei tudo o que me apetece)


E então devem ter convencido o actual PM – pessoa que cada vez me aparece abundar mais em convicções que entram pelos ouvidos ou em pastinhas finas – que os professores poderiam ser os seus mineiros, a sua guerra particular, capaz de o mostrar um líder forte, capaz de enfrentar os poderosos sindicatos e interesses corporativos e assim iludir a catástrofe económica em que nos vai rapidamente afundando.

 

E vai daí o homem chega a Paris e decide dizer umas parvoíces, retomando a tese demográfica que uns imbecis (mmm… a adjectivação de quando em vez alivia a tensão…) insistem em metralhar como se fosse um mantra inescapável, só faltando que recuperem os dados do aldrabado estudo tipo-fmi.


Ora… todos nós sabemos que ele sabe que nós sabemos que… ele disto não percebe nada.

 

E que mais valia estar calado… até porque os mineiros entraram em guerra aberta, o que termina sempre com uma vitória ou derrota total de uma das partes, enquanto que os professores, se conseguirem ser inteligentes e os seus representantes e líderes (sindicais ou a nível de escola) souberem estar à altura das suas responsabilidades, ganharão muito mais em optar pela guerrilha.

Que, como sabemos, sendo cirúrgica, pode moer quase indefinidamente até à queda do adversário.

 

É o que espero. E o que desejo.

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publicado às 12:14


Algo Incompreensível

por Paulo Guinote, em 03.05.13

A forma como certos especialistas, ou que passam por sê-lo, insistem em algo que manifestamente é mentira ou está longe de ser o essencial.

 

António Costa, do Diário Económico, continua hoje na senda dos que aplaudem uma reforma do Estado que parece apenas preocupada em fazer cortes, rescisões, mobilidades, achando que ainda isso é pouco, que é mesmo preciso é abandonar serviços.

 

Não se lê qualquer preocupação com os procedimentos, não se lê nada sobre mecanismos de controle das más decisões de gestão ao nível político ou empresarial e transfere-se sempre o ónus do peso da despesa para os executores de base.

 

Mas não é o único. Não deixa de ser espantoso que larguíssima maioria dos especialistas, desde quem escreve há anos e anos sobre estes assuntos até quem foi decisor político com acesso a todo o tipo de informação, tenha optado por culpar sistematicamente quem tem menos capacidade de pressão nos corredores políticos, enquanto parece absolver em termos práticos quem influenciou ou tomou decisões brutalmente gravosas.

 

Fala-se do BPN como se tivesse sido apenas Oliveira e Costa a lucrar, do BPP como se tivesse sido apenas um azar de João Rendeiro, do Banif e BCP como se os seus prejuízos não tivessem responsáveis e o Estado fosse obrigado a ampará-los através da CGD, das PPP como se fossem apenas culpa de Paulo Campos e não de uma rede de tráfico de influências junto do Estado, desta coisa das swaps como se não fosse uma prática comum de yuppies tardios a brincar com o dinheiro alheio, certos de não serem responsabilizados por nada e de, após uns meses de afastamento estratégico, serem recuperados para cargos equivalentes ou refúgios nas empresas que foram objectivamente beneficiadas em detrimento do interesse público.


A reforma do Estado não passa por menos funcionários, pior pagos, de forma a degradar os serviços prestados que fazem ainda mais falta num contexto de crise.


Passa por existir a coragem para mudar procedimentos ao nível das decisões de tipo, da ocupação de cargos e da ética do serviço público.

Mas como é possível achar isso em quem diz mal do Estado que usa como alavanca para se desenrascar na vida, culpando sempre os outros pelas suas asneiras e incompetências?


Enquanto a informação alinhar em esclarecer apenas as partes da história que dão jeito a dado grupo de interesses em dado momento, a sua credibilidade cai muito, pois fica-se com a percepção que, tal como no Estado, ao nível do topo se tomam más decisões de que são sempre os mais pequenos (os jornalistas no terreno) a ser responsabilizados quando algo corre mal. Como previsto.

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publicado às 16:11

 

Há alguma discussão – infelizmente pouca nas salas de professores – acerca da forma como o MEC pretende concretizar, provavelmente nos próximos 3-4 anos, a redução dos quadros de professores para cerca de 90.000 docentes ou pouco mais, concretizando as vagas negativas agora anunciadas.

 

Para além das aposentações ou eventuais rescisões, haverá muitos horários-zero resultantes directamente da implementação do ensino dual ou vocacional nas escolas.

 

Se alguém já leu a portaria n.º 292-A/2012 certamente terá percebido que mais de 50% da carga horária da matriz curricular definida para os 2º e 3º ciclos do ensino básico se destina à componente vocacional, a qual deve ser desenvolvida preferencialmente fora das escolas, nas empresas envolvidas. Basta ler:

 

c) Vocacional, integrada pelos conhecimentos correspondentes a atividades vocacionais e por uma prática simulada preferencialmente em empresas que desenvolvam as atividades vocacionais ministradas.

 

Isto significa que o mais certo é que essa componente não seja ministrada por professores das escolas mas sim por formadores das tais empresas, pagos através de programas como o QREN. o POPH ou outro que se lhe suceda, através do Ministério da Economia. Reduzindo os encargos com pessoal do Ministério da Educação, entre outras vantagens na perspectiva dos especialistas de folha de excel.

 

O que significará que, se por mera hipótese forem redireccionados 10-20% ou mais (eles querem muito mais) dos alunos do Ensino Básico para o dito ensino dual – que nada prova que funcionará no nosso contexto empresarial – metade da sua carga lectiva deixará de ser dada nas escolas e por professores da rede pública. E o mesmo virá a passar-se no secundário.

 

Façam as contas aos horários que se tornarão excedentários e aos professores que serão empurrados para se tornarem formadores (lembram-se do concurso que abriu há uns meses?) ou pura e simplesmente para fora da profissão.

 

Se isto é de interesse para os contribuintes, essa entidade mítica?

 

Se os contribuintes forem daqueles que não se incomodam com o destino dos outros… para quem os laços de solidariedade social são um luxo e as funções sociais do Estado uma inconveniência, percebe-se.

 

Só que antes d’os contribuintes estão os cidadãos e esses devem ser a primeira preocupação daqueles que têm como missão zelar pelo bem público, não pelo interesse de alguns.

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publicado às 19:13




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