Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Temos maus especialistas, Alexandre Homem Cristo?

por Fátima Inácio Gomes, em 18.08.14

Um dos maiores encantos na vida é a capacidade de podermos ser sempre surpreendidos. Foi esse o sentimento que despontou em mim ao ler o título “Temos maus professores”, da crónica de Alexandre Homem Cristo, no “Observador”. Uma afirmação assim, tão contundente, impressiona logo pela sua vacuidade e sensacionalismo de festa popular de agosto. Sim, com certeza, temos maus professores, maus polícias, maus jornalistas, maus médicos, maus canalizadores, maus carpinteiros, maus pais, maus filhos, maus avós, maus rapazes, até bancos maus. Intrigada, fui pesquisar quem é este escrevedor tão esclarecido e a minha surpresa disparou quando me confrontei com um “mestre em ciência política e especialista em políticas de educação”! E disparou não apenas pelo buraco negro do título, mas pela argumentação encontrada para o justificar que tropeça grosseiramente na falácia, na generalização, no preconceito e na falta de informação. Vejamos, então, a fundamentação:

 

Argumento 1: “São alguns dos piores das gerações do presente que estão nas escolas a preparar as gerações do futuro” – é espantoso que chegue a esta conclusão a partir dos resultados da PACC (prova de avaliação de conhecimentos e capacidades), quando as “gerações do presente” que leccionam nas escolas não são, na sua larga maioria, estes professores. Quem realizou esta prova foram os professores contratados com menos de cinco anos, foram cerca de 10 mil inscritos e, de acordo com os números do ano letivo transato, apenas 300 ficaram colocados. Trezentos, Alexandre Homem Cristo! No activo, serão mais de 100 mil professores. Por outro, pode apresentar dados que relacionem estes 300 com os que falharam na prova? Afinal, está a falar de quem? Como pode alguém, consciencioso, informado e sério no trabalho fazer uma generalização tão grosseira quanto esta? Qual é o seu objectivo, verdadeiramente, ao denegrir toda uma classe indistintamente? Ou está a referir-se àqueles que ainda estão a estudar para professores? Se o está, nem o título é justo nem a frase é clara. Com as suas habilitações e com a responsabilidade de escrever num espaço de referência, exige-se mais.

 

Argumento 2: o corporativismo e os sindicatos, reactivos a qualquer “escrutínio”, não permitem uma avaliação verdadeira, “só aprovam avaliações em que são todos excelentes”. De facto, a Fenprof consegue ser irritante. Os sindicatos tendem a ser irritantes: é uma conquista democrática que parece já ultrapassada, verdade? Não vou aqui discutir a bondade da Fenprof, o sindicato apontado, mas gostaria de ter visto por parte do especialista uma análise fundamentada de quantos professores estão sindicalizados, para assim poder estabelecer uma relação factual entre algumas posições desses sindicatos e a dos professores. Formalmente, os sindicatos representam os professores. E na substância, representarão o pensamento da maior parte dos professores? Talvez se fizesse essa análise ficaria surpreendido. Eu, que sou professora, sei bem do que estou a falar, mas como não sou especialista, como o senhor, evitarei teorizar. Por outro lado, é já massacrante para um professor ouvir a estafada acusação de “não querem é ser avaliados”. Se há classe que é avaliada é esta. E por todos! Se em tempos houve grande polémica em torno do modelo de avaliação que a ministra Maria de Lurdes Rodrigues queria implementar, tal deveu-se ao disparate do modelo, não à fuga da avaliação pelos professores. Já chega de insistir no sofisma.

 

Argumento 3: a cereja estragada no topo do bolo - “Portugal tem maus professores. E não é por acaso: é fácil tornar-se professor. (…) quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de acção social. De acordo com os dados para o ano lectivo 2010/2011, 41% dos estudantes desta área de estudos obteve bolsa. Foi a percentagem mais elevada entre todas as áreas de estudos – ou seja, em nenhuma área há uma concentração tão grande de estudantes com baixo nível socioeconómico.”. Então, este mestre em ciência política responsabiliza o baixo nível socioeconómico dos alunos da área da educação pela existência dos “maus professores”? Em primeiríssimo lugar, deveria servir de conselheiro ao nosso governo, que muito tem contribuído para a diminuição das condições económicas da maior parte dos alunos, de todos os cursos. Por outro, devo dizer-lhe que esta que lhe fala é filha de uma costureira e de um empregado comercial, ambos com a 4ª classe. Cheguei a receber bolsa da acção social. Contudo, tenho um mestrado do tempo em que eram exigidos 4 anos para o fazer, uma licenciatura de 5 anos, um livro publicado e prefaciado por alguém que muito me honra (e que só me conheceu no momento da defesa da tese, sem favores, portanto), assim como outras coisas escritas no domínio da literatura que não importa aqui enunciar. Não senti que o nível socioeconómico dos meus pais me tivesse limitado nem as escolhas nem o caminho que segui (mas felizmente, sou do tempo de uma escola democrática, andava na 1ª classe quando se deu o 25 de abril). Não descuro, obviamente, o quanto um meio socioeconómico baixo pode dificultar os estudos – no meu tempo deixavam de estudar para ir trabalhar. Mas não define a competência do aluno. Contudo, sim, dou-lhe razão em algo: cada vez serão os piores alunos a irem para os cursos de ensino e é assustador pensar no que a Escola se vai tornar. E eu mesma o denunciei em tempos, neste mesmo espaço (http://parlamentoglobal.sic.sapo.pt/130354.html): com a deterioração das condições de trabalho, com o espezinhamento boçal dos professores como aquele que o próprio Alexandre Homem Cristo protagonizou, que bom aluno, mesmo sentindo vocação para tal, quererá ser professor? Com a sua crónica, que de estudo tem pouco, que belo serviço prestou à Educação neste país, meu caro especialista. Se não se dignificar esta profissão, com urgência, qual será o futuro das “futuras gerações”?

 

Sim, Alexandre Homem Cristo, temos maus professores – olhando para o produto, perguntar-me-ia sobre a qualidade dos seus. Mas não lhes farei essa injustiça, já que os não conheço. E porque, como sabemos, também há maus alunos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:21


A Fúria dos Portugueses

por Fátima Inácio Gomes, em 04.08.14

A fúria dos portugueses será, naturalmente, demolidora. Não deixará pedra sobre pedra. É desta que o país se reforma, que a política se reforma, que a impunidade dos políticos e senhores da finança é reduzida a pó. Agora é que vão ser elas!

 

Já não dá para enganar: ao quarto banco salvo com dinheiro público, à custa dos nossos salários, dos nossos subsídios, das nossas reformas, da diminuição da qualidade do serviço nas escolas, nos hospitais, na segurança, o povo não só deixa de acreditar em quem o governa, como passa a agir, a exigir. O português é pacífico, mas não é néscio, é um povo valoroso e com história – o Poder treme já.

 

… ah, mas dizem-me que o primeiro-ministro ainda está, tranquilamente, a banhos, no Algarve. Apenas perturbado a planear alternativas lúdicas para o tempo chuvoso deste início de agosto. O presidente da república, por sua vez, dormirá a sesta. Terá até confidenciado que este ano o seu "jipe" de férias "não terá uma carga muito forte" (RTP, 30.07.2014). E as famílias da alta finança tomarão o chá com as restantes, mundiais, num qualquer off-shore, indignando-se, em conversas privadas, com a despesa do Estado em domínios que já deveriam ser privados (e estar a dar lucros, como a banca), como a educação, a saúde, a segurança social.

 

Ainda não tremem, então…. mas o povo português vai-se insurgir. Vai protestar numa qualquer repartição pública, para onde foi de madrugada para marcar a vez e ser atendido à hora do almoço. Se tiver sorte. Vai-se indignar contra o funcionário que lá está, sobrecarregado por dias a fio de utentes justamente indignados e pelo trabalho que se acumula, pois o Estado anda a gastar demasiado dinheiro a manter trabalhadores e dispensa-os. - A boa gestão manda cortar na despesa do Estado… há que haver dinheiro para salvar a gestão ruinosa dos banqueiros e dos grupos financeiros onde os políticos que nos governam têm interesses. - O povo português vai protestar, sim. Vai protestar com o funcionário que atende no centro de saúde, porque lhe diz que só terá consulta daí a uns meses, vai protestar por ter de ficar um dia inteiro à espera do milagre de uma vaga, vai protestar com o enfermeiro que perde a paciência, sobrecarregado pelo número de horas de trabalho, devido ao corte de pessoal. Vai protestar porque o professor já não quer saber do filho, cansado de andar com a casa às costas há anos sem que lhe reconheçam o trabalho, cansado de aguentar a revolta que os alunos levam da casa para a escola, a revolta dos pais desempregados.  E também vai protestar por o professor querer saber do filho, lhe lembrar responsabilidades, “quem sabe do meu filho sou eu, quem se julga que é?”.

 

Já são quatro os bancos salvos pelo Estado. Bancos que se afundaram devido aos negócios ruinosos daqueles que os dirigem, em benefício próprio. Exclusivamente próprio. No táxi, no cabeleireiro, no mecânico, na mercearia, o bom português dirá que “são todos uns ladrões”, “deveriam ir todos presos”, “os políticos são todos iguais”. Os comentadores da praça falarão de “imoralidade”, de “responsabilidade”, de “gestão danosa”. Mas o dinheiro do Estado irá salvar mais um banco. E quando o Governo vier anunciar, em breve, mais cortes nas funções do Estado, mais cortes na função pública, quem, não sendo funcionário público, virá defender a função pública? Quem se insurgirá? Quem se lembrará que a função pública, afinal, são os funcionários, os enfermeiros, os médicos, os polícias, os professores, os varredores de rua que fazem a máquina que os serve funcionar? Quantos agirão contra a gestão danosa destes Governos?

 

Sim, a fúria dos portugueses será demolidora. Vai-se virar contra aqueles que, cada vez com mais dificuldade, os servem. Não há grandeza neste povo, afinal. Não há génio, não há chama. E os Governos, sabendo disso, vão alimentando a pequenez deste povo, cultivando a divisão privado e público, trabalhador e reformado, novo e velho, porque assim lhes convém. Este povo fará como o fulano que, depois de ser enxovalhado pelo patrão se cala e, chegando a casa, pontapeia o cão que lhe festeja a chegada, dá uma bofetada ao filho que lhe mostra o caderno e espeta um murro à mulher que lhe faz a comida. Para depois se queixar do cão, do filho e da mulher.

Com um povo assim, não é difícil governar-se.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:59


Os exames e a implosão das escolas

por Fátima Inácio Gomes, em 22.05.14

Semana de exames para o 4º e 6º ano. Eis uma medida cara a Nuno Crato, o avatar do “rigor e da exigência” no sistema educativo. Nada tenho contra a aferição de resultados. Sequer contra exames de caráter nacional. Tenho, contudo, contra a parafernália paranóide que os rodeia.

 

De repente, vejo o ensino obsessivamente direccionado para os resultados nos exames. Os resultados dos meninos ditarão a competência do professor. Os resultados dos meninos ditarão a avaliação da escola. Os resultados dos meninos ditarão os rankings, as boas escolas, as más escolas. E esta ditadura recém-criada contamina o próprio processo de ensino - não importa já se há outras atividades promotoras de sucesso. De repente, todo o processo de ensino ficou direccionado para treinar os meninos para o bom desempenho num determinado formato de prova. Repito, os alunos são treinados, amestrados. E a pressão instala-se em toda a comunidade escolar - professores, alunos, pais: há treino específico em aulas suplementares, há centros de explicações para exames de 4º e 6º ano, as editoras publicam cadernos de preparação para os exames do 4º ano e 6º ano.

 

E isto na fase preparatória. Chegado o dia dos exames, novo filme. O “rigor e exigência” impõem que sejam outros professores os vigilantes (para não haver manipulação dos resultados), impõem a deslocação dos meninos para uma escola sede, impõem silêncio absoluto. Assim, em nome desta exigência, outros alunos não podem ter aulas… e os encarregados de educação destes alunos reclamam. Diz o presidente da Confap que “Houve um ano inteiro para preparar dois dias, de modo a que as escolas pudessem funcionar normalmente. Mas nada se fez e hoje é provável que muitos pais se vejam numa situação de não ter onde deixar os filhos". Tem toda razão. Mas se os ovos são os mesmos, a omelete não poderá ser diferente. O que é que o Ministério mudou nas condições das escolas, ou nas condições de realização das provas, para que a omelete melhorasse?

 

A verdade é que Nuno Crato sofrerá de uma forma de esquizofrenia que coloca em confronto o seu impulso de “rigor e exigência” e a sua pulsão de “implodidor” do Ministério que tutela. O Ministro está a implodir a escola pública, mas quer que ela seja, ao mesmo tempo, modelo de “rigor e exigência”. Assim, lança os exames de Cambridge, secundado por parceiros amigos, mas deixa às escolas o encargo de se “amanhar” com a logística, com a correcção e com as muitas páginas de directivas rigorosas e, algumas, até caricatas. Assim, obriga a que alunos de dezenas de escolas do 1º ciclo realizem a prova numa única escola, sendo impossível manter as aulas a decorrer com normalidade para os restantes alunos. Se são precisas salas para centenas de alunos, repito, centenas de alunos, que alternativa haverá se não a de desalojarem os alunos dos outros anos/ciclos? Se são precisos professores, que não os do 1º ciclo, para vigiar estas centenas de alunos, como não retirá-los da leccionação das aulas dos alunos de outros anos/ciclos? E o “rigor e exigência” devido a todos estes alunos?

 

Mas a ação esquizofrénica de Nuno Crato não é doença, é fachada. Porque, na verdade, o “rigor e exigência” é um placebo que mascara um objetivo único: implodir a escola pública, transformando-a no recurso dos pobres e dos sem alternativa. Porque quem tem poder de escolha correrá para a escola privada, por oferecer condições que cada vez menos a escola pública poderá oferecer, por ação do governo, não por incompetência das escolas. Como uma reportagem televisiva fez questão de mostrar, numa escola privada (como terá acontecido, aliás, nas restantes), os exames de 4º e 6º ano não impediram que os restantes alunos tivessem aulas – pois não, eram 28 alunos, contra as centenas que realizam nas escolas públicas; os meninos das escolas privadas foram para as suas escolas, para as suas salas, os meninos das públicas, muitos deles, tiveram de ir para outra localidade. Assim, todos quereremos ter os nossos filhos nas escolas privadas. Ainda bem que o senhor ministro está a pensar no cheque-ensino! Vai ser maravilhoso quando o menino do Bairro do Cerco for estudar para o Colégio Luso-Francês!...

 

Que imagem pretende, afinal, o senhor ministro dar da escola pública? É o mesmo que pedir a dois varredores para limpar a rua e a um entregar-lhe uma escova de dentes e a outro um aspirador e convidar-nos a escolher. Se de facto defende a escola pública, não a afunde e não privilegie as privadas, senhor ministro. Se de facto defende o “rigor e a exigência”, exija que, por exemplo, os alunos das escolas privadas realizem os exames nacionais do ensino secundário, aqueles que dão acesso ao ensino superior (e não os do 4º ano, que não são mais do que um acto de vaidade) nas escolas públicas, tal como acontecia quando foram inicialmente implementados. Porque também são conhecidas as “condições especiais” em que alunos de algumas escolas privadas realizam estas provas, tal como é do conhecimento público, e fruto de estudo, o desempenho dos alunos do privado e do público no ensino superior. Ou será que o “rigor e exigência” de Nuno Crato é também esquizofrénico e só toca a alguns?...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:41


Dos namorados dias

por Fátima Inácio Gomes, em 14.02.14

É dia dos namorados. Multiplicam-se os corações, os ursinhos, as declarações pelas redes sociais. O Citador deve registar uma afluência só comparável à da rede telemóvel em noite de consoada.

 

O mundo divide-se entre quem defende a existência deste dia - é tão bonito o amor, por que não o cantar num dia todo feito para ele? – e os que nele veem mais um sinal de uma sociedade apaixonada, sim, mas pelo consumismo.

 

Dado o mote, entrego-me, eu também, ao espírito do dia. Afinal, foi criado para quem, este namorado dia? Para os apaixonados? Mas esses não precisam de um dia para se celebrarem, nem sequer sabem bem o dia ou o mês em que estão… Terá sido feito para os casais que se esquecem de namorar? De facto, quando a rotina se instala, é bom ter um dia marcado, como a inspecção do carro ou o pagamento do IMI, para lembrar, tal como é apanágio proverbial, que “no casamento se deve manter o namoro”… e assim, aplicadamente, os casais cumprem essa incumbência de atiçar a paixão com um jantar romântico, num restaurante apinhado de casais igualmente incendiários. Depois, cumprido o dia, vestem o fato quotidiano e guardam o do apaixonado para o ano seguinte, para ser arejado, pontualmente, dia 14 de fevereiro.

 

Convenhamos, o dia dos namorados foi criado, realmente, para chatear quem não namora. Para o bombardear com essa evidência, sempre que se cruzar com dezenas de parzinhos enlaçados, com homens de ramos de flores na mão, ou a singela e infalível rosa vermelha, ou sempre que abrir o facebook, twitter, instagram, tumblr e sites noticiosos. E a evidência não é apenas de que não tem par enamorado, é a de não contribuir para o crescimento da economia nacional – é isso que o dia dos namorados lembra: não tens namorado/a? Então, simplesmente, não tens e, não ter materialmente é, nos dias de hoje, uma pobreza. Tenho a certeza que, para o ano, os preclaros membros do governo criarão um concurso especial “dia dos namorados” para facturas de bonecos de peluche, flores, doces e restauração. E maior será o descrédito do não-namorador – que défice de empreendedorismo! Com gente assim, como há de o país ir para a frente? O senhor não aguenta uma namorada? Isso seria viver acima das suas possibilidades? - Ai aguenta aguenta! Estamos em período de crise, não há separações irrevogáveis, faça o favor ao país e ligue à sua ex-namorada, se ela não tiver arranjado namorado novo. Ou se tiver, ligue também. Não pode é cair num nível pessoal frustracional derivado do inconseguimento.

 

Não deixe de existir por um dia. Seja empreendedor! E, namorador, seja feliz, faça feliz quem ama e, já agora, a florista, o dono da loja de chocolates e o gerente do restaurante. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:41


As boas famílias

por Fátima Inácio Gomes, em 04.02.14

Acabo de ouvir um jornalista, relatando o ataque de um estudante russo numa escola secundária, que provocou dois mortos, dizer que o jovem era de "boas famílias".

 

Também, há dias, em Portugal, a comunicação social falava dos ataques violentos de jovens "de boas famílias" de Lisboa e de Cascais.

Não me pronuncio sobre o perfil das famílias destes jovens, sem as conhecer. Também não parto para a conclusão imediatista de que, "se fossem boas famílias, não teriam filhos assim". A história tem mostrado muito bons pais com maus filhos e bons filhos com maus pais. Mal estaríamos se ficássemos condenados, à nascença, pela família e pelo meio que nos calha em sorte, como os deterministas ditavam. Sem termos espaço para nos construirmos, livremente.

 

Acredito que assim não seja. Quer o modo como me olho, quer o modo como olho para os outros, têm por princípio esse espaço de liberdade. E de responsabilidade pessoal. E creio que os próprios jornalistas também não se estão a referir a valores morais: como podem eles avaliar, em cima do acontecimento, os alicerces morais de uma família?

Conclui-se, pois, que, na sociedade dos nossos dias, que os jornalistas tão fielmente refletem, a “boa família” é a família rica. Uma família rica é uma “boa família”.

 

Ah… agora até se entende por que razão o país até precisa de um tutor europeu. É que Portugal está cada vez mais cheio de “más famílias”!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:54


Foram muitos os professores que reprovaram

por Fátima Inácio Gomes, em 18.12.13

Sim, foram muitos. Em primeiro lugar, todos os que foram à prova: os que foram obrigados a fazê-la, para não ficarem liminarmente excluídos da possibilidade, mesmo que remota, de se empregarem e aqueles que foram vigiar essa prova. E, também, todos nós, professores, que mesmo revoltados, mesmo erguendo a voz, ou então, desalentados e desmoralizados, continuamos a dar aulas, a permitir que a máquina funcione. Todos nós que, por profissionalismo e respeito pelos seres humanos que temos nas nossas mãos, continuamos a alimentar o monstro. No fundo, os professores não são mais do que a triste imagem de toda uma nação, enxovalhada e encolhida.

 

Olhando para as imagens da televisão vi imagens tristíssimas. Professores a passarem por cima (metafórica e literalmente) de outros professores, para irem vigiar as provas de outros professores, que não as querem fazer. Sou pessoa que prima pelo respeito pelo outro, mas não me peçam que respeite ações ou opiniões que radicam na ignorância, na falta de solidariedade e na covardia. E não encontro qualquer outra razão para que professores tenham acedido a vigiar outros professores, quando sabem, deveriam saber, que os colegas que se sujeitaram a esta prova o fizeram de cabeça baixa, forçados a tal. Hannah Arendt perguntava-se, no julgamento do oficial nazi Adolf Eichmann, por que razão um homem, com todas as capacidades intelectuais, um homem comum, como nós, nunca se tinha rebelado contra a iniquidade que via em seu redor e tinha, candidamente, “cumprido ordens”. A mesma pergunta me fiz eu, quando vi as imagens que passaram na televisão. A banalidade mecânica daqueles professores “vigilantes”…

 

Os professores contratados que fizeram a “Prova de Avaliação de Competências e Capacidades” vão, certamente, “passar”. Aliás, já “passaram” pela humilhação de uma prova que põe em causa o seu trabalho. Mas há muitos outros professores reprovados: os vigilantes, os correctores a três euros a prova, e todos nós, que continuamos a permitir que, apesar de todos os atropelos, a Escola ainda funcione, com rigor milimétrico. Apesar da desmotivação, do cansaço, da tristeza imensa de tantos bons profissionais, os contratados até cinco anos, os contratados até 20 anos, os do quadro. Somos todos a mesma carne de canhão.

 

E desenganem-se as más-línguas e a ralé de opinadores, profissionais ou amadores de comentário de rodapé de notícia online: mais uma vez, o problema não é ser “avaliado”, o problema é que esta prova não visa avaliar, mas enxovalhar, visa “dividir para reinar”, política já do tempo da outra senhora, e, como se vê, com sucesso. Qualquer pessoa de boa-fé, informada e que se disponha a reflectir antes de falar, saberá que esta prova nada avalia da competência de um professor e até se torna atentatória quando os professores são avaliados anualmente - esqueceram-se já do filme da Avaliação de Desempenho Docente, que tanto entusiasmou a opinião pública? Essa avaliação é feita com base no desempenho real dos professores, em sala de aula, na dinamização de atividades na escola, no desempenho de diretor de turma, entre outras “funções” que agora lhes são atribuidas. E é, para os professores contratados, uma avaliação anual. Além de que, para acederem ao concurso como professores, estes profissionais já fazem uma profissionalização em serviço (o estágio) ao que se soma a apresentação de um trabalho escrito. O Ministério consegue, assim, não avaliar os professores, mas passar um atestado de menoridade tanto às universidades quanto a si mesmo, pois põe em causa o próprio modelo de avaliação de desempenho que implementou.

 

Fica claro, claríssimo, que o Ministério de Educação e Ciência não pretende promover a qualidade ou qualquer outro chavão que vai debitando nos discursos televisivos. Pretende, e está a conseguir, desmantelar a Escola Pública, “implodir o Ministério”, implodindo a própria Escola. Todas as ações que tem desenvolvido, com as trapalhadas habituais que, rotineiramente, arrastam as escolas e o brio dos professores pelas parangonas dos jornais, apenas pretendem vir a servir de justificação para a mudança. E os opinadores baterão palmas, alimentados pelo discurso mesquinho das regalias e dos privilégios. E são tão incoerentes, são tão “banais”, que se a cada um lhes fosse perguntado se desejaria que o seu filho seguisse a carreira docente, essa carreira cheia de privilégios e regalias, diriam… que não.

 

O MEC não só está a destruir a escola do presente, esmagando os professores. Está a destruir a escola do futuro: que bom aluno quererá ser professor? E aí, não haverá Prova de Avaliação de Competências e Capacidade que valha à Educação em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:23


Crato vs. Cristas

por Fátima Inácio Gomes, em 04.11.13

Dizia Camões “que um fraco rei faz fraca a forte gente”. Já não sou do tempo da “forte gente” portuguesa, pois dessa gente só ocasionalmente nasceria um fraco governo. E os nossos governos têm sido fraquinhos... e mais fraquinhos se tornarão, quando criados a pão de ló por uma população globalmente menos educada…

 

Não quero, contudo, entrar no registo da lamúria nacional. Há esperança! Temos que olhar para as dificuldades como novas oportunidades. E, se as dificuldades são inspiradoras, que dizer das excentricidades? Assim, considero a proposta da ministra Assunção Cristas, de limitar o número de animais de estimação em casa, uma excentricidade que, além de higiénica, é muito inspiradora! Tanto que proponho trocar o ministro da tutela que me emprega, Nuno Crato, por Assunção Cristas. O primeiro propôs o aumento do número de alunos por turma… já proliferam por aí turmas com 33 alunos! A segunda, não permite mais de dois cães ou quatro gatos por apartamento. Assim, opto por ter dois cães e quatro gatos na minha sala de aula. E não julguem que isto é uma originalidade minha. Recorrerei à autoridade do Padre António Vieira e à do mesmo Santo António para provar o contrário. Em Arimino, Santo António, perseguido pelos homens que não o queriam ouvir, dirigiu-se para as praias e falou aos peixes. No Maranhão, invocando o superior exemplo do Santo, Padre António Vieira fez o mesmo, no próprio púlpito da igreja onde pregava. E eu, nestes novos tempos, pretendo, não pregar aos peixes, pois a ministra Cristas nada propôs em relação a aquários, mas aos tais dois cães e quatro gatos – sim, podem estar juntos, Deus provirá. E assim poderei dizer, à semelhança do ilustre “imperador da língua portuguesa”, que têm os cães e os gatos “duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam”. Ou seja, os problemas disciplinares ficam também resolvidos.

 

Nuno Crato deveria colocar os olhos na sua colega. A taxa de desemprego desceria, pois mais professores seriam necessários e, sendo estes, como é do conhecimento popular, amantes da boa vida, o consumo cresceria, para felicidade geral. O que dois cães e quatro gatos não fazem! Com medidas como a do “cheque ensino” é que não vamos lá. Perguntem a qualquer habitante do bairro do Lagarteiro que pretenda escolher, por exemplo, um apartamento onde viver, e que vá, com um hipotético cheque entregue pelo Estado, bater à porta de um condomínio fechado da Foz… A liberdade pode ser uma arma profundamente discriminatória numa sociedade malformada.

 

Lembrava o Padre António Vieira, falando das muitas virtudes do português Santo António, que “para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo. Presentemente, até a santidade ficaria curta, quando a alienação dos políticos deste reino é tamanha. E não me refiro a Assunção Cristas…

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:00


Quem vem jantar a casa?

por Fátima Inácio Gomes, em 29.07.13

O que se está a passar, neste preciso momento, nas escolas portuguesas é o seguinte: a 31 de julho, quarta-feira, devem ser publicadas as turmas; logo de seguida, comunicado o número de professores necessários em função das necessidades. Agosto. Concurso de professores para lá, concursos de professores para cá, fazer horários… em setembro tem de estar tudo pronto para o arranque. Está sempre tudo pronto para o arranque, as escolas fazem por isso. O Ministério não. E este ano aprimorou-se: a 26 de julho, sexta-feira, fim da tarde, indicou o número de turmas/cursos que autoriza sejam abertos em cada escola. Não, não são as escolas que decidem, em função do número de matrículas vs. espaço. E, convém frisar, em junho, há as chamadas reuniões de rede escolar, em que as escolas se sentam à mesa com a tutela e se discute esta organização/distribuição.

 

Mas, nesta sexta-feira dia 26, quando muitas escolas já tinham as turmas praticamente feitas, quando publicitaram as suas ofertas formativas, quando contactaram pais e alunos para regularizarem este ou aquele pormenor ou para lhes indicar que aquele curso/disciplina não iria existir na escola, informando das alternativas, enfim, quando tinham esse trabalho praticamente feito, o Ministério, através de um dos seus organismos, publicou a lista de cursos/turmas autorizados(as) para cada escola/agrupamento e lançou o caos: mudou as ofertas dos cursos profissionais, reduziu o número de turmas em várias escolas, eliminou turmas CEF com alunos inscritos, enfim, queimou o jantar pouco antes de ser posto à mesa. E fez algo mais fantástico, fê-lo em cima do acontecimento. Imagine-se o leitor em sua casa e dizem-lhe para convidar vinte pessoas para jantar: a comida será da responsabilidade de uma empresa de confiança. Manda convites atempadamente, publicita o evento convenientemente, prepara a sala com cuidado, prepara a mesa, recebe os convidados… e depois trazem-lhe duas coxas de frango para o jantar.

É assim que o Ministério tratou as escolas, as direções, os alunos. São inúmeros os casos relatados em inúmeras escolas, que se começam agora a conhecer: em várias escolas, o número de turmas autorizadas está abaixo das necessárias para o número REAL de alunos matriculados (que se faz aos restantes?); há cursos profissionais com anos de existência numa localidade, com vinte e muitos alunos inscritos, que são apagados e substituídos por outros cursos que nem sequer tinham sido discutidos, menos ainda comunicados ao público, há alunos que deveriam seguir um curso de educação formação e terão de ficar no ensino regular… e quem é que vai passar por incompetente? Quem é que vai ter que dar a cara para dar o dito por não dito? Quem vê todo o seu trabalho, um trabalho sério que merece respeito, deitado ao lixo? A três dias úteis do fim de julho?...

 

E é nestas condições que se trabalha nas escolas. Surpreendentemente (ou nem tanto assim, quando o interesse do poder é esse) a maioria dos portugueses desconhece esta realidade. Apesar de, direta ou indiretamente, ser parte interessada : quem não tem familiares nas escolas? ou vai ter? já para não falar do tão propalado "interesse nacional" da Educação... A maioria dos portugueses ouve o discurso dos políticos na TV, sérios e convictos, e cria uma imagem. Nuno Crato, por exemplo. Tão credível... Possivelmente, até acredita nele quando ouve coisas como "liberdade de escolha" e "mérito" e “superior interesse dos alunos” e “estamos a trabalhar para”. Pois é este o tipo de trabalho que estão a fazer: em cima do joelho, passando por cima do trabalho feito nas escolas e do “superior interesse dos alunos”, que só interessa para enfeitar discursos “politicamente corretos”. Para quem conhece a realidade, para quem vive a e na escola, este tipo de discurso é de um cinismo, de uma falta de ética, de verdade, de seriedade que ENOJA!


E isto será, mais uma vez, e à semelhança de tantas e tantas outras ocorrências, com este e com os outros governos dos últimos anos, um episódio. E este episódio faz tão pouco sentido que não pode dar em nada. As turmas terão de abrir, de acordo com o número REAL de alunos que existe no nosso país, nas respetivas localidades. Mas é o suficiente para, em finais de julho, com tanto para fazer para que tudo arranque em setembro, causar mais desgaste, mais confusão. Para, MAIS UMA VEZ, aparecerem as parangonas nos jornais e televisões e as pessoas pensarem... "lá estão os professores a queixar-se outra vez!!!". Pois, já alguma vez pensaram que os professores PODEM ATÉ TER RAZÃO?!?!?


... que bem estaríamos todos se, em todos os anos, há anos, não fosse este circo anual em que tudo muda menos a incompetência!...

Pois é, meus amigos, confiem nas palavras mansas destes governantes, confiem... quem está, como eu, no mesmo barco e conhece a verdade, a REALIDADE, vomita ao ouvi-los. Depois ainda há quem pense que é má vontade minha...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:48


Enquanto o pau vai e vem…

por Fátima Inácio Gomes, em 03.07.13

Escrever sobre a vida política nacional, hoje, é o mesmo que caminhar sobre uma lâmina afiada com sapatos de manteiga nestes dias de calor. Arriscado. Mas não resisto a fazer a minha pequena avaliação/reflexão, correndo o risco de ser ultrapassada pelos acontecimentos, já nos próximos 5 minutos.

E talvez não seja despiciendo começar logo por avaliar os efeitos das altas temperaturas da última semana na política nacional: Vítor Gaspar já prevenira para os riscos que as ocorrências meteorológicas extremas podiam provocar na vida económica e, por extensão, política, do país (antigamente, a ordem dos fatores era inversa) e, de facto, Vítor Gaspar não resistiu a tanta fervura. De saída, fez mais uma previsão e falhou. Disse ele na carta de demissão que apresentou a Passos Coelho: “É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa”. Hoje, Portas demitiu-se. Portas nunca perderia uma oportunidade para contrariar Vítor Gaspar e Passos Coelho fica só na trindade. Da “coesão” pouco sobra. Diz-se que o caos se instalou no governo e que o país se vai afundar. Para alguns, Paulo Portas poderá ser considerado o responsável pela crise que se instalou, pela deceção desconsolada da Troika, pelo aumento da dívida... Paulo Portas corre o risco de se transformar num professor: o responsável de todos os males presentes e vindouros. Será uma experiência enriquecedora para ele. Enquanto isso, Passos Coelho procurará chegar a um memorando de entendimento com Portas para adiar o inadiável e evitar o inevitável.

Neste momento, a minha mensagem é de tranquilidade: nem o caos se instalou, nem o país se vai afundar. Na verdade, o governo já era um caos e o país já se afundou. Só assim se entende, inclusive, a nomeação de Maria Luís Albuquerque para chefiar a pasta das Finanças, com a “absoluta garantia” de Passos Coelho, dada ao Presidente da República, que, também se soube hoje, poderá ser chamado de “palhaço” pois a “expressão enquadra-se no direito à liberdade de expressão”, sempre que essa liberdade for a “do escritor e antigo jornalista, conclui Ministério Público”. Maria Luís Albuquerque, a mesma que está ligada aos negócios Swap que estão sob investigação pelo gigantesco prejuízo causado às finanças nacionais, a mesma que é protagonista da novela quem-disse-o-quê-a-quem-e-quando, onde contracena com Teixeira dos Santos, representa uma “garantia absoluta” dada ao Presidente da República pelo Primeiro-Ministro. Para o primeiro-ministro português, a “credibilidade externa”, que tanto procura obter a ponto de a invocar para fazer com que Portas fique, será garantida por esta senhora. Por outro lado, aceitou a demissão de Vítor Gaspar com base na exigência de “credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar”. Ou seja, Passos Coelho reconhece que a “credibilidade e confiança” são necessárias para implementar medidas de investimento no país, pelo que aceita a demissão de Gaspar por já não reunir estas condições e… nomeia este modelo impoluto de “credibilidade e confiança” que é a ex-secretária de estado do ex-ministro das Finanças para Ministra e nomeia para Secretário de Estado do Tesouro Joaquim Pais Jorge, até aqui presidente da Parpública e ex-director da Estradas de Portugal, que está mencionado no relatório preliminar da comissão parlamentar de inquérito como responsável pela negociação de concessões rodoviárias, tal como nomeara Franquelim Alves, ex-administrador do BPN, para secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação. Se é esta a “absoluta garantia” do nosso primeiro-ministro, então está tudo dito quanto à credibilidade de quem nos governa e, mais, quanto à credibilidade de tudo o que nos é dito, nomeadamente, no que diz respeito aos nossos (do povo) gastos excessivos e à “absoluta necessidade” de nos sujeitarmos à Troika.

Apenas se estivéssemos bem poderíamos temer ficar pior. Lamentavelmente, não é essa a nossa situação. E não é devido ao argumento estafado do “não há dinheiro” ou “gastou-se acima das nossas possibilidades” – tudo isto é resultado de uma política que não é apenas nacional, é europeia e resulta da satisfação de interesses que não são o dos povos. É bom lembrar que a política de investimento/endividamento da era Sócrates, com a construção de autoestradas a casas de banho, era política europeia, tanto quanto a atual política de austeridade. Portugal, afinal, tem cumprido com os desideratos europeus. Bem demais, convenhamos. Enquanto este ciclo não mudar, enquanto não se reinventar a Europa, enquanto não nascerem políticos comprometidos com a política e com o povo e não com os interesses dos grandes grupos financeiros, vai-se tornando irrelevante quem lá esteja.

Contudo, em cada mudança, haverá sempre a possibilidade de que algo verdadeiramente mude, haverá sempre a esperança de que uma brecha se abra no tal “arco do poder”, haverá sempre mais umas máscaras a cair e, como diz o ditado, “enquanto o pau vai e vem, as costas descansam”. As costas são as nossas, a dos contribuintes portugueses.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:10


E depois do exame…

por Fátima Inácio Gomes, em 17.06.13

Seria bom que o resultado fosse o mesmo que o da canção que deu sinal à revolução, “E depois do adeus…”. É que a Educação em Portugal precisa, urgentemente, dessa revolução e ela não deve envolver, apenas, os professores. Deverão ser eles, pelas sua responsabilidade direta, os primeiros a dar o sinal de alerta – fizeram-no. Só se chega a uma greve aos exames, e da dimensão da de hoje, numa situação de rutura extrema. Basta olhar para trás no tempo, desde a implementação dos exames. Agora é a vez de pais e alunos entrarem nessa revolução. Só assim se conseguirá parar a máquina que o Governo montou para triturar todo o trabalho desenvolvido no ensino público, até hoje, com muito esforço, mas com sucesso.

Só quem nunca esteve envolvido em exames é que não conhece o extremo formalismo e delicadeza do processo. Há reuniões obrigatórias para os professores vigilantes, para indicação dos procedimentos obrigatórios a seguir, há controlo intensivo, quase obsessivo, para eliminação de qualquer contacto com o exterior, com ruídos, até os rótulos das garrafas de água devem ser removidos, as portas das salas devem ficar abertas, os vigilantes devem sentar-se o mínimo possível e nunca ao mesmo tempo, durante os 120 minutos de prova. É criado um secretariado que envolve, em geral, doze ou mais professores, que tem outras instruções específicas a obedecer e que devem estar preparados para resolver qualquer ocorrência, desde o cartão de identificação que falte ao aluno que perturbe. Estas são algumas das exigências. Há mais. Mas hoje, dia de exame de Português do 12º ano, muitas delas não se cumpriram, o que parece não perturbar grandemente o ministro Nuno Crato.

Nuno Crato, com ou sem o primeiro-ministro a respaldá-lo, preferiu seguir o caminho do orgulhoso ferido ao do negociador. Ignorou os milhares de alunos que não fizeram exame e ignorou o incumprimento de muitos daqueles procedimentos. Houve ruído, houve atraso no início das provas, pelo que nem os que fizeram as provas a fizeram nas condições exigidas, houve escolas sem secretariado, houve alunos que não fizeram prova mas que a viram enquanto ela decorria (testemunhos de alunos em Lousada e Braga), houve alunos amontoados em grande número em cantinas, para realizarem exame com menos vigilantes. Nada correu com a tranquilidade que Nuno Crato quis transmitir. E se os números não são mais avassaladores é porque, nas escolas privadas, todos terão feito exame, não por muitos dos professores não concordarem com esta greve, mas porque vivem já num regime de tal modo autocrático que tiveram receio de a fazer. E como pode o ministro Nuno Crato dizer que a equidade está garantida? Não a há entre professores e não a há entre alunos. Já não basta conhecermos outros atropelos que ocorrem nas escolas privadas, às quais ele, que gosta de se autoproclamar como grande defensor da exigência, não pôs cobro? Quando em nome dessa exigência até impôs que alunos do quarto ano se deslocassem para outras escolas? Por que não vão os alunos das escolas privadas fazer o exame nas escolas públicas, com os colegas, criando verdadeiras condições de igualdade?

Este ministro não defende a escola pública e é hora de os pais e os alunos se consciencializarem disso. Neste momento, não podem permitir que o Ministro da Educação e Ciência dê prioridade ao seu orgulho em prejuízo daqueles que sempre disse que queria defender. Defendeu-os enquanto lhe eram úteis, para colocar a opinião pública contra os professores! Cabe ao Ministério, e a ninguém mais, criar essas condições. Os professores fizeram greve, o que ainda é legítimo num país democrático. Faça agora o Ministério aquilo que lhe compete. É hora das Associações de Pais e de Alunos lho exigirem, não só em relação ao exame, mas em relação às medidas que pretendem impor nas escolas. E é hora, de uma vez por todas, de ouvir os professores – são eles que trabalham nas escolas, são eles o garante de um futuro na Educação em Portugal.


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:06




Últ. comentários

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...