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Passos Caetano

por Paulo Guinote, em 10.01.13

Muitas pessoas, mesmo não tendo votado no PSD ou em Passos Coelho, esperavam que um novo governo significasse uma ruptura com o passado recente e a abertura de um novo período na história da nossa governação, tanto em termos de objectivos como de meios para os alcançar.

Apesar de eventuais divergências ideológicas mais ou menos substanciais, não foram poucos a acreditar que poderíamos estar perante o encerramento de um episódio lastimável de delírio solipsista de um poder executivo em roda livre, defendido por tácticas político-comunicacionais de condicionamento, truncagem e manipulação da informação filtrada para o debate político e a opinião pública, no sentido de legitimar medidas altamente discutíveis.

Assim como se esperava que, apesar dos sacrifícios que tantos estavam disponíveis para sofrer, os novos governantes optassem por cativar e mobilizar os portugueses em vez de os considerar dispensáveis, descartáveis, aborrecidos encargos a necessitar de emigração ou refundação. Esperava-se sinceridade e mesmo candura, não cinismo e hipocrisia. Ansiava-se por competência técnica e seriedade política, mas tivemos o regresso do amiguismo. E a permanência de Relvas.

Mais importante, esperava-se que fossem abandonados métodos altamente criticáveis como os de lançar uns contra os outros, em busca da divisão que permite aos fracos reinar mais comodamente. Não se esperava ter de ver novamente tácticas destinadas a colocar portugueses (empreendedores emigrantes) contra portugueses (acomodados em zonas de conforto), trabalhadores no activo contra reformados, contratados contra profissionais dos quadros, desempregados contra empregados. Sector privado contra público.

Que à megalomania do engenheiro não sucedesse o culto da mediocridade como desígnio nacional. Mas a desilusão foi-se instalando e vai-se entranhando.

À visão mirífica de um Portugal modernizado, parquescolarizado, emparceirado, próspero à europeia, assente no crédito externo numa espécie de revisão do fontismo, com as scut a fazer de ferrovias para um interior deserto e empobrecido, de onde partiram postos de correio, escolas, polícia, farmácias, sucedeu a visão decadentista de um Portugal dual, inclinado para um litoral timidamente modernizado e desenvolvido, a par de um interior rural e anacrónico, com o fluxo emigratório e encobrir com as suas receitas as falhas de uma economia frágil e dispersa..

Erram todos aqueles que cedem à tentação de associar a governação de Passos (Relvas e Gaspar) ao Estado Novo de Salazar porque o projecto que vivemos tem muito mais pontos de contacto com o marcelismo ilusoriamente primaveril, porventura mesmo com um toque spinolista delusófona sedução tropical.

Até porque Passos, pela sua postura de português suave, sorridente e pouco reactivo, tecnicamente vulnerável e dependente de terceiros para a definição das suas políticas, está mais perto do relutante Marcelo do que do resoluto António.

Também Marcelo não gostava do Portugal que herdou.

Também ele queria mudá-lo, quiçá refundá-lo.

Marcelo geriu a transição de 1968 a 1974 e foi ultrapassado por fenómenos que aceleraram a evolução que ele queria prudente. A Democracia atropelou-o.

Passos parece querer reconduzir Portugal de 1974 até 1968, travar a evolução e promover o retorno a uma sociedade pobre, modesta, humilde, obediente, parente bisonho da europa, bom para férias baratas, eventos ensolarados e emigrantes laboriosos.

 

Paulo Guinote

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publicado às 17:33





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