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Rentrée

por Duarte Victor, em 09.09.13

Em setembro voltamos à vida. Uma espécie de regresso ao que deixámos para trás com uma dissimulada esperança de que tudo esteja melhor. Tudo permanece como deixámos. Adiada sempre, quase sempre, o que exige de nós coragem e determinação. A mudança.

 

Os bolbos são constituídos por folhas escamiformes, em camadas. Assim vivemos nós, fazemos parte do mesmo bolbo mas separados por camadas.

 

Lisboa a respirar calor mas ali, mesmo no seu coração, tudo à volta é verde e refrescante. Espaço de elite, exclusivo para amantes de atividades higiénicas e biorritmos equilibrados. Mens sana in corpore  sano. A vida tonificada.

 

Na esplanada um casal chique, classe média alta, que o tempo tem conservado e protegido das intempéries e vicissitudes da vida. Vivem numa permanente primavera, acima das preocupações mundanas incendiadas por pirómanos mesquinhos e vingativos que odeiam ricos e se consomem na politiquice. Luísa, cujas feições faz lembrar as da rainha Nefertiti e o seu marido Jorge, sempre de sorriso colado no canto direito da boca.

 

70 gramas de carne?... Francamente! Chega a empregada com um pequeno naco de bovino grelhado, algumas batatas fritas e salada. Vai beber alguma coisa Sra. Dona Luísa? Não respondeu.

 

Jorge sentou-se à sua frente depois de uma pequena caminhada na passadeira rolante e umas pedaladas na bicicleta de ginásio enquanto descansava o olhar no canal National Geografic.  

 

Prescrição do nutricionista, 70 gramas de carne! Você não acha que isto é uma brincadeira de mau gosto? Francamente! Jorge manteve o sorriso colado no canto direito da boca. Sabe, no outro dia quando contava uma história e você interrompeu-me para falar com as suas amigas, perdi o raciocínio, a história desapareceu. Fez uma pausa com o olhar suspenso na direção do Tejo e o sorriso colado no canto direito da boca.

 

Na outra margem do rio, os mariscadores pareciam caminhar numa superfície espelhada. Dezenas de homens e mulheres curvados sob um sol escaldante recolhiam os bivalves no areal lamacento que as águas deixaram nos baixios. À revelia da lei, porque o sustento não dá para as licenças que impedem qualquer um de apanhar marisco livremente. Enchiam baldes e mochilas até as costas não aguentarem mais. No regresso à praia vinham curvados do peso e sorridentes. Não vergaram às horas de suor, de cansaço e ao medo que a polícia marítima lhes estragasse o dia, todos tinham o seu quinhão. Amanhã haverá mais.

 

Só gosta de nós quem nos quer ver feliz.

 

Acha que isto é senilidade? Luísa não respondeu. Naquela semana voltará ao nutricionista e as coisas terão de ficar esclarecidas. Jorge perdeu o sorriso.

 

O mundo será sempre um bolbo e a vida uma permanente rentrée. O importante é que haja razões para manter um sorriso colado no canto direito da boca.

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publicado às 12:41





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