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Do verdadeiro prejuízo

por Fátima Inácio Gomes, em 11.06.13

O anúncio da greve de professores às reuniões de avaliação e a um exame nacional veio pôr a nu o país que temos. Um país de faz de conta.

Fica bem, democraticamente bem, dizer que “a greve é um direito”. Mas quando os professores anunciam uma greve (a medida mais radical de contestação, que se usa quando todas as outras se esgotaram) o democrático verniz estala. Um profissional da política (daí, um dos responsáveis pelo estado do país e das contas públicas), agora emboscado no comentário televisivo, acusa os professores de desrespeitadores e de criminosos. Ministros e deputados vociferam, diariamente, nos meios de comunicação social, incendiando a opinião pública, que educam à medida da sua manipulação.

 

O Governo lançou uma campanha espantosa de diabolização da greve dos professores, em particular à do exame a Português, transformando os alunos nos pobres cordeiros sacrificados à voragem do lobo mau. Como se o Governo, até à data, não tivesse feito mais do que lançar medidas que prejudicam as famílias e, muito particularmente, os jovens. Como se o Governo, até à data, na Educação, não tivesse lançado medidas com efeitos muito mais gravosos do que uma greve a um exame nacional pode causar. Mais uma vez, o Governo quer desviar o ónus da responsabilidade para os bodes expiatórios do costume… os professores. E há muita “opinião pública” que embarca neste discurso – ainda merecerá um estudo aprofundado a análise desta patologia que, recorrentemente, acomete a população sempre que os professores são assunto.

 

 A degradação das condições de trabalho contra a qual os professores lutam não só põe em causa a qualidade do ensino atual (não, Sr. Ministro, não é o mesmo ensinar a 15 ou a 30 alunos, por mais fabulosos que sejam os métodos e competente seja o professor) como compromete perigosamente a qualidade do ensino no futuro: quem serão os professores do futuro, quando os que se formam atualmente (ou de há dez, quinze anos para cá) são enxotados do ensino?  quem serão os professores do futuro, quando os bons estudantes são aconselhados a não seguir uma profissão que, garantidamente, não tem futuro de emprego e é cada vez mais desvalorizada  e enxovalhada na sociedade?

Gostaria que algum senhor deputado, daqueles que estão tão indignados com a greve dos professores, me respondesse, aqui mesmo, neste espaço, frontalmente, a uma questão, se é que alguma vez descem da redoma onde se refugiam e isolam das pessoas que dizem representar para falar com elas.

Responda-me, pois, honestamente (e esta questão lanço-a também a todos os pais, a todos os portugueses):  o seu filho é um bom aluno, está no 12º ano, e diz-lhe que quer ser professor de Biologia. Ou de Filosofia. Ou professor do primeiro ciclo. Ficará tranquilo com essa escolha? Achará, honestamente, que é uma boa escolha?


Tenho duas filhas, uma no 8º e outra no 10º ano. Nenhuma delas quer ser professora. Não por não reconhecerem valor à profissão (conhecem o meu trabalho e sabem reconhecer o dos seus professores), mas porque sentem que a profissão não é reconhecida. Muito menos valorizada, não só financeiramente, mas socialmente. Insurgem-se contra os comentários que veem na televisão, por exemplo, a propósito desta greve. Como se a mãe fosse a criminosa que o senhor Marques Mendes diz que ela é, por fazer greve, como se a mãe não tivesse os mesmos direitos que um varredor, um médico, um motorista, quando fazem greve. Como se a mãe fosse uma cidadã menor. E elas não querem isso para elas. E eu, apesar de gostar da minha profissão, também não quero isto para elas.

 

E assim, senhores deputados, senhores ministros, meus caros concidadãos, estamos a caminhar para um futuro muito mais prejudicial para muitos mais alunos do que aqueles que vão fazer agora exame. Caminhamos para um futuro sem professores. E aqueles que houver, serão os menos qualificados, incapazes de entrar num curso “melhor”. Que ensino será, então, o nosso, com esses professores? Que será, então, dos nossos alunos?

 

Percebem agora o perigo do caminho que se está a seguir? Quem anda, afinal, a causar verdadeiramente prejuízo aos alunos?

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publicado às 12:39


38 comentários

De antoniopestana a 13.06.2013 às 12:50

Já é tempo dos professores aprenderem que o Estado não pode continuar a garantir aos seus funcionários empregos,salários , horários,ou quaisquer outros privilégios que não são garantidos no setor privado.Além de inconstitucional,é injusto e uma vialação da DUDH de que Portugal é signatário.

De Maria a 13.06.2013 às 22:54

O Estado não tem que garantir nada a ninguém e, já agora, também não deverá ser o garante dos excedentários que se passeiam pelos seus ministérios e poder local, certo? O seus vencimentos excederão o conjunto dos professores a despedir, e a sua ausência não se fará notar, ao contrário dos professores quer para os seus pares quer para os alunos.

De Anónimo a 13.06.2013 às 23:38

Sr. António Pestana,
Tem toda a razão! O Estado só consegue garantir que os Espíritos Santos, os Melos, os Champalimaud, os Mexias deste Pais continuam a viver das rendas excessivas, dos juros agiotas, das PPPs e outras que tais, para isso há dinheiro, para honrar esses compromissos. E os que comem as sobras e as migalhas do repasto destes senhores ainda aplaudem, agradecem e pedem mais, e pior... Ainda defendem este Status Quo e ficam contra os que lutam para que isto mude. A privatização da coisa pública, da saúde, da educação, da justiça, da segurança, dos transportes, da água, da energia... Tudo construído com o dinheiro de todos nós, vai sendo privatizado para que as suas rendas fiquem sempre para os mesmos, e nós (o povo ignorante) enquanto tivermos dinheiro vamos pagando. Quando nos tirarem tudo vamos morrendo à porta dos hospitais, os filhos deixam de ir à escola, a água é do chafariz público, a luz só com velas, nas autoestradas só os Porsches, os BMW's e Mercedes das elites, a justiça só por um canudo, a polícia só para nos manter longe dos condomínios privados destes senhores… e pronto o Sr. António Pestana cumpre o seu papel, tem o Pais que merece! Agora, este não é o meu Pais e eu mereço viver num Pais justo e lutar para que não existam as maiores desigualdades sociais da Europa civilizada.

De António Carvalho a 14.06.2013 às 00:55

SUBSCREVO NA ÍNTEGRA!

De antoniopestana a 14.06.2013 às 10:21

Numa economia globalmente dependente os governos são obrigados a ser condescendentes com os ricos sob pena de os verem mudar-se para outros países que lhes concedem benefícios,como se viu recentemente com Gerad Depardieu.Apenas um acordo à escala global poderia alterar o paradigma.
Não há ,nem pode haver sistema de governação em que o Estado esteja vocacionado para gerir empresas,porque o protecionismo impede a falência e a falta de concorrência mata a ambição dos agentes perpetuando o défice.

De Brama a 14.06.2013 às 00:36

Já vai sendo tempo das pessoas estarem mais informadas e não atirarem para o ar comentários ignorantes, desprovidos de conteúdo prático, procurando polémica fraturante sem necessidade e revelando que têm tempo livre a mais que podiam aplicar de forma mais útil em prol do país em que vivem e parecem defender. Se calhar o antoniopestana é um trabalhador do privado com tempo livre a mais ... é que eu sou um funcionário público com pouco tempo para baboseiras.

De Anónimo a 14.06.2013 às 15:16

Sr. Pestana. Deduzo das suas palavras que também tem da escola e dos professores a imagem que transporta dos "seus próprios dias de escola". Falta-me só perceber se ainda acha que existem liceus e se confunde ensino básico com escolaridade obrigatória. Só assim poderia entender a sua noção de funcionários, horários e situações de privilégio associadas à função docente nos dias de hoje...Aconselho-o a visitar a Escola dos nossos dias. Pode começar por ir à escola dos seus filhos, se é que os tem...

De Victor a 14.06.2013 às 19:16

Privilégios?Pagar o salário de um professor é privilégio?Ou é um direito de quem trabalha? O setor privado não tem privilégios? Que ideia...
Que eu saiba no ano passado quem não recebeu os subsídios a que tinham direito foram os funcionários públicos. Então e o que dizer dos prémios de produtividade? E o pagamento de horas extraordinárias? E aos fins de semana, feriados e depois do horário de trabalho? Entre outras...bem mais escandalosas...
Não fale do que não sabe pf, porque não é justo colocar o funcionário do privado contra o do publico, uma vez que ambos passam por grandes dificuldades com as medidas do governo.

De antoniopestana a 14.06.2013 às 21:29

Quando se pretende um salário irreal para a situação do país,deixa de ser um direito e passa a ser um privilégio.
Tomemos o exemplo da França como país médio em termos salariais e benefícios sociais.O salário mínimo é de 15.000 euros anuais e a média dos salários dos professores de 26.500 anuais.
Com um salário mínimo de 7.000 euros anuais,a média dos salários dos professores Portugueses deveria andar em torno dos 12.000 anuais,e não me parece que estejam a lutar por esse salário.Se considerarmos que a situação financeira nacional é muito pior do que a Francesa,o descalabro é ainda maior.

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