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O essencial da vida

por Pedro Brinca, em 06.05.13

Em Timor-Leste há uma localidade conhecida pelas cabeças que, num monumento, suportam a representação do território hoje independente à custa de muito sangue e sofrimento. Laleia viu as suas casas completamente destruídas e incendiadas na altura da retirada indonésia, em 1999. Esses sinais já não estão presentes, a normalidade foi restituída, mas há marcas que nunca se apagam.

 

 

Em todas as famílias houve gente assassinada durante o período de ocupação. A comunidade organizou-se para apoiar a resistência. Os homens tornaram-se guerrilheiros e estiveram durante anos entrincheirados nas montanhas. As mulheres garantiam os mantimentos, percorrendo quilómetros pelo mato. O medo e a determinação estiveram sempre presentes, mas, ainda assim, no final do processo, juntamente com a vitória, a vingança das forças ocupantes deixou um rasto de destruição à saída.

 

Hoje, quando se passa por Laleia, que é mesmo apenas um ponto de passagem entre Manatuto e Baucau, ou mesmo que se pare por breves instantes, não é nada disso que se vislumbra. O que salta à vista é a alegria das crianças, às dezenas. E a pobreza das casas, ainda na sua maioria feitas de cana ou de madeira. Mas, se nos detivermos um pouco mais, começamos também a perceber a simpatia e a hospitalidade daquela gente. Ao fim de algum tempo, talvez consigamos estabelecer a confiança necessária para partilharem connosco os relatos desses tempos difíceis.

 

Em Laleia há uma Fraternidade dos Franciscanos Capuchinhos que dá quase todo o apoio que aquela população recebe, uma vez que a distância a Díli é ainda muito grande para a localidade entrar nas prioridades do Governo timorense. Nessa fraternidade está um frei português e, de momento, mais dois portugueses como leigos missionários. Tal como as gentes locais, vivem com privacidades, ainda assim quebradas com algumas deslocações à capital. Na povoação não há comércio, não há serviços e, claro, não há indústria.

 

Mas hoje existe um jardim-de-infância, uma carpintaria, uma biblioteca e um centro de internet com uma ligação bem eficiente. E brevemente vai existir ainda uma rádio, a Nain Feto. O equipamento já chegou e falta só proceder à sua instalação. A população está entusiasmada com a ideia de poder ouvir na telefonia as vozes e as histórias da sua terra. Perante tantas carências, a rádio vai ser uma voz amiga, mas vai ter também uma missão bem importante na formação do conceito de cidadania e na transmissão de preocupações básicas, em termos de cuidados de higiene, de saúde, de solidariedade.

 

Em Laleia há muito pouco, mas há o essencial. O calor humano, a simplicidade, o prazer em receber, a pureza no olhar das pessoas e sempre, por todo o lado, o sorriso das crianças. Mágico, penetrante. Há muita beleza naquele território do outro lado do mundo e as crianças são lindas em toda a parte, mas nada nem ninguém se compara às crianças de Timor-Leste.

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publicado às 10:48





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