Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A Questão Essencial Da Falta De Confiança

por Paulo Guinote, em 06.06.13

Há algo que o ministro Nuno Crato não parece ter entendido acerca dos professores e da relação deles para consigo.

 

Na entrevista de 3ª feira à TVI 24 e em algumas declarações recentes parece transparecer uma certa mágoa, talvez mesmo uma espécie de ressentimento em relação àqueles que se vão revelando ingratos em relação ao seu papel como governante que, nas suas palavras na TVI24, nem sequer fez declarações negativas sobre a classe docente e sempre afirmou estimar os professores. ou algo parecido. E que até fez publicar um documento para a organização do ano lectivo de 2013-14 aparentemente menos triturador do que seria de esperar.

 

Mas...

 

Nuno Crato parece não ter ainda entendido que a atitude dos professores (e não só) em relação a este governo e a qualquer dos seus elementos é a de completa falta de confiança, pois sabe-se que nada parece ser um "valor absoluto" e tudo parece ser transitório, ao mesmo tempo que nenhum compromisso do Estado para com os cidadãos comuns (desde a aposentação aos apoios sociais, passando pelas relações laborais na máquina administrativa do estado) tem qualquer valor contratual para ser verdadeiramente respeitado.

 

Resumindo, não existe qualquer base sólida sobre a qual seja possível estabelecer uma relação de confiança com qualquer governante em exercício, crescendo, muito pelo contrário, a plena consciência de que não há qualquer pudor em justificar o desrespeito pela garantia de ontem com qualquer argumento oportunista e com uma estratégia, no essencial, parecida à que antes se criticava aos governos de José Sócrates.

 

No caso do governo de Sócrates, fomo-nos habituando, mesmo que desgostando, a um estilo de fuga à realidade próximo do delírio, em que se substituíam os factos pela sua enunciação. Ele anunciava o fim da crise coma  convicção de que das suas palavras nasceria o crescimento económico.

 

No caso do governo de Passos Coelho temos algo um tanto ou quanto diferente, pois parece que as coisas são ditas, logo à partida, com a convicção de que se tornarão em... nada. A enunciação não se substitui à realidade, não há qualquer delírio, mas apenas uma enunciação instrumental para ocupar espaço e tempo, até ser substituída por outra enunciação que, por se saber totalmente desfasada dos factos, nem sequer se preocupa em justificar minimamente a anterior falsa enunciação.

 

Sócrates fazia declarações descoladas da realidade na esperança que elas se concretizassem. Passos Coelho faz declarações descoladas da realidade na certeza que elas não se concretizam.


E no meio disto tudo, todos os elementos do seu governo, Nuno Crato incluído, aceitaram esta estratégia como válida e exercitam-na com maior ou menor habilidade, mas já com muito diminuta capacidade de convencimento de quem os ouve.

 

Este despacho de organização do ano lectivo existe, mas nada garante que não seja retorcido, adaptado ou truncado daqui a um mês ou dois, quando se descobrir a enésima derrapagem orçamental e o mais que enésimo buraco nas contas, a qual criará novas condições concretas, apresentadas como inesperadas e imprevisíveis.

 

Embora todos saibamos que nada disto é real.

 

Nuno Crato não deveria estar magoado com os professores, mas sim consigo mesmo. Por ter aceitado continuar tanto tempo nesta estratégia (?) ao ponto de se distinguir muito pouco de um qualquer outro Rosalino ou Moedas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:38


Na Falta de Mineiros, Há Professores

por Paulo Guinote, em 16.05.13

Não é segredo que entre os tanques de pensamento que orbitam este governo e estiveram na origem de algum do seu ideário Margaret Thatcher é uma espécie de mãe espiritual.

 

Ora… aquela singular e mítica sucessão de vitórias eleitorais esteve quase para não acontecer, em virtude do que estava a ser o descalabro económico do seu primeiro mandato. Tudo acabou por ser salvo pelos argentinos, quando decidiram tomar as Malvinas/Falkland e a Maggie se tornou uma warlady. Só que por cá não temos ninguém que nos invada as Berlengas, sendo que a Madeira nem oferecida com dote a querem com o jardinesco lá instalado com o seu séquito. Então há que ir buscar uma lição diferente na governação da Dama de Ferro.

 

E os liberaizinhos de tertúlia encontram esse exemplo de firmeza e “liderança” na guerra travada pela sua idolatrada Margaret com os mineiros e os seus sindicatos, em particular com o então muito influente Arthur Scargill. Entre nós não há nenhum sindicato assim tão forte, nem o Arménio Carlos tem um estilo capilar tão arrojado, nem existe uma classe profissional tão vasta e determinada como era a dos mineiros britânicos quando os conservadores decidiram dizimá-los para mostrar como não temiam o movimento sindical.

 

Mas há os professores, em especial do ensino público. Que parecem ser (ainda) muitos e cujo rasto de demonização, iniciado há meia dúzia de anos por Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, parece ser fácil de retomar, até porque muitos dos meninos-guerreiros assessores do actual governo parecem nutrir por eles um ódio muito particular, como se sentissem especial prazer em apoucá-los, acusando-os, conforme os momentos, de serem privilegiados mas igualmente incompetentes, uma espécie de aristocracia proletária, qualificada como que por engano, mas no fundo uns inúteis, se bem que relativamente perigosos.


Sei que não faz muito sentido, mas naquelas cabecinhas engomadinhas é tudo assim, muito elaborado mas na base da pobreza intelectual franciscana, alimentada a preconceito, ignorância factual mas muita prosápia e peneirice de quem leu umas coisas e teve aulas em estrangeiro.


(ahhhhh… este parágrafo, embora curto, fez-me libertar uma boa quantidade de toxinas… e ainda não adjectivei tudo o que me apetece)


E então devem ter convencido o actual PM – pessoa que cada vez me aparece abundar mais em convicções que entram pelos ouvidos ou em pastinhas finas – que os professores poderiam ser os seus mineiros, a sua guerra particular, capaz de o mostrar um líder forte, capaz de enfrentar os poderosos sindicatos e interesses corporativos e assim iludir a catástrofe económica em que nos vai rapidamente afundando.

 

E vai daí o homem chega a Paris e decide dizer umas parvoíces, retomando a tese demográfica que uns imbecis (mmm… a adjectivação de quando em vez alivia a tensão…) insistem em metralhar como se fosse um mantra inescapável, só faltando que recuperem os dados do aldrabado estudo tipo-fmi.


Ora… todos nós sabemos que ele sabe que nós sabemos que… ele disto não percebe nada.

 

E que mais valia estar calado… até porque os mineiros entraram em guerra aberta, o que termina sempre com uma vitória ou derrota total de uma das partes, enquanto que os professores, se conseguirem ser inteligentes e os seus representantes e líderes (sindicais ou a nível de escola) souberem estar à altura das suas responsabilidades, ganharão muito mais em optar pela guerrilha.

Que, como sabemos, sendo cirúrgica, pode moer quase indefinidamente até à queda do adversário.

 

É o que espero. E o que desejo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:14

Fico sempre espantado quando observo aqueles quadros sobre os malfadados rácios alunos/professor em Portugal nos relatórios da OCDE, neste caso no de 2012... Mesmo que um tipo tente apurar estatisticamente alguns números, a verdade é que o valor parece sempre demasiado baixo para o que é observável à vista desarmada nas escolas, nas salas de aula.
 

Simplesmente, é contra-intuitivo insistir-se naqueles rácios de 8 alunos por professor no secundário e 10-12 ou pouco mais no básico.

Alguma explicação é necessária para que aquilo que vemos seja tão diferente da sua representação estatística.
 

Ora vejamos a medida do desvario aparente: 7,7 alunos por professor no secundário e turmas com uma média de 8,8 alunos? Alguém conhece tal coisa? Mas é o que os números dizem. Estamos abaixo das médias…

 

 

Isto continua estranho para quem está nas escolas… Tudo parece distorcido.
 

Avancemos lá um pouco. Na página 342, escreve-se no relatório:

The ratio of pupils to teaching staff is obtained by dividing the number of full-time equivalent pupils at a given level of education by the number of full-time equivalent teachers at that level and in similar types of institutions. However, this ratio does not take into account instruction time compared to the length of a teacher’s working day, nor how much time teachers spend teaching. Therefore, it cannot be interpreted in terms of class size.
 

Mas isto não parece chegar para explicar o desfasamento, mesmo se, afinal, no ensino “primário” e “secundário baixo” (2º e 3º ciclo?) a dimensão média das turmas nem sequer é muito diferente da média da OCDE:

 

 

 

Mas então o que poderá explicar os rácio tão baixos?

 

Não é a primeira vez que eu escrevo qual é a solução mais evidente do aparente enigma ou paradoxo. Ora espreitem lá este quadro:

 

 

 

Se repararem, Portugal é o país que apresenta o maior número de professores por 1000 estudantes mas… não aparecem mais estatísticas sobre outro pessoal.

 

Penso não ser muito arrojado dizer que isto se passa não porque tenhamos passado a fazer o trabalho dos auxiliares de acção educativa mas sim porque, tirando isso, nas escolas o teaching staff faz de tudo um pouco para além de leccionar.

Há muitos professores nas escolas porque eles se tornaram multifunções.

 

Não estou a afirmar se é bom ou mau.

 

Apenas estou a tentar explicar que o real que vejo precisa ter alguma correspondência, por vaga que seja, com a sua representação numérica. E esta parece-me ser a explicação que consegue fazer tal correspondência. Há efectivamente muitos professores nas escolas, a fazer muitas coisas. Muitas mesmo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:08




Últ. comentários

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...