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Uma suposta defesa da cultura

por Pedro Brinca, em 09.07.13

Há muito que se ouve essa ideia em determinados meios, mas este fim-de-semana foi defendida publicamente no 8º Encontro de Dirigentes Associativos de Setúbal. O moderador de um painel afirmava convictamente que as várias infraestruturas culturais criadas recentemente na cidade devem ser para uso exclusivo dos artistas da terra.

 

É difícil encontrar visão mais tacanha e provinciana, com reminiscências de um regime em que se vivia “orgulhosamente sós”, do que achar que apoiar a cultura local é impedir a entrada aos de fora. Tipo reserva ecológica, com redoma de proteção. Promover os artistas locais, obrigando o público a consumir continuamente os mesmos, incluindo os bons, os razoáveis e os medíocres.

 

Conhecer outras formas de expressão, saber um pouco mais do mundo, fica destinado apenas aos que podem viajar. As reservas, neste caso, estimulam também o elitismo. Aliás, durante muito tempo em Portugal apenas os ricos tinham acesso às novas tendências culturais, arredadas dos meios de difusão controlados.

 

E estas lógicas protecionistas têm sempre um reverso. Se limitarmos os nossos espaços culturais aos artistas da terra, também é legítimo que estes fiquem impedidos de ir atuar aos outros concelhos. Um ato de xenofobia cultural que restringe os artistas a um circuito limitado, atuando sempre para o mesmo público, até à exaustão.

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publicado às 11:47


O essencial da vida

por Pedro Brinca, em 06.05.13

Em Timor-Leste há uma localidade conhecida pelas cabeças que, num monumento, suportam a representação do território hoje independente à custa de muito sangue e sofrimento. Laleia viu as suas casas completamente destruídas e incendiadas na altura da retirada indonésia, em 1999. Esses sinais já não estão presentes, a normalidade foi restituída, mas há marcas que nunca se apagam.

 

 

Em todas as famílias houve gente assassinada durante o período de ocupação. A comunidade organizou-se para apoiar a resistência. Os homens tornaram-se guerrilheiros e estiveram durante anos entrincheirados nas montanhas. As mulheres garantiam os mantimentos, percorrendo quilómetros pelo mato. O medo e a determinação estiveram sempre presentes, mas, ainda assim, no final do processo, juntamente com a vitória, a vingança das forças ocupantes deixou um rasto de destruição à saída.

 

Hoje, quando se passa por Laleia, que é mesmo apenas um ponto de passagem entre Manatuto e Baucau, ou mesmo que se pare por breves instantes, não é nada disso que se vislumbra. O que salta à vista é a alegria das crianças, às dezenas. E a pobreza das casas, ainda na sua maioria feitas de cana ou de madeira. Mas, se nos detivermos um pouco mais, começamos também a perceber a simpatia e a hospitalidade daquela gente. Ao fim de algum tempo, talvez consigamos estabelecer a confiança necessária para partilharem connosco os relatos desses tempos difíceis.

 

Em Laleia há uma Fraternidade dos Franciscanos Capuchinhos que dá quase todo o apoio que aquela população recebe, uma vez que a distância a Díli é ainda muito grande para a localidade entrar nas prioridades do Governo timorense. Nessa fraternidade está um frei português e, de momento, mais dois portugueses como leigos missionários. Tal como as gentes locais, vivem com privacidades, ainda assim quebradas com algumas deslocações à capital. Na povoação não há comércio, não há serviços e, claro, não há indústria.

 

Mas hoje existe um jardim-de-infância, uma carpintaria, uma biblioteca e um centro de internet com uma ligação bem eficiente. E brevemente vai existir ainda uma rádio, a Nain Feto. O equipamento já chegou e falta só proceder à sua instalação. A população está entusiasmada com a ideia de poder ouvir na telefonia as vozes e as histórias da sua terra. Perante tantas carências, a rádio vai ser uma voz amiga, mas vai ter também uma missão bem importante na formação do conceito de cidadania e na transmissão de preocupações básicas, em termos de cuidados de higiene, de saúde, de solidariedade.

 

Em Laleia há muito pouco, mas há o essencial. O calor humano, a simplicidade, o prazer em receber, a pureza no olhar das pessoas e sempre, por todo o lado, o sorriso das crianças. Mágico, penetrante. Há muita beleza naquele território do outro lado do mundo e as crianças são lindas em toda a parte, mas nada nem ninguém se compara às crianças de Timor-Leste.

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publicado às 10:48

Enquanto decorre o processo de avaliação de candidaturas das companhias de teatro aos apoios financeiros do estado através da Dgartes, algumas desesperam e outras sucumbem. O estrangulamento financeiro imposto, à sombra duma crise que tudo justifica, ameaça destruir pouco a pouco o tecido criativo colocando-o muito abaixo do nível de subsistência.  

 

O afunilamento na distribuição dos dinheiros públicos para o teatro tem vindo nos últimos anos a concentrar os referidos apoios em produções mais institucionais em detrimento da produção independente. É o poder local que, um pouco por todo o país, vem a colmatar a desresponsabilização do governo nesta matéria ao apoiar projetos e estruturas teatrais que, em alguns casos, têm o reconhecimento internacional pela qualidade artística que apresentam.

 

Parafraseando Manuel Gusmão, professor universitário - “Esta desresponsabilização traduz-se na destruição e perversão do princípio de serviço público e na asfixia financeira do sector, provocada pelo subfinanciamento crónico. No desmantelamento, redução, e desqualificação dos serviços; na centralização e agregação burocrática das instituições; na secundarização e esvaziamento de objetivos”. In É preciso travar o caminho de desastre na política cultural.

 

Mais do que uma questão económica é uma questão ideológica, pois quem nos governa estigmatiza a cultura e o teatro em particular como algo assessório e um privilégio de elites. Os 0,11% do orçamento do estado para a cultura anunciados pelo governo afastam-se cada vez mais das orientações da UNESCO que apontam para uma aproximação de 1% do PIB.

 

A austeridade imposta ao teatro e à cultura em geral por uma crise que teve origem precisamente na especulação financeira, destrói a dinâmica de desenvolvimento social do país e torna-nos individual e coletivamente mais fracos na construção de uma democracia avançada.

Os direitos e deveres culturais estão consignados na Constituição da República no Artigo 78.º - (Fruição e criação cultural). É preciso não esquecer. 

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publicado às 12:46



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