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As coisas não têm paz

por Duarte Victor, em 11.06.13

Fecho os olhos e sou um homem no escuro dentro de mim à descoberta das coisas. É fácil encontra-las no escuro dentro de nós, as coisas imaginadas. Mas não são essas que me preocupam, são as que nos rodeiam e cintilam aos nossos olhos. Que nos fazem perder a cabeça para as conquistar. Vivemos rodeados de coisas. São apenas coisas mas cintilam e o seu brilho não nos deixa indiferentes. Somos capazes de tudo para as conquistar. Na impossibilidade, fechamos os olhos para as imaginar e ficamos perdidos no escuro dentro de nós.

 

A ostentação é o apanágio dos períodos de recessão. Uma espécie de modus operandi de uma verdadeira ascensão social para endinheirados descontraídos. Luxos ofuscantes aos olhos de pelintras de bolsos vazios, frustrados e infelizes. Sinais de desequilíbrios económicos e sociais profundos. Nada que as empresas não saibam como contornar para espicaçar o desejo de consumo tão enraizado nas sociedades modernas. Apresentam-se como a solução do problema, o remédio para tamanho vazio, acessível a todas as bolsas.

 

A crise insinua-se em tudo, e a publicidade politiza-se. Através dela, as empresas exprimem-se politicamente, apenas para vender mais (…) Eduardo Sintra Torres, in J Negócios.

 

Para sobreviver à desaceleração do crescimento económico e a contração dos mercados, o marketing tornou-se feroz. Com mensagens muito bem direcionadas para públicos segmentados, consegue estabelecer um vínculo emocional com o consumidor. Um analgésico suave e “democrático” de consciências. 

 

Criar a necessidade das coisas.

 

As coisas têm /Peso, massa, volume/ Tamanho, tempo/ Forma, cor /Posição/ Textura, duração/Densidade/ Cheiro/ Valor/ Consistência/ Profundidade, contorno/ Temperatura, função/ Aparência/Preço, destino, idade/ Sentido /As coisas não têm paz/As coisas. Gilberto Gil, canção.

 

Fechamos os olhos e continuamos no escuro dentro de nós. A crise não estimula a criatividade, a crise não estimula nada. Na verdade devia servir apenas para reflexão e definição de novos paradigmas a fim de evitarmos os mesmos erros que nos trouxeram até aqui.

 

As coisas não têm paz e nós também não.

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publicado às 12:38


A intifada da canção

por Fátima Inácio Gomes, em 21.02.13

Ainda às voltas com o recibo de vencimento e a fazer contas com a restituição de um subsídio de natal mensal – o rei mago Gaspar lembra-nos que o Natal é todos os dias, ou todos os meses, conforme seu desejo – logo arrebanhado, por excesso, pelo também natalício aumento da taxa de IRS - e olhando saudosamente para o recibo de vencimento do mesmo mês do ano passado – como pensaria eu, à data, que olharia para aquele momento com nostalgia, quando então já me lamentava do corte salarial sofrido? – vejo-me confrontada com a indignação de tantos senhores democratas por o ministro Relvas ter sido impedido de falar no ISCTE. Que a democracia está doente, quando o povo acha que a sua legítima liberdade de expressão lhe permite coartar a legítima liberdade de expressão do outro, dizem. E eu, olhando para o meu encolhido recibo de vencimento, quase também me encolho por me ter sentido vingada na voz daqueles jovens. Quase.

 

Pois sim, têm toda a razão – a liberdade nunca o é se construída sobre a opressão de alguns. Mas qualquer um dos ministros de Portugal tem canais de expressão que não estão ao alcance dos restantes portugueses (e aproveito a deixa para elogiar este o Parlamento Global por dar espaço de expressão a pessoas como eu, uma portuguesa comum, funcionária pública, a braços com um recibo de vencimento encolhido). Por outro lado, não estará, de facto, a democracia doente, quando permite que alguém com o portefólio do ministro Relvas fale em público? Como se mede o grau de sanidade da democracia? É mais democrático o povo que deixa falar políticos sem dignidade nem moral ou aquele que os manda calar? Porque não estamos a falar do taxista que dá largas à sua verrina, nem da cabeleireira que vai tecendo uns comentários de política doméstica – com todo o respeito pelas suas opiniões livres - falamos de portugueses com responsabilidade política e que, quando falam publicamente, o fazem empossados de um cargo governativo. E, enquanto tal, terão liberdade para falar enquanto, e só enquanto, o povo que os elegeu lhes der a palavra. Talvez os portugueses já não queiram ouvir mais os dislates do ministro Relvas. E talvez já não estejam com paciência para esperar até às próximas eleições. O cidadão Relvas, apeado do cargo, terá toda a liberdade para dizer o que entender. Até terá liberdade para cantar… desde que não o tenhamos que ouvir.

 

Aqueles senhores democratas que agora criticam as manifestações verbais dos descontentes aplaudiram, certamente, o famoso “por qué no te callas” de um chefe de estado a outro chefe de estado, mas agora não aceitam que o povo esmagado por recibos de vencimento encolhidos, ou por recibos de vencimento inexistentes, revoltado com os discursos hipócritas e os compromissos falhados, atire com palavras de ordem e com canções para calar quem sentem que não os representa. E enquanto forem só canções…

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publicado às 15:39




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  • silva

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