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Os exames e a implosão das escolas

por Fátima Inácio Gomes, em 22.05.14

Semana de exames para o 4º e 6º ano. Eis uma medida cara a Nuno Crato, o avatar do “rigor e da exigência” no sistema educativo. Nada tenho contra a aferição de resultados. Sequer contra exames de caráter nacional. Tenho, contudo, contra a parafernália paranóide que os rodeia.

 

De repente, vejo o ensino obsessivamente direccionado para os resultados nos exames. Os resultados dos meninos ditarão a competência do professor. Os resultados dos meninos ditarão a avaliação da escola. Os resultados dos meninos ditarão os rankings, as boas escolas, as más escolas. E esta ditadura recém-criada contamina o próprio processo de ensino - não importa já se há outras atividades promotoras de sucesso. De repente, todo o processo de ensino ficou direccionado para treinar os meninos para o bom desempenho num determinado formato de prova. Repito, os alunos são treinados, amestrados. E a pressão instala-se em toda a comunidade escolar - professores, alunos, pais: há treino específico em aulas suplementares, há centros de explicações para exames de 4º e 6º ano, as editoras publicam cadernos de preparação para os exames do 4º ano e 6º ano.

 

E isto na fase preparatória. Chegado o dia dos exames, novo filme. O “rigor e exigência” impõem que sejam outros professores os vigilantes (para não haver manipulação dos resultados), impõem a deslocação dos meninos para uma escola sede, impõem silêncio absoluto. Assim, em nome desta exigência, outros alunos não podem ter aulas… e os encarregados de educação destes alunos reclamam. Diz o presidente da Confap que “Houve um ano inteiro para preparar dois dias, de modo a que as escolas pudessem funcionar normalmente. Mas nada se fez e hoje é provável que muitos pais se vejam numa situação de não ter onde deixar os filhos". Tem toda razão. Mas se os ovos são os mesmos, a omelete não poderá ser diferente. O que é que o Ministério mudou nas condições das escolas, ou nas condições de realização das provas, para que a omelete melhorasse?

 

A verdade é que Nuno Crato sofrerá de uma forma de esquizofrenia que coloca em confronto o seu impulso de “rigor e exigência” e a sua pulsão de “implodidor” do Ministério que tutela. O Ministro está a implodir a escola pública, mas quer que ela seja, ao mesmo tempo, modelo de “rigor e exigência”. Assim, lança os exames de Cambridge, secundado por parceiros amigos, mas deixa às escolas o encargo de se “amanhar” com a logística, com a correcção e com as muitas páginas de directivas rigorosas e, algumas, até caricatas. Assim, obriga a que alunos de dezenas de escolas do 1º ciclo realizem a prova numa única escola, sendo impossível manter as aulas a decorrer com normalidade para os restantes alunos. Se são precisas salas para centenas de alunos, repito, centenas de alunos, que alternativa haverá se não a de desalojarem os alunos dos outros anos/ciclos? Se são precisos professores, que não os do 1º ciclo, para vigiar estas centenas de alunos, como não retirá-los da leccionação das aulas dos alunos de outros anos/ciclos? E o “rigor e exigência” devido a todos estes alunos?

 

Mas a ação esquizofrénica de Nuno Crato não é doença, é fachada. Porque, na verdade, o “rigor e exigência” é um placebo que mascara um objetivo único: implodir a escola pública, transformando-a no recurso dos pobres e dos sem alternativa. Porque quem tem poder de escolha correrá para a escola privada, por oferecer condições que cada vez menos a escola pública poderá oferecer, por ação do governo, não por incompetência das escolas. Como uma reportagem televisiva fez questão de mostrar, numa escola privada (como terá acontecido, aliás, nas restantes), os exames de 4º e 6º ano não impediram que os restantes alunos tivessem aulas – pois não, eram 28 alunos, contra as centenas que realizam nas escolas públicas; os meninos das escolas privadas foram para as suas escolas, para as suas salas, os meninos das públicas, muitos deles, tiveram de ir para outra localidade. Assim, todos quereremos ter os nossos filhos nas escolas privadas. Ainda bem que o senhor ministro está a pensar no cheque-ensino! Vai ser maravilhoso quando o menino do Bairro do Cerco for estudar para o Colégio Luso-Francês!...

 

Que imagem pretende, afinal, o senhor ministro dar da escola pública? É o mesmo que pedir a dois varredores para limpar a rua e a um entregar-lhe uma escova de dentes e a outro um aspirador e convidar-nos a escolher. Se de facto defende a escola pública, não a afunde e não privilegie as privadas, senhor ministro. Se de facto defende o “rigor e a exigência”, exija que, por exemplo, os alunos das escolas privadas realizem os exames nacionais do ensino secundário, aqueles que dão acesso ao ensino superior (e não os do 4º ano, que não são mais do que um acto de vaidade) nas escolas públicas, tal como acontecia quando foram inicialmente implementados. Porque também são conhecidas as “condições especiais” em que alunos de algumas escolas privadas realizam estas provas, tal como é do conhecimento público, e fruto de estudo, o desempenho dos alunos do privado e do público no ensino superior. Ou será que o “rigor e exigência” de Nuno Crato é também esquizofrénico e só toca a alguns?...

 

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publicado às 10:41


As boas famílias

por Fátima Inácio Gomes, em 04.02.14

Acabo de ouvir um jornalista, relatando o ataque de um estudante russo numa escola secundária, que provocou dois mortos, dizer que o jovem era de "boas famílias".

 

Também, há dias, em Portugal, a comunicação social falava dos ataques violentos de jovens "de boas famílias" de Lisboa e de Cascais.

Não me pronuncio sobre o perfil das famílias destes jovens, sem as conhecer. Também não parto para a conclusão imediatista de que, "se fossem boas famílias, não teriam filhos assim". A história tem mostrado muito bons pais com maus filhos e bons filhos com maus pais. Mal estaríamos se ficássemos condenados, à nascença, pela família e pelo meio que nos calha em sorte, como os deterministas ditavam. Sem termos espaço para nos construirmos, livremente.

 

Acredito que assim não seja. Quer o modo como me olho, quer o modo como olho para os outros, têm por princípio esse espaço de liberdade. E de responsabilidade pessoal. E creio que os próprios jornalistas também não se estão a referir a valores morais: como podem eles avaliar, em cima do acontecimento, os alicerces morais de uma família?

Conclui-se, pois, que, na sociedade dos nossos dias, que os jornalistas tão fielmente refletem, a “boa família” é a família rica. Uma família rica é uma “boa família”.

 

Ah… agora até se entende por que razão o país até precisa de um tutor europeu. É que Portugal está cada vez mais cheio de “más famílias”!

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publicado às 19:54



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