Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A Fúria dos Portugueses

por Fátima Inácio Gomes, em 04.08.14

A fúria dos portugueses será, naturalmente, demolidora. Não deixará pedra sobre pedra. É desta que o país se reforma, que a política se reforma, que a impunidade dos políticos e senhores da finança é reduzida a pó. Agora é que vão ser elas!

 

Já não dá para enganar: ao quarto banco salvo com dinheiro público, à custa dos nossos salários, dos nossos subsídios, das nossas reformas, da diminuição da qualidade do serviço nas escolas, nos hospitais, na segurança, o povo não só deixa de acreditar em quem o governa, como passa a agir, a exigir. O português é pacífico, mas não é néscio, é um povo valoroso e com história – o Poder treme já.

 

… ah, mas dizem-me que o primeiro-ministro ainda está, tranquilamente, a banhos, no Algarve. Apenas perturbado a planear alternativas lúdicas para o tempo chuvoso deste início de agosto. O presidente da república, por sua vez, dormirá a sesta. Terá até confidenciado que este ano o seu "jipe" de férias "não terá uma carga muito forte" (RTP, 30.07.2014). E as famílias da alta finança tomarão o chá com as restantes, mundiais, num qualquer off-shore, indignando-se, em conversas privadas, com a despesa do Estado em domínios que já deveriam ser privados (e estar a dar lucros, como a banca), como a educação, a saúde, a segurança social.

 

Ainda não tremem, então…. mas o povo português vai-se insurgir. Vai protestar numa qualquer repartição pública, para onde foi de madrugada para marcar a vez e ser atendido à hora do almoço. Se tiver sorte. Vai-se indignar contra o funcionário que lá está, sobrecarregado por dias a fio de utentes justamente indignados e pelo trabalho que se acumula, pois o Estado anda a gastar demasiado dinheiro a manter trabalhadores e dispensa-os. - A boa gestão manda cortar na despesa do Estado… há que haver dinheiro para salvar a gestão ruinosa dos banqueiros e dos grupos financeiros onde os políticos que nos governam têm interesses. - O povo português vai protestar, sim. Vai protestar com o funcionário que atende no centro de saúde, porque lhe diz que só terá consulta daí a uns meses, vai protestar por ter de ficar um dia inteiro à espera do milagre de uma vaga, vai protestar com o enfermeiro que perde a paciência, sobrecarregado pelo número de horas de trabalho, devido ao corte de pessoal. Vai protestar porque o professor já não quer saber do filho, cansado de andar com a casa às costas há anos sem que lhe reconheçam o trabalho, cansado de aguentar a revolta que os alunos levam da casa para a escola, a revolta dos pais desempregados.  E também vai protestar por o professor querer saber do filho, lhe lembrar responsabilidades, “quem sabe do meu filho sou eu, quem se julga que é?”.

 

Já são quatro os bancos salvos pelo Estado. Bancos que se afundaram devido aos negócios ruinosos daqueles que os dirigem, em benefício próprio. Exclusivamente próprio. No táxi, no cabeleireiro, no mecânico, na mercearia, o bom português dirá que “são todos uns ladrões”, “deveriam ir todos presos”, “os políticos são todos iguais”. Os comentadores da praça falarão de “imoralidade”, de “responsabilidade”, de “gestão danosa”. Mas o dinheiro do Estado irá salvar mais um banco. E quando o Governo vier anunciar, em breve, mais cortes nas funções do Estado, mais cortes na função pública, quem, não sendo funcionário público, virá defender a função pública? Quem se insurgirá? Quem se lembrará que a função pública, afinal, são os funcionários, os enfermeiros, os médicos, os polícias, os professores, os varredores de rua que fazem a máquina que os serve funcionar? Quantos agirão contra a gestão danosa destes Governos?

 

Sim, a fúria dos portugueses será demolidora. Vai-se virar contra aqueles que, cada vez com mais dificuldade, os servem. Não há grandeza neste povo, afinal. Não há génio, não há chama. E os Governos, sabendo disso, vão alimentando a pequenez deste povo, cultivando a divisão privado e público, trabalhador e reformado, novo e velho, porque assim lhes convém. Este povo fará como o fulano que, depois de ser enxovalhado pelo patrão se cala e, chegando a casa, pontapeia o cão que lhe festeja a chegada, dá uma bofetada ao filho que lhe mostra o caderno e espeta um murro à mulher que lhe faz a comida. Para depois se queixar do cão, do filho e da mulher.

Com um povo assim, não é difícil governar-se.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:59


1 comentário

De Fátima Inácio Gomes a 04.08.2014 às 23:56

Dúvidas?

"Crise tirou 3,6 mil milhões aos salários e deu 2,6 mil milhões ao capital"

http://www.dinheirovivo.pt/economia/interior.aspx?content_id=3983489&page=-1

Comentar post





Últ. comentários

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...