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“Quem tudo quer tudo perde”

por Pedro Brinca, em 10.01.13

O merceeiro da minha rua não tinha grande instrução. Teria a quarta classe ou nem isso. Mas acumulava a sabedoria da experiência de vida. Tinha o seu negócio bem instalado e prosperava, ainda que lentamente. Nunca foi de grandes ambições, fazia questão de ser correto e era acarinhado por todos no bairro. Conseguiu ter dois filhos a estudar.

 

A sua filosofia de vida podia resumir-se em meia dúzia de provérbios populares. “Quem tudo quer tudo perde” seria um dos mais inspiradores. Os fregueses procuravam-no sobretudo pelas frutas e pelos legumes. Enfim, pelos produtos do campo. Comprava-os a meia dúzia de agricultores de confiança, já amigos de longa data. Sabia que podia confiar na qualidade e na frescura. Adquiria-os por um preço justo a que acrescentava uma pequena comissão na venda.

 

A ambição podia tê-lo levado a aumentar a margem de lucro. Ganhar mais de cada vez. Os fregueses estavam fidelizados, os produtos escoavam na íntegra, a receita garantida, porquê contentar-se a ganhar menos do que poderia ganhar? Não, a sua sabedoria da escola da vida dizia-lhe porquê. Porque “quem tudo quer tudo perde”. Se vendesse mais caro, os clientes iam procurar outras lojas. As receitas caiam. Aquele parecia-lhe o preço justo.

 

Sem saber, nem imaginar sequer, ele estava a colocar em prática uma das teorias base da economia. Na sua intuição natural, vendia ao preço de equilíbrio, onde as curvas da oferta e da procura se cruzam. Vender mais barato seria asneira, pois escoaria num instante a mercadoria e ganharia menos do que os clientes estariam dispostos a pagar. Praticar preços mais elevados seria desastroso. Perderia clientes, ficaria com os produtos a apodrecer e o prejuízo seria grande. Boas lições tinha tirado da escola da vida.

 

Qual a escola que frequentaram afinal os nossos governantes? Como podem ficar espantados com a redução da receita fiscal quando aumentam os impostos? Nunca jogaram o Sim City, em que o objetivo era criar uma cidade e administrar os recursos desta para que não entrasse em falência? Sempre que se aumentavam os impostos era o descalabro, embora com impostos baixos não houvesse dinheiro suficiente para fazer face às necessidades. É que também os impostos têm um valor de equilíbrio.

 

Os nórdicos pagam impostos elevadíssimos, mas dão por bem empregue o seu dinheiro pelos serviços que o Estado coloca à sua disposição. No sul da Europa, as pessoas não gostam de pagar impostos, mas também não vêm esse dinheiro ser bem aplicado. Há, apesar de tudo, um valor medianamente justo ou simplesmente comportável. Acima dele, retrai-se o consumo, cresce a economia paralela, baixam as receitas do Estado.

 

Também na circulação rodoviária, os governantes parecem ter sido apanhados de surpresa. Com o aumento das portagens, houve uma acentuada quebra de tráfego nas autoestradas e as antigas SCUT esvaziaram com desaparecimento de cerca de 50% dos veículos desde que deixaram de o ser. Investiu-se nas vias rápidas, alcatroando meio país, e o trânsito está de volta às velhas estradas nacionais. Com perca de tempo, com aumento de acidentes, com desgaste dos automóveis. Uma situação que só serve às oficinas e bate-chapas.

 

É impossível que os membros e os conselheiros do Governo não previssem isto. É impossível que não percebam, até pelo percurso já efetuado, que este é o caminho errado. Então porque continuam a insistir na solução? Porque teimam em asfixiar a economia das famílias e das empresas? Haverá uma agenda paralela? Não, isso seria acreditar na teoria da conspiração. Mas ou é isso ou são parvos… Será?

 

Pedro Brinca

 

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publicado às 12:30


1 comentário

De Adelino Chapa a 16.01.2013 às 09:12

Não sei se é uma agenda paralela, tem-se tornado óbvio que se trata de uma opção política concreta. O caminho do empobrecimento do país, das taxas elevadas de desemprego e dos salários mais baixos da Europa não é uma teoria da conspiração, é uma escolha assumida pelo Governo que surge aos nossos olhos como se fossem erros de cálculo fruto de uma qualquer incompetência, quando o que pretendem atingir é isto mesmo. Um país de miséria como aquele que pretendemos abandonar desde o 25 de Abril. Aquilo a que assistimos é um golpe de estado contra a constituição e os valores do regime instituído em 1974 e a reposição do regime fascista (com bufos e tudo).

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