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Temos maus especialistas, Alexandre Homem Cristo?

por Fátima Inácio Gomes, em 18.08.14

Um dos maiores encantos na vida é a capacidade de podermos ser sempre surpreendidos. Foi esse o sentimento que despontou em mim ao ler o título “Temos maus professores”, da crónica de Alexandre Homem Cristo, no “Observador”. Uma afirmação assim, tão contundente, impressiona logo pela sua vacuidade e sensacionalismo de festa popular de agosto. Sim, com certeza, temos maus professores, maus polícias, maus jornalistas, maus médicos, maus canalizadores, maus carpinteiros, maus pais, maus filhos, maus avós, maus rapazes, até bancos maus. Intrigada, fui pesquisar quem é este escrevedor tão esclarecido e a minha surpresa disparou quando me confrontei com um “mestre em ciência política e especialista em políticas de educação”! E disparou não apenas pelo buraco negro do título, mas pela argumentação encontrada para o justificar que tropeça grosseiramente na falácia, na generalização, no preconceito e na falta de informação. Vejamos, então, a fundamentação:

 

Argumento 1: “São alguns dos piores das gerações do presente que estão nas escolas a preparar as gerações do futuro” – é espantoso que chegue a esta conclusão a partir dos resultados da PACC (prova de avaliação de conhecimentos e capacidades), quando as “gerações do presente” que leccionam nas escolas não são, na sua larga maioria, estes professores. Quem realizou esta prova foram os professores contratados com menos de cinco anos, foram cerca de 10 mil inscritos e, de acordo com os números do ano letivo transato, apenas 300 ficaram colocados. Trezentos, Alexandre Homem Cristo! No activo, serão mais de 100 mil professores. Por outro, pode apresentar dados que relacionem estes 300 com os que falharam na prova? Afinal, está a falar de quem? Como pode alguém, consciencioso, informado e sério no trabalho fazer uma generalização tão grosseira quanto esta? Qual é o seu objectivo, verdadeiramente, ao denegrir toda uma classe indistintamente? Ou está a referir-se àqueles que ainda estão a estudar para professores? Se o está, nem o título é justo nem a frase é clara. Com as suas habilitações e com a responsabilidade de escrever num espaço de referência, exige-se mais.

 

Argumento 2: o corporativismo e os sindicatos, reactivos a qualquer “escrutínio”, não permitem uma avaliação verdadeira, “só aprovam avaliações em que são todos excelentes”. De facto, a Fenprof consegue ser irritante. Os sindicatos tendem a ser irritantes: é uma conquista democrática que parece já ultrapassada, verdade? Não vou aqui discutir a bondade da Fenprof, o sindicato apontado, mas gostaria de ter visto por parte do especialista uma análise fundamentada de quantos professores estão sindicalizados, para assim poder estabelecer uma relação factual entre algumas posições desses sindicatos e a dos professores. Formalmente, os sindicatos representam os professores. E na substância, representarão o pensamento da maior parte dos professores? Talvez se fizesse essa análise ficaria surpreendido. Eu, que sou professora, sei bem do que estou a falar, mas como não sou especialista, como o senhor, evitarei teorizar. Por outro lado, é já massacrante para um professor ouvir a estafada acusação de “não querem é ser avaliados”. Se há classe que é avaliada é esta. E por todos! Se em tempos houve grande polémica em torno do modelo de avaliação que a ministra Maria de Lurdes Rodrigues queria implementar, tal deveu-se ao disparate do modelo, não à fuga da avaliação pelos professores. Já chega de insistir no sofisma.

 

Argumento 3: a cereja estragada no topo do bolo - “Portugal tem maus professores. E não é por acaso: é fácil tornar-se professor. (…) quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de acção social. De acordo com os dados para o ano lectivo 2010/2011, 41% dos estudantes desta área de estudos obteve bolsa. Foi a percentagem mais elevada entre todas as áreas de estudos – ou seja, em nenhuma área há uma concentração tão grande de estudantes com baixo nível socioeconómico.”. Então, este mestre em ciência política responsabiliza o baixo nível socioeconómico dos alunos da área da educação pela existência dos “maus professores”? Em primeiríssimo lugar, deveria servir de conselheiro ao nosso governo, que muito tem contribuído para a diminuição das condições económicas da maior parte dos alunos, de todos os cursos. Por outro, devo dizer-lhe que esta que lhe fala é filha de uma costureira e de um empregado comercial, ambos com a 4ª classe. Cheguei a receber bolsa da acção social. Contudo, tenho um mestrado do tempo em que eram exigidos 4 anos para o fazer, uma licenciatura de 5 anos, um livro publicado e prefaciado por alguém que muito me honra (e que só me conheceu no momento da defesa da tese, sem favores, portanto), assim como outras coisas escritas no domínio da literatura que não importa aqui enunciar. Não senti que o nível socioeconómico dos meus pais me tivesse limitado nem as escolhas nem o caminho que segui (mas felizmente, sou do tempo de uma escola democrática, andava na 1ª classe quando se deu o 25 de abril). Não descuro, obviamente, o quanto um meio socioeconómico baixo pode dificultar os estudos – no meu tempo deixavam de estudar para ir trabalhar. Mas não define a competência do aluno. Contudo, sim, dou-lhe razão em algo: cada vez serão os piores alunos a irem para os cursos de ensino e é assustador pensar no que a Escola se vai tornar. E eu mesma o denunciei em tempos, neste mesmo espaço (http://parlamentoglobal.sic.sapo.pt/130354.html): com a deterioração das condições de trabalho, com o espezinhamento boçal dos professores como aquele que o próprio Alexandre Homem Cristo protagonizou, que bom aluno, mesmo sentindo vocação para tal, quererá ser professor? Com a sua crónica, que de estudo tem pouco, que belo serviço prestou à Educação neste país, meu caro especialista. Se não se dignificar esta profissão, com urgência, qual será o futuro das “futuras gerações”?

 

Sim, Alexandre Homem Cristo, temos maus professores – olhando para o produto, perguntar-me-ia sobre a qualidade dos seus. Mas não lhes farei essa injustiça, já que os não conheço. E porque, como sabemos, também há maus alunos.

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publicado às 12:21


Como evitar um novo BES

por Nuno Vaz da Silva, em 07.08.14

Depois dos problemas ocorridos no BPN e no BPP, pensava-se que o sistema financeiro português tinha ficado mais estável e expurgado de esquemas fraudulentos  de financiamento. As auditorias e inspecções passaram a ser mais incisivas, acompanhando as exigências da Troika para que as contas das entidades públicas e financeiras fossem mais rigorosas.

 

Termos como imparidades, testes de stress e reforço de provisões passaram a ser uma constante nas preocupações dos gestores financeiros, uns por real preocupação pela saúde da sua instituição, outros por mero receio das auditorias e inspecções externas.

Como se viu pelo recente escândalo do BES (não vale a pena eufemizar os acontecimentos porque a situação foi gravíssima), mesmo com a pressão constante das auditorias, o sector financeiro não ficou protegido contra o moral hazard.

 

Este risco de existir informação assimétrica em que um agente económico tem mais informação do que um terceiro, atingiu a insustentabilidade no caso do BES. Pelos últimos dados divulgados pelo Banco de Portugal, terá existido até uma quebra de confiança com informações incorrectas sobre financiamentos concedidos e outros produtos financeiros de elevada complexidade. Ou seja, a idoneidade e reputação (dois dos mais relevantes valores para ser membro da Administração de um Banco) terão ficado comprometidos.

 

O problema não é novo e não terá fim com a liquidação do BES. E a explicação é mais simples do que poderá parecer: Enquanto os gestores financeiros (e de outros mercados) tiverem prémios de produtividade em função dos lucros anuais obtidos, existirão incentivos perversos para ocorrerem problemas similares.

 

Mas haverá algo que se pode fazer para evitar nova catástrofe financeira?

Para se evitarem novas situações como a que ocorreu no BES, a legislação deverá incidir nos incentivos dos gestores e na criação de limites à renovação dos mandatos dos gestores financeiros. São apenas 2 exemplos aparentemente simples mas com impacto bastante relevante na gestão das instituições. Por um lado, a busca do lucro deixaria de ser o principal objectivo das instituições e com a rotatividade de gestores, os vícios da permanência em funções seriam diluídos.

 

Contudo, nenhuma medida poderá impedir quebras de confiança ou fraudes mas é imprescindível tomar medidas para reconquistar a credibilidade interna e externa do nosso sistema financeiro.

 

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publicado às 17:45


A Fúria dos Portugueses

por Fátima Inácio Gomes, em 04.08.14

A fúria dos portugueses será, naturalmente, demolidora. Não deixará pedra sobre pedra. É desta que o país se reforma, que a política se reforma, que a impunidade dos políticos e senhores da finança é reduzida a pó. Agora é que vão ser elas!

 

Já não dá para enganar: ao quarto banco salvo com dinheiro público, à custa dos nossos salários, dos nossos subsídios, das nossas reformas, da diminuição da qualidade do serviço nas escolas, nos hospitais, na segurança, o povo não só deixa de acreditar em quem o governa, como passa a agir, a exigir. O português é pacífico, mas não é néscio, é um povo valoroso e com história – o Poder treme já.

 

… ah, mas dizem-me que o primeiro-ministro ainda está, tranquilamente, a banhos, no Algarve. Apenas perturbado a planear alternativas lúdicas para o tempo chuvoso deste início de agosto. O presidente da república, por sua vez, dormirá a sesta. Terá até confidenciado que este ano o seu "jipe" de férias "não terá uma carga muito forte" (RTP, 30.07.2014). E as famílias da alta finança tomarão o chá com as restantes, mundiais, num qualquer off-shore, indignando-se, em conversas privadas, com a despesa do Estado em domínios que já deveriam ser privados (e estar a dar lucros, como a banca), como a educação, a saúde, a segurança social.

 

Ainda não tremem, então…. mas o povo português vai-se insurgir. Vai protestar numa qualquer repartição pública, para onde foi de madrugada para marcar a vez e ser atendido à hora do almoço. Se tiver sorte. Vai-se indignar contra o funcionário que lá está, sobrecarregado por dias a fio de utentes justamente indignados e pelo trabalho que se acumula, pois o Estado anda a gastar demasiado dinheiro a manter trabalhadores e dispensa-os. - A boa gestão manda cortar na despesa do Estado… há que haver dinheiro para salvar a gestão ruinosa dos banqueiros e dos grupos financeiros onde os políticos que nos governam têm interesses. - O povo português vai protestar, sim. Vai protestar com o funcionário que atende no centro de saúde, porque lhe diz que só terá consulta daí a uns meses, vai protestar por ter de ficar um dia inteiro à espera do milagre de uma vaga, vai protestar com o enfermeiro que perde a paciência, sobrecarregado pelo número de horas de trabalho, devido ao corte de pessoal. Vai protestar porque o professor já não quer saber do filho, cansado de andar com a casa às costas há anos sem que lhe reconheçam o trabalho, cansado de aguentar a revolta que os alunos levam da casa para a escola, a revolta dos pais desempregados.  E também vai protestar por o professor querer saber do filho, lhe lembrar responsabilidades, “quem sabe do meu filho sou eu, quem se julga que é?”.

 

Já são quatro os bancos salvos pelo Estado. Bancos que se afundaram devido aos negócios ruinosos daqueles que os dirigem, em benefício próprio. Exclusivamente próprio. No táxi, no cabeleireiro, no mecânico, na mercearia, o bom português dirá que “são todos uns ladrões”, “deveriam ir todos presos”, “os políticos são todos iguais”. Os comentadores da praça falarão de “imoralidade”, de “responsabilidade”, de “gestão danosa”. Mas o dinheiro do Estado irá salvar mais um banco. E quando o Governo vier anunciar, em breve, mais cortes nas funções do Estado, mais cortes na função pública, quem, não sendo funcionário público, virá defender a função pública? Quem se insurgirá? Quem se lembrará que a função pública, afinal, são os funcionários, os enfermeiros, os médicos, os polícias, os professores, os varredores de rua que fazem a máquina que os serve funcionar? Quantos agirão contra a gestão danosa destes Governos?

 

Sim, a fúria dos portugueses será demolidora. Vai-se virar contra aqueles que, cada vez com mais dificuldade, os servem. Não há grandeza neste povo, afinal. Não há génio, não há chama. E os Governos, sabendo disso, vão alimentando a pequenez deste povo, cultivando a divisão privado e público, trabalhador e reformado, novo e velho, porque assim lhes convém. Este povo fará como o fulano que, depois de ser enxovalhado pelo patrão se cala e, chegando a casa, pontapeia o cão que lhe festeja a chegada, dá uma bofetada ao filho que lhe mostra o caderno e espeta um murro à mulher que lhe faz a comida. Para depois se queixar do cão, do filho e da mulher.

Com um povo assim, não é difícil governar-se.

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publicado às 14:59




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  • silva

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