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Eleições em Portugal mas pouco europeias…

por Nuno Vaz da Silva, em 22.05.14

Aproxima-se a data das eleições europeias e começa a ser efectuado o balanço de mais uma campanha eleitoral repleta de acusações mas com reduzida discussão de argumentos sobre o futuro da Europa.

 

Esta não é uma realidade nova neste tipo de eleições. À falta de temas europeus cativantes para o eleitorado, os partidos recorrem a assuntos nacionais para aquecerem o tom dos discursos e roubarem o máximo número de votos à abstenção que se espera elevada. Esta estratégia, apesar de habitual, é profundamente errada por significar mais uma oportunidade perdida de discutir o presente e o futuro da Europa.

 

Não será de estranhar que os eleitores se questionem sobre a relevância deste acto eleitoral mas a verdade é que é bastante importante. Não só a maioria das decisões europeias têm primazia sobre a legislação nacional como a capacidade de influência dos deputados junto dos seus pares é determinante para o futuro de Portugal enquanto membro de pleno direito da União Europeia.

 

Ainda assim gostaria de destacar alguns aspectos interessantes deste período eleitoral:

 

1- A Petição “Nunca Mais”, cujo primeiro subscritor é o Professor Nogueira Leite e que pode ser encontrada aqui:

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=NuncaMais

 

2- Algumas propostas irrealistas como por exemplo a criação de um fundo que consolide as dívidas das famílias (proposta do PPM)

 

3- O reduzido empolgamento de Paulo Rangel, ao contrário daquilo que nos habituou em actos eleitorais anteriores

 

4- A ironia de alguns cartazes como a falsa selfie do PS

5- A argumentação de Marcelo Rebelo de Sousa, apelando no voto PSD/CDS como sendo um voto em Jean-Claude Juncker

6- Os tempos de antena verdadeiramente deprimentes e pouco esclarecedores

 

Quando uma campanha não tem relevância pelos argumentos mas sim pelos factos políticos, alguma coisa está errada. Ou os actores não querem discutir o tema; ou o tema é pouco discutível; ou então o eleitor não está interessado para essas questões. Seja uma das hipóteses, um misto das três ou outra qualquer, a verdade é que infelizmente estas eleições terão mais impacto em Portugal do que na Europa. Senão vejamos:

 

- A coligação governamental terá um mau resultado ou, pelo contrário, a diferença de votos face ao PS será pequena?

 

- António José Seguro afirma-se como candidato a Primeiro-ministro ou continuará a ser um líder interino?

 

- Os votos na coligação sustentarão o Governo ou provocarão uma mini remodelação?

 

Fica contudo por esclarecer o mais importante. Qual o projecto de Europa defendido pelos candidatos a deputados?

 

Afinal de contas, para isso é que existem eleições europeias!

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publicado às 10:51


Os exames e a implosão das escolas

por Fátima Inácio Gomes, em 22.05.14

Semana de exames para o 4º e 6º ano. Eis uma medida cara a Nuno Crato, o avatar do “rigor e da exigência” no sistema educativo. Nada tenho contra a aferição de resultados. Sequer contra exames de caráter nacional. Tenho, contudo, contra a parafernália paranóide que os rodeia.

 

De repente, vejo o ensino obsessivamente direccionado para os resultados nos exames. Os resultados dos meninos ditarão a competência do professor. Os resultados dos meninos ditarão a avaliação da escola. Os resultados dos meninos ditarão os rankings, as boas escolas, as más escolas. E esta ditadura recém-criada contamina o próprio processo de ensino - não importa já se há outras atividades promotoras de sucesso. De repente, todo o processo de ensino ficou direccionado para treinar os meninos para o bom desempenho num determinado formato de prova. Repito, os alunos são treinados, amestrados. E a pressão instala-se em toda a comunidade escolar - professores, alunos, pais: há treino específico em aulas suplementares, há centros de explicações para exames de 4º e 6º ano, as editoras publicam cadernos de preparação para os exames do 4º ano e 6º ano.

 

E isto na fase preparatória. Chegado o dia dos exames, novo filme. O “rigor e exigência” impõem que sejam outros professores os vigilantes (para não haver manipulação dos resultados), impõem a deslocação dos meninos para uma escola sede, impõem silêncio absoluto. Assim, em nome desta exigência, outros alunos não podem ter aulas… e os encarregados de educação destes alunos reclamam. Diz o presidente da Confap que “Houve um ano inteiro para preparar dois dias, de modo a que as escolas pudessem funcionar normalmente. Mas nada se fez e hoje é provável que muitos pais se vejam numa situação de não ter onde deixar os filhos". Tem toda razão. Mas se os ovos são os mesmos, a omelete não poderá ser diferente. O que é que o Ministério mudou nas condições das escolas, ou nas condições de realização das provas, para que a omelete melhorasse?

 

A verdade é que Nuno Crato sofrerá de uma forma de esquizofrenia que coloca em confronto o seu impulso de “rigor e exigência” e a sua pulsão de “implodidor” do Ministério que tutela. O Ministro está a implodir a escola pública, mas quer que ela seja, ao mesmo tempo, modelo de “rigor e exigência”. Assim, lança os exames de Cambridge, secundado por parceiros amigos, mas deixa às escolas o encargo de se “amanhar” com a logística, com a correcção e com as muitas páginas de directivas rigorosas e, algumas, até caricatas. Assim, obriga a que alunos de dezenas de escolas do 1º ciclo realizem a prova numa única escola, sendo impossível manter as aulas a decorrer com normalidade para os restantes alunos. Se são precisas salas para centenas de alunos, repito, centenas de alunos, que alternativa haverá se não a de desalojarem os alunos dos outros anos/ciclos? Se são precisos professores, que não os do 1º ciclo, para vigiar estas centenas de alunos, como não retirá-los da leccionação das aulas dos alunos de outros anos/ciclos? E o “rigor e exigência” devido a todos estes alunos?

 

Mas a ação esquizofrénica de Nuno Crato não é doença, é fachada. Porque, na verdade, o “rigor e exigência” é um placebo que mascara um objetivo único: implodir a escola pública, transformando-a no recurso dos pobres e dos sem alternativa. Porque quem tem poder de escolha correrá para a escola privada, por oferecer condições que cada vez menos a escola pública poderá oferecer, por ação do governo, não por incompetência das escolas. Como uma reportagem televisiva fez questão de mostrar, numa escola privada (como terá acontecido, aliás, nas restantes), os exames de 4º e 6º ano não impediram que os restantes alunos tivessem aulas – pois não, eram 28 alunos, contra as centenas que realizam nas escolas públicas; os meninos das escolas privadas foram para as suas escolas, para as suas salas, os meninos das públicas, muitos deles, tiveram de ir para outra localidade. Assim, todos quereremos ter os nossos filhos nas escolas privadas. Ainda bem que o senhor ministro está a pensar no cheque-ensino! Vai ser maravilhoso quando o menino do Bairro do Cerco for estudar para o Colégio Luso-Francês!...

 

Que imagem pretende, afinal, o senhor ministro dar da escola pública? É o mesmo que pedir a dois varredores para limpar a rua e a um entregar-lhe uma escova de dentes e a outro um aspirador e convidar-nos a escolher. Se de facto defende a escola pública, não a afunde e não privilegie as privadas, senhor ministro. Se de facto defende o “rigor e a exigência”, exija que, por exemplo, os alunos das escolas privadas realizem os exames nacionais do ensino secundário, aqueles que dão acesso ao ensino superior (e não os do 4º ano, que não são mais do que um acto de vaidade) nas escolas públicas, tal como acontecia quando foram inicialmente implementados. Porque também são conhecidas as “condições especiais” em que alunos de algumas escolas privadas realizam estas provas, tal como é do conhecimento público, e fruto de estudo, o desempenho dos alunos do privado e do público no ensino superior. Ou será que o “rigor e exigência” de Nuno Crato é também esquizofrénico e só toca a alguns?...

 

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publicado às 10:41




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