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Foram muitos os professores que reprovaram

por Fátima Inácio Gomes, em 18.12.13

Sim, foram muitos. Em primeiro lugar, todos os que foram à prova: os que foram obrigados a fazê-la, para não ficarem liminarmente excluídos da possibilidade, mesmo que remota, de se empregarem e aqueles que foram vigiar essa prova. E, também, todos nós, professores, que mesmo revoltados, mesmo erguendo a voz, ou então, desalentados e desmoralizados, continuamos a dar aulas, a permitir que a máquina funcione. Todos nós que, por profissionalismo e respeito pelos seres humanos que temos nas nossas mãos, continuamos a alimentar o monstro. No fundo, os professores não são mais do que a triste imagem de toda uma nação, enxovalhada e encolhida.

 

Olhando para as imagens da televisão vi imagens tristíssimas. Professores a passarem por cima (metafórica e literalmente) de outros professores, para irem vigiar as provas de outros professores, que não as querem fazer. Sou pessoa que prima pelo respeito pelo outro, mas não me peçam que respeite ações ou opiniões que radicam na ignorância, na falta de solidariedade e na covardia. E não encontro qualquer outra razão para que professores tenham acedido a vigiar outros professores, quando sabem, deveriam saber, que os colegas que se sujeitaram a esta prova o fizeram de cabeça baixa, forçados a tal. Hannah Arendt perguntava-se, no julgamento do oficial nazi Adolf Eichmann, por que razão um homem, com todas as capacidades intelectuais, um homem comum, como nós, nunca se tinha rebelado contra a iniquidade que via em seu redor e tinha, candidamente, “cumprido ordens”. A mesma pergunta me fiz eu, quando vi as imagens que passaram na televisão. A banalidade mecânica daqueles professores “vigilantes”…

 

Os professores contratados que fizeram a “Prova de Avaliação de Competências e Capacidades” vão, certamente, “passar”. Aliás, já “passaram” pela humilhação de uma prova que põe em causa o seu trabalho. Mas há muitos outros professores reprovados: os vigilantes, os correctores a três euros a prova, e todos nós, que continuamos a permitir que, apesar de todos os atropelos, a Escola ainda funcione, com rigor milimétrico. Apesar da desmotivação, do cansaço, da tristeza imensa de tantos bons profissionais, os contratados até cinco anos, os contratados até 20 anos, os do quadro. Somos todos a mesma carne de canhão.

 

E desenganem-se as más-línguas e a ralé de opinadores, profissionais ou amadores de comentário de rodapé de notícia online: mais uma vez, o problema não é ser “avaliado”, o problema é que esta prova não visa avaliar, mas enxovalhar, visa “dividir para reinar”, política já do tempo da outra senhora, e, como se vê, com sucesso. Qualquer pessoa de boa-fé, informada e que se disponha a reflectir antes de falar, saberá que esta prova nada avalia da competência de um professor e até se torna atentatória quando os professores são avaliados anualmente - esqueceram-se já do filme da Avaliação de Desempenho Docente, que tanto entusiasmou a opinião pública? Essa avaliação é feita com base no desempenho real dos professores, em sala de aula, na dinamização de atividades na escola, no desempenho de diretor de turma, entre outras “funções” que agora lhes são atribuidas. E é, para os professores contratados, uma avaliação anual. Além de que, para acederem ao concurso como professores, estes profissionais já fazem uma profissionalização em serviço (o estágio) ao que se soma a apresentação de um trabalho escrito. O Ministério consegue, assim, não avaliar os professores, mas passar um atestado de menoridade tanto às universidades quanto a si mesmo, pois põe em causa o próprio modelo de avaliação de desempenho que implementou.

 

Fica claro, claríssimo, que o Ministério de Educação e Ciência não pretende promover a qualidade ou qualquer outro chavão que vai debitando nos discursos televisivos. Pretende, e está a conseguir, desmantelar a Escola Pública, “implodir o Ministério”, implodindo a própria Escola. Todas as ações que tem desenvolvido, com as trapalhadas habituais que, rotineiramente, arrastam as escolas e o brio dos professores pelas parangonas dos jornais, apenas pretendem vir a servir de justificação para a mudança. E os opinadores baterão palmas, alimentados pelo discurso mesquinho das regalias e dos privilégios. E são tão incoerentes, são tão “banais”, que se a cada um lhes fosse perguntado se desejaria que o seu filho seguisse a carreira docente, essa carreira cheia de privilégios e regalias, diriam… que não.

 

O MEC não só está a destruir a escola do presente, esmagando os professores. Está a destruir a escola do futuro: que bom aluno quererá ser professor? E aí, não haverá Prova de Avaliação de Competências e Capacidade que valha à Educação em Portugal.

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publicado às 18:23


Cavaco, o Distante

por Nuno Vaz da Silva, em 12.12.13

Na história portuguesa, os reis e rainhas ficaram conhecidos pelo seu tipo de governação, pelos seus feitos mas também pelo cognome que lhes foi atribuído. Com a implantação da república, esse hábito desapareceu mas a memória colectiva e a apreciação social não terminou. As populações continuam a avaliar a prestação dos seus governantes e é usual atribuírem-lhes adjectivos ou mesmo denominações.

 

Cavaco Silva tem tido mandatos presidenciais difíceis de enquadrar. A sua acção desenvolve-se sobretudo nos meandros do poder e a sua palavra é disseminada nos discursos efectuados em ocasiões festivas. Não se pode dizer que seja um presidente pouco interventivo ou mesmo alheado dos problemas. Cavaco parece estar bem informado e tem conseguido manter a estabilidade política no país, apesar das complicadas decisões que teve a seu cargo.

Mas Cavaco não é um presidente próximo das populações. Ao contrário do fulgor demonstrado nos períodos eleitorais, Cavaco Silva opta por se refugiar na sua residência e por não intervir publicamente sobre a situação do país ou sobre os problemas do mesmo.

Nos seus raros comentários públicos refere-se até ao exercício das funções de Presidente da República na terceira pessoa do singular, demonstrando um claro distanciamento das funções para que foi eleito.

 

Cavaco não é o Presidente da República. Cavaco e o Presidente da República são pessoas diferentes que se encontram em algumas ocasiões mas raramente convivem de forma simbiótica.

Foi nos tempos áureos do cavaquismo e da adesão à União Europeia que Portugal mais se motivou. Nessa altura, o Primeiro Ministro era a mesma pessoa da personalidade que ocupava o cargo, o cidadão Cavaco Silva.

Os tempos são outros e os desafios também! Mas o país e os cidadãos são tendencialmente os mesmos, que necessitam de ser motivados e esclarecidos para compreenderem quais são os problemas e, principalmente, quais são as soluções.

 

Cavaco Silva, arrisca-se a ficar conhecido não pela sua actividade governativa enquanto Primeiro Ministro. Arrisca-se ainda a não ficar conhecido pela sua actividade académica. Cavaco Silva será recordado pela sua magistratura de influência…na sombra e pelas intervenções públicas…esporádicas e demasiado formais.

 

Mas sobretudo, arrisca-se a ficar conhecido por “Cavaco, O Distante!”

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publicado às 12:50

Foi o lema de um seminário realizado no Porto, nos dias 27 e 28 de Novembro, no qual participei (e que contou com mais de 500 participantes).

Num contexto de plena austeridade e de perda de direitos sociais, os promotores pretendiam sobretudo dar visibilidade à temática da luta contra a pobreza e a exclusão social, o reconhecimento das pessoas em situação de pobreza e exclusão social a viverem com dignidade e a participar plenamente na sociedade.  Outro dos objectivos era desmitificar a imagem negativa que a opinião pública tem do Rendimento Social de Inserção e dos seus beneficiários, bem como mobilizar toda a sociedade para o problema, tentando também fazer passar a mensagem que a pobreza e a exclusão podem atingir qualquer pessoa.

 

A questão do Rendimento Social de Inserção é uma questão central nos direitos dos Cidadãos, é uma questão de justiça social, de combate à desigualdade e à pobreza e portanto uma questão de cidadania.

 

De facto, existem um conjunto de preconceitos e de “ideias – feitas” e muitas vezes “fabricadas” sobre esta questão. Não vou aqui entrar na apresentação de argumentos teóricos e científicos de forma a justificar a importância desta medida de política. No entanto enquanto cidadã e interventora social sinto necessidade de partilhar com os leitores deste blog algumas conclusões que resultaram deste encontro e que se prendem com a importância de:

  • Combater a estigmatização das pessoas que não conseguem arranjar emprego, ou um emprego que os tire da pobreza. Está muito disseminada a ideia de que há muitos pobres que abusam e no debate público parece que as pessoas estão mais interessadas em combater a fraude dos pobres do que em resolver o problema da pobreza.
  • Haver um reconhecimento político partilhado e alargado às mais diversas instâncias, relativamente à inaceitabilidade da pobreza. Os sistemas de rendimento mínimo oferecem uma assistência social de último recurso.
  • Reconhecer que a maioria dos rendimentos de subsistência não tira as pessoas da pobreza (tal como o RSI). As pessoas deveriam ter direito a um apoio financeiro “adequado” que lhes permita um padrão de vida decente face aos padrões da sociedade em que vivem.

 

Por outro lado, é fundamental que se saiba que a grande maioria dos pobres nem sequer tem acesso ao RSI. São tão poucos os pobres que beneficiam do actual RSI que nunca se resolveria o problema da pobreza por esta via.

 

Temos pois um longo caminho a percorrer e um combate para travar neste capítulo. Numa época de crise, sabemos de antemão que ele será mais difícil. Precisamos de uma verdadeira mudança nas políticas europeias e nacionais que nos tragam medidas concretas de redução da pobreza.

 

Teremos eleições europeias no próximo ano, esta será a altura certa para levar a sério algumas das preocupações das pessoas: é a Europa social que está em causa, esta é a altura certa para levar o tema da pobreza aos decisores políticos europeus.

 

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publicado às 11:19




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  • silva

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