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António Araújo – Um português em Arguim (Parte I)

por Raúl Braga Pires, em 27.06.13

Quando cheguei a Nouakchott, a 1ª surpresa foi a notícia, logo à chegada, em cridem.org (o melhor site informativo da Mauritânia), dum português convertido ao Islão e residente na capital mauritana há já alguns anos, que não assumia uma criança como sua filha, nem o casamento contraido com a mãe desta. O caso meteu a polícia, como é óbvio e a detenção do nosso patrício por algumas horas e em calções!

A 2ª surpresa, sendo que esta foi muito positiva e muito mais a meu gosto, foi ter conhecido o António Araújo, o “Feitor-Mor” do Parque Nacional do Banco d’Arguim, entre Nouadhibou a norte e Nouakchott a sul, classificado como Património Mundial pela UNESCO, graças à importância do local para a invernada de aves aquáticas. Ah, esqueci-me de referir, o António é ornitólogo.

A Arguim que está a pensar é essa mesma, cujo Golfo começa a ser cobiçado/explorado/navegado pelos portugueses a partir de 1440 por Nuno Tristão, Dinis Dias e por Gonçalo de Sintra, que deverá ter descoberto a Ilha de Arguim em 1445, altura pela qual também é aí estabelecida uma Feitoria, destinada a adquirir escravos, ouro e goma-arábica (uma resina natural). O pagamento era feito com tecidos e trigo.

A importância estratégica do local, para à época aí centralizar o comércio português com África (de Arguim rapidamente se chegava a Tombuktu), fez com que o Infante D. Henrique tenha mandado de imediato aí edificar um castelo, o qual fica completamente operacional em 1461, já no reinado de D. Afonso V.

Para melhor conhecerem o António Araújo, vejam o “Perdidos & Achados” da SIC, que há 16 anos o encontrou na Guiné-Bissau e mais recentemente na Mauritânia.

Veja agora os videos que efectuamos na viagem até ao Parque Natural, numa missão muito especial, a qual perceberão no 3º capítulo desta aventura que agora começa a ser reportada. Importante escutar com atenção o sempre interessante e informado relato do António Araújo, ao longo deste percurso onde o Sahara encontra o Atlântico.


Para melhor se perceber a duna intransponivel com maré alta, mencionada no 1º video, opto por colocar aqui um video já do regresso, onde é bem perceptivel a importância da mesma, bem como a esperança inquebrável de 2 benfiquistas em vésperas de grandes provas!

 

 

A Continuar...

 

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publicado às 16:31


Nelson Mandela: um herói do mundo livre

por Helena Freitas, em 26.06.13

Nelson Mandela está hospitalizado e mantém um estado de saúde muito crítico. O primeiro Presidente negro da África do Sul tem 94 anos, e a sua saúde acusa agora os efeitos de um longo e sofrido cativeiro na prisão de Robben Island.

 

As notícias que vão sendo públicas, mostram bem a crescente angústia dos sul-africanos, e anunciam o fim próximo deste homem extraordinário e singular, a quem carinhosa e respeitosamente chamam de Madiba. Mas não é apenas a África do Sul que sente o desaparecimento de Nelson Mandela. Com a partida deste homem que se tornou uma referência incontornável do mundo livre, um herói da luta contra o apartheid e prémio Nobel da Paz, deixa-nos um ser humano que tocou o coração de todos pela defesa intransigente dos valores humanos mais nobres, que ele tão bem soube expressar em momentos críticos da história do seu país e do mundo.

 

As memórias que guardo das suas intervenções públicas quando presidia aos destinos da África do Sul, levam-me a prestar-lhe hoje uma homenagem simples mas sentida; o tributo de uma cidadã oriunda de um país que tem fortes laços com a sua África.

 

Não é possível deixar de evocar aquele momento em que ele espreitou finalmente o caminho de uma liberdade conseguida depois de um penoso cativeiro. Quando se poderia antecipar alguma (justa) revolta e indignação em relação àqueles que lhe roubaram anos de vida, Nelson Mandela exprime a plenitude de uma sabedoria ao alcance de muito poucos, declarando o seu desejo de perdoar o passado e unir o povo sul-africano. A tranquilidade do seu carácter, a afabilidade genuína das suas palavras, revelam um homem de coração grande e de inteligência superior.

 

Impossível omitir a genialidade do seu acto (que viria mesmo a ser argumento para um conhecido filme), quando vestiu a camisola da equipa sul-africana de rugby - desporto que até então simbolizava neste país o apartheid - e decidiu assistir a uma final do campeonato do mundo da modalidade, compreendendo que este gesto simbólico poderia acrescentar força à sua capacidade para unir o povo sul-africano. É esta a maior virtude de Madiba, e que estará presente e bem viva nos novos tempos: o seu gesto de amor perdurará e continuará certamente a unir a África do Sul.

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publicado às 17:08


“O maior adversário do Governo”

por Pedro Brinca, em 24.06.13

A Constituição da República é a lei maior do nosso país. A lei à qual todas as outras têm que se submeter. Ao Tribunal Constitucional cabe garantir o cumprimento dessa lei, como aos outros tribunais compete administrar a justiça, garantindo a observância das demais leis.

 

Numa sociedade de direito, os atos dos cidadãos estão obrigatoriamente balizados pelas leis existentes e sempre que alguém entre em incumprimento deve sujeitar-se às determinações dos tribunais. O processo legislativo cabe à Assembleia da República, cujos deputados são eleitos democraticamente por voto popular, pelo que se pode dizer que as leis emanam da população portuguesa.

 

As leis existem sobretudo para defender os nossos direitos, liberdades e garantias, pelo que a violação a qualquer lei pode ser considerado um ato contra os outros. As leis defendem-nos. Atacar as leis é atacar os cidadãos que estas devem defender.

 

Muito estranho seria que os ladrões de bancos e outros praticantes de crimes e delitos diversos se viessem queixar da polícia e dos tribunais por estes não os deixarem desenvolver as suas atividades livremente. Mas Marques Mendes, e os atuais governantes, a começar pelo primeiro-ministro, acha normal considerar o Tribunal Constitucional como o maior adversário do Governo.

 

Que chatice existirem leis e tribunais que nos impedem de fazer o que queremos.

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publicado às 10:59



Hauptbahnhof Zürich
Fotografia de Filipa Stylita Machado

 

Quanto mais viajamos, mais nos apercebemos que na globalização não existem apenas fronteiras eletrónicas mas também psicológicas. A comunicação aproxima espacialmente as sociedades, o que permite um conhecimento rápido de tudo o que ocorre no mundo, mas não destrói o sentimento de tribo. As diferenças culturais, sociais e económicas, sinónimo de riqueza plural, são desvalorizadas e motivo de descriminação. A aproximação entre pessoas e a responsabilização global continuam ameaçadas numa sociedade contemporânea em que a solidariedade e o desenvolvimento sustentável são fundamentais.

 

Entre os Alpes e o Jura, num vasto planalto, ergue-se o Mont Vully sobranceiro e vigilante junto aos lagos de Morat, Bienne e Neuchâtel, unidos por canais rasgados pelo homem que assim conseguiu estabilizar a subida das águas e resgatar-lhes as terras férteis para cultivo do seu sustento. Tudo em redor até às montanhas é uma manta de retalhos verdes e terra lavrada, salpicada de casario abraçado aos lagos que espelham a sua vaidade. Estamos na Suíça, república federal, entre 3 estados, no cantão de Fribourg, bem no centro deste velho continente europeu.

 

Escolho este local simbolicamente como metáfora de uma europa de que gostaria plural e assente em valores compartilhados de democracia e respeito pelos direitos humanos.

 

Seguimos os passos de Guilherme Tell, mito ou realidade que subsiste na cultura popular como herói na guerra de libertação nacional, enquanto na Turquia o povo é ameaçado com a intervenção do exército e sofre violentas cargas policiais em Ancara e Istambul.

 

Começo por Genéve, cidade que respira vida e juventude, tudo está no seu lugar e as pessoas têm um ar feliz. Estarão indiferentes a que em Portugal a função pública resista a pagar a fatura da crise e os professores façam greve em defesa dos seus direitos e do ensino público?

Estamos num dos países mais ricos do mundo, não conseguimos acompanhar o nível de vida. A solução é deslocarmo-nos de comboio, em 2ª classe, até Zurique e comer umas sandes pelo caminho. Saberão que o desemprego em Espanha e Portugal atingiu níveis inimagináveis?

 

A pontualidade é apanágio destes lugares ou não fossem relojoeiros. Às 13 horas a tarde é pálida e suave em Zurique. Se no Cabaret Voltaire não nos dirigissem a palavra e uma idosa helvética não se levantasse quando nos sentámos ao seu lado no banco de jardim para lanchar, diria que andávamos por ali transparentes.

 

No regresso percorremos os terminais da estação à procura do comboio porque fugiam de nós ou negavam-se a falar francês ou inglês quando pedíamos informação. No comboio ninguém teve a iniciativa de se levantar ou retirar os pertences para sentar o meu filho de 4 anos. Viajámos por momentos no fole de ligação entre carruagens na companhia de pai e filho chineses.

Ficaram boas recordações de paisagens e lugares de cortar a respiração, mas sinto que nestes dias não respirei o mesmo ar desta respeitável gente.

 

Só me vem à memória as palavras de Hugo Ball um dos fundadores do Dadaísmo, vanguarda modernista (…) Quando o contacto é interrompido, quando cessa a comunicação, começa o mergulho em nós mesmos, o desprendimento, a solidão.

A aldeia global ainda é pouco mais que um conceito que tenta resistir à intolerância e ao etnocentrismo.

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publicado às 12:31


E depois do exame…

por Fátima Inácio Gomes, em 17.06.13

Seria bom que o resultado fosse o mesmo que o da canção que deu sinal à revolução, “E depois do adeus…”. É que a Educação em Portugal precisa, urgentemente, dessa revolução e ela não deve envolver, apenas, os professores. Deverão ser eles, pelas sua responsabilidade direta, os primeiros a dar o sinal de alerta – fizeram-no. Só se chega a uma greve aos exames, e da dimensão da de hoje, numa situação de rutura extrema. Basta olhar para trás no tempo, desde a implementação dos exames. Agora é a vez de pais e alunos entrarem nessa revolução. Só assim se conseguirá parar a máquina que o Governo montou para triturar todo o trabalho desenvolvido no ensino público, até hoje, com muito esforço, mas com sucesso.

Só quem nunca esteve envolvido em exames é que não conhece o extremo formalismo e delicadeza do processo. Há reuniões obrigatórias para os professores vigilantes, para indicação dos procedimentos obrigatórios a seguir, há controlo intensivo, quase obsessivo, para eliminação de qualquer contacto com o exterior, com ruídos, até os rótulos das garrafas de água devem ser removidos, as portas das salas devem ficar abertas, os vigilantes devem sentar-se o mínimo possível e nunca ao mesmo tempo, durante os 120 minutos de prova. É criado um secretariado que envolve, em geral, doze ou mais professores, que tem outras instruções específicas a obedecer e que devem estar preparados para resolver qualquer ocorrência, desde o cartão de identificação que falte ao aluno que perturbe. Estas são algumas das exigências. Há mais. Mas hoje, dia de exame de Português do 12º ano, muitas delas não se cumpriram, o que parece não perturbar grandemente o ministro Nuno Crato.

Nuno Crato, com ou sem o primeiro-ministro a respaldá-lo, preferiu seguir o caminho do orgulhoso ferido ao do negociador. Ignorou os milhares de alunos que não fizeram exame e ignorou o incumprimento de muitos daqueles procedimentos. Houve ruído, houve atraso no início das provas, pelo que nem os que fizeram as provas a fizeram nas condições exigidas, houve escolas sem secretariado, houve alunos que não fizeram prova mas que a viram enquanto ela decorria (testemunhos de alunos em Lousada e Braga), houve alunos amontoados em grande número em cantinas, para realizarem exame com menos vigilantes. Nada correu com a tranquilidade que Nuno Crato quis transmitir. E se os números não são mais avassaladores é porque, nas escolas privadas, todos terão feito exame, não por muitos dos professores não concordarem com esta greve, mas porque vivem já num regime de tal modo autocrático que tiveram receio de a fazer. E como pode o ministro Nuno Crato dizer que a equidade está garantida? Não a há entre professores e não a há entre alunos. Já não basta conhecermos outros atropelos que ocorrem nas escolas privadas, às quais ele, que gosta de se autoproclamar como grande defensor da exigência, não pôs cobro? Quando em nome dessa exigência até impôs que alunos do quarto ano se deslocassem para outras escolas? Por que não vão os alunos das escolas privadas fazer o exame nas escolas públicas, com os colegas, criando verdadeiras condições de igualdade?

Este ministro não defende a escola pública e é hora de os pais e os alunos se consciencializarem disso. Neste momento, não podem permitir que o Ministro da Educação e Ciência dê prioridade ao seu orgulho em prejuízo daqueles que sempre disse que queria defender. Defendeu-os enquanto lhe eram úteis, para colocar a opinião pública contra os professores! Cabe ao Ministério, e a ninguém mais, criar essas condições. Os professores fizeram greve, o que ainda é legítimo num país democrático. Faça agora o Ministério aquilo que lhe compete. É hora das Associações de Pais e de Alunos lho exigirem, não só em relação ao exame, mas em relação às medidas que pretendem impor nas escolas. E é hora, de uma vez por todas, de ouvir os professores – são eles que trabalham nas escolas, são eles o garante de um futuro na Educação em Portugal.


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publicado às 17:06


Há a Mona Lisa e há a Mona Prince

por Raúl Braga Pires, em 14.06.13

Foi há precisamente 1 ano que conheci a Mona Prince, em Lisboa, no âmbito da agenda de actividades intitulada “Próximo Futuro”, da Fundação Calouste Gulbenkian.

A Mona, é egípcia e Professora Associada de Literatura Inglesa na Universidade do Canal do Suez, em Ismailia, no Egipto, escritora de ficção, tradutora, poetisa e activista. Esteve presente no acampamento de Tahrir, no Cairo e também tentou uma candidatura presidencial, mas não conseguiu o número de assinaturas necessário para tal. Entretanto, há uns meses atrás, pelo meio de uma das muitas polémicas em que o Presidente Morsi se viu envolvido, escreveu no mural do seu Facebook, que se candidataria de novo, nas próximas presidenciais, por longínquas que estas ainda se encontrem.

Foi precisamente durante o domingo em que Mohamed Morsi foi anunciado como novo Presidente do Egipto, que nos conhecemos melhor. Comemos uma sardinhada e depois fomos dar uns mergulhos até ao Meco, na companhia dos tunisinos Yassine Ayari (Blogger/Activista) e Ons Habib (Fotógrafa), também convidados da Gulbenkian e que participaram nas actividades do “Próximo Futuro”.

Eles queriam ir à praia e eu perguntei-lhes se queriam ir a uma qualquer, ou conhecer a minha. Tudo fez sentido naquele domingo e a liberdade do branco espumoso que bebemos e despimos na areia, parecia adivinhar as vistas curtas que os islamistas iriam em breve impôr no Egipto e na Tunísia.

No início de Abril, durante uma aula/debate sobre sectarismo religioso, conduzida pela Profª Mona Prince, a mesma mostrou a imagem duma faixa colocada pelos estudantes salafistas da faculdade, no campus universitário e que dizia “Os xíitas são o inimigo”, como exemplo do que é esse mesmo sectarismo nihilista e eucalíptico, que seca e destroi tudo à volta.

Como resposta, viu alguns dos seus alunos, muito provavelmente autores do cartaz, apresentarem uma queixa junto do Reitor, acusando-a de “insultar a religião, em específico o Islão, insultar o chefe do seu departamento, insultar a Universidade, não observar os seus deveres de docente com sinceridade, não seguir o programa do curso, não observar os valores e as tradições da sociedade, não ter modos próprios e (não poderia faltar) falar sobre sexo”!

“O Islão é um assunto sério, mas os seus advogados são mediocres”, Sheikh Muhammad Al-Ghazali dix it e já o Séc. XX ia a mais de meio!

Em consequência, Mona Prince foi suspensa e aguarda a decisão de um Conselho de Punição, que tanto a poderá repreender por escrito, como a poderá despedir.

O assunto tem sido recorrente nesta vaga reformista/nihilista, a qual pretende impôr uma arte limpa, um humor castrado e um discurso islamicamente correcto. Antes de Mona, fora o humorista Bassem Youssef, que apresenta um programa ao jeito do Daily Show de Jon Stewart e, antes deste, o próprio Sheikh Mazhar Shahin, o qual conduzia as orações na Praça Tahrir durante os protestos, acusado de criticar o Governo da Irmandade Morsi pela monopolização das instituições do Estado.

O grande desafio actual do Islão é uma mera questão de calendário. De forma simples e prática, terão que se decidir se optam pelo ano, a mentalidade e o absoluto de 1434, ou pelo ano 2013. Caso escolham o Séc. XXI, significa que assumem o paradigma da relativização e que se dispõem a debater as exegeses do Corão e a escolher uma, o que também implica a definição duma linha hierárquica clara, a qual até poderá ser oficiosa, para assim não ir contra a doutrina e a tradição e não ser encarada como Bida’a, Inovação. Ora já se está a perceber extensivamente qual é o problema e porque é que a discussão dos dogmas nunca será plenamente feita, pelo menos durante os próximos 100 anos!

No entanto, vitimas deste terrorismo intelectual, como a Mona, o Bassem e o Sheikh Shahin, são inevitáveis e fazem parte do processo de depuração que as sociedades islâmicas terão obrigatóriamente que passar. O momento actual, também deverá ser considerado como altamente pedagógico, já que certamente criará anti-corpos, fundamental para que sejam os próprios nacionais a rejeitarem o que os seus compatriotas islamistas propõem, acrescentando também que as coisas não estão a correr nada bem para quem está no Poder actualmente no Egipto e na Tunísia, por exemplo, onde tem sido patente a falta de experiência governativa, muita teoria e pouca prática, sobretudo fruto da falta de quadros.

Eles estão lá, mas estavam habituados apenas a contestar e a gerir pequenas mercearias, quando de momento têm em mãos a trela dum mutante que ainda não sabe no que se vai/quer transformar! Um regresso/posicionamento dos partidos islamistas do lado da oposição, certamente que deverá acontecer em breve e de forma democrática, o que representará também um regresso ao seu ambiente próprio e natural, o da contestação.

 

Video/Entrevista da Mona Prince ao Sociedade das Nações, da SIC Notícias:

 

Entrevista de Mona Prince a um quotidiano português, aquando da sua passagem por Lisboa, há um ano:

http://p3.publico.pt/node/1121

 

 

Raúl M. Braga Pires, em Rabat

 

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publicado às 13:00


Do verdadeiro prejuízo

por Fátima Inácio Gomes, em 11.06.13

O anúncio da greve de professores às reuniões de avaliação e a um exame nacional veio pôr a nu o país que temos. Um país de faz de conta.

Fica bem, democraticamente bem, dizer que “a greve é um direito”. Mas quando os professores anunciam uma greve (a medida mais radical de contestação, que se usa quando todas as outras se esgotaram) o democrático verniz estala. Um profissional da política (daí, um dos responsáveis pelo estado do país e das contas públicas), agora emboscado no comentário televisivo, acusa os professores de desrespeitadores e de criminosos. Ministros e deputados vociferam, diariamente, nos meios de comunicação social, incendiando a opinião pública, que educam à medida da sua manipulação.

 

O Governo lançou uma campanha espantosa de diabolização da greve dos professores, em particular à do exame a Português, transformando os alunos nos pobres cordeiros sacrificados à voragem do lobo mau. Como se o Governo, até à data, não tivesse feito mais do que lançar medidas que prejudicam as famílias e, muito particularmente, os jovens. Como se o Governo, até à data, na Educação, não tivesse lançado medidas com efeitos muito mais gravosos do que uma greve a um exame nacional pode causar. Mais uma vez, o Governo quer desviar o ónus da responsabilidade para os bodes expiatórios do costume… os professores. E há muita “opinião pública” que embarca neste discurso – ainda merecerá um estudo aprofundado a análise desta patologia que, recorrentemente, acomete a população sempre que os professores são assunto.

 

 A degradação das condições de trabalho contra a qual os professores lutam não só põe em causa a qualidade do ensino atual (não, Sr. Ministro, não é o mesmo ensinar a 15 ou a 30 alunos, por mais fabulosos que sejam os métodos e competente seja o professor) como compromete perigosamente a qualidade do ensino no futuro: quem serão os professores do futuro, quando os que se formam atualmente (ou de há dez, quinze anos para cá) são enxotados do ensino?  quem serão os professores do futuro, quando os bons estudantes são aconselhados a não seguir uma profissão que, garantidamente, não tem futuro de emprego e é cada vez mais desvalorizada  e enxovalhada na sociedade?

Gostaria que algum senhor deputado, daqueles que estão tão indignados com a greve dos professores, me respondesse, aqui mesmo, neste espaço, frontalmente, a uma questão, se é que alguma vez descem da redoma onde se refugiam e isolam das pessoas que dizem representar para falar com elas.

Responda-me, pois, honestamente (e esta questão lanço-a também a todos os pais, a todos os portugueses):  o seu filho é um bom aluno, está no 12º ano, e diz-lhe que quer ser professor de Biologia. Ou de Filosofia. Ou professor do primeiro ciclo. Ficará tranquilo com essa escolha? Achará, honestamente, que é uma boa escolha?


Tenho duas filhas, uma no 8º e outra no 10º ano. Nenhuma delas quer ser professora. Não por não reconhecerem valor à profissão (conhecem o meu trabalho e sabem reconhecer o dos seus professores), mas porque sentem que a profissão não é reconhecida. Muito menos valorizada, não só financeiramente, mas socialmente. Insurgem-se contra os comentários que veem na televisão, por exemplo, a propósito desta greve. Como se a mãe fosse a criminosa que o senhor Marques Mendes diz que ela é, por fazer greve, como se a mãe não tivesse os mesmos direitos que um varredor, um médico, um motorista, quando fazem greve. Como se a mãe fosse uma cidadã menor. E elas não querem isso para elas. E eu, apesar de gostar da minha profissão, também não quero isto para elas.

 

E assim, senhores deputados, senhores ministros, meus caros concidadãos, estamos a caminhar para um futuro muito mais prejudicial para muitos mais alunos do que aqueles que vão fazer agora exame. Caminhamos para um futuro sem professores. E aqueles que houver, serão os menos qualificados, incapazes de entrar num curso “melhor”. Que ensino será, então, o nosso, com esses professores? Que será, então, dos nossos alunos?

 

Percebem agora o perigo do caminho que se está a seguir? Quem anda, afinal, a causar verdadeiramente prejuízo aos alunos?

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publicado às 12:39


As coisas não têm paz

por Duarte Victor, em 11.06.13

Fecho os olhos e sou um homem no escuro dentro de mim à descoberta das coisas. É fácil encontra-las no escuro dentro de nós, as coisas imaginadas. Mas não são essas que me preocupam, são as que nos rodeiam e cintilam aos nossos olhos. Que nos fazem perder a cabeça para as conquistar. Vivemos rodeados de coisas. São apenas coisas mas cintilam e o seu brilho não nos deixa indiferentes. Somos capazes de tudo para as conquistar. Na impossibilidade, fechamos os olhos para as imaginar e ficamos perdidos no escuro dentro de nós.

 

A ostentação é o apanágio dos períodos de recessão. Uma espécie de modus operandi de uma verdadeira ascensão social para endinheirados descontraídos. Luxos ofuscantes aos olhos de pelintras de bolsos vazios, frustrados e infelizes. Sinais de desequilíbrios económicos e sociais profundos. Nada que as empresas não saibam como contornar para espicaçar o desejo de consumo tão enraizado nas sociedades modernas. Apresentam-se como a solução do problema, o remédio para tamanho vazio, acessível a todas as bolsas.

 

A crise insinua-se em tudo, e a publicidade politiza-se. Através dela, as empresas exprimem-se politicamente, apenas para vender mais (…) Eduardo Sintra Torres, in J Negócios.

 

Para sobreviver à desaceleração do crescimento económico e a contração dos mercados, o marketing tornou-se feroz. Com mensagens muito bem direcionadas para públicos segmentados, consegue estabelecer um vínculo emocional com o consumidor. Um analgésico suave e “democrático” de consciências. 

 

Criar a necessidade das coisas.

 

As coisas têm /Peso, massa, volume/ Tamanho, tempo/ Forma, cor /Posição/ Textura, duração/Densidade/ Cheiro/ Valor/ Consistência/ Profundidade, contorno/ Temperatura, função/ Aparência/Preço, destino, idade/ Sentido /As coisas não têm paz/As coisas. Gilberto Gil, canção.

 

Fechamos os olhos e continuamos no escuro dentro de nós. A crise não estimula a criatividade, a crise não estimula nada. Na verdade devia servir apenas para reflexão e definição de novos paradigmas a fim de evitarmos os mesmos erros que nos trouxeram até aqui.

 

As coisas não têm paz e nós também não.

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publicado às 12:38


O equilíbrio ambiental

por Pedro Brinca, em 07.06.13

Nesta semana comemorou-se o Dia Mundial do Ambiente. Nas diversas iniciativas e debates organizados em torno da data, voltou-se, como sempre, a ouvir o discurso habitual dos críticos. Que os ambientalistas, aqueles que defendem o ambiente, são inimigos de desenvolvimento, que preferem os passarinhos às pessoas.

 

O que muita gente ainda não percebeu é que não se trata de uma escolha entre os passarinhos e as pessoas. É que estamos todos dentro do mesmo barco e todas as espécies existentes desempenham o seu papel para manter a embarcação a flutuar. É por isso que se fala em ecossistema, porque tudo está em interdependência.

 

Haverá espécies mais dispensáveis do que outras? Porventura sim. Até porque a natureza tem mostrado uma capacidade fantástica de adaptação às mudanças. Mas num sistema tão complexo, alguém arriscará prever os efeitos do desaparecimento de uma espécie existente?

A necessidade de preservação da biodiversidade não é apenas para que se possam organizar passeios pela natureza. É, sobretudo, porque somos completamente dependentes dela. Na nossa alimentação, nos combustíveis, em todas as matérias-primas com que se produz tudo o que usamos. Parece que muita gente esqueceu isso.

 

Sobrevaloriza-se o poder humano, esquecendo que o homem, na verdade, não produz nada, apenas transforma o que a natureza lhe oferece. E, por isso, preservar os recursos naturais deve ser a primeira preocupação em termos de sobrevivência, porque só existe este planeta para vivermos. Um planeta em equilíbrio, que um dia pode desmoronar se lhe faltar uma peça chave, por mais pequena e insignificante que pareça.

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publicado às 12:49


A Questão Essencial Da Falta De Confiança

por Paulo Guinote, em 06.06.13

Há algo que o ministro Nuno Crato não parece ter entendido acerca dos professores e da relação deles para consigo.

 

Na entrevista de 3ª feira à TVI 24 e em algumas declarações recentes parece transparecer uma certa mágoa, talvez mesmo uma espécie de ressentimento em relação àqueles que se vão revelando ingratos em relação ao seu papel como governante que, nas suas palavras na TVI24, nem sequer fez declarações negativas sobre a classe docente e sempre afirmou estimar os professores. ou algo parecido. E que até fez publicar um documento para a organização do ano lectivo de 2013-14 aparentemente menos triturador do que seria de esperar.

 

Mas...

 

Nuno Crato parece não ter ainda entendido que a atitude dos professores (e não só) em relação a este governo e a qualquer dos seus elementos é a de completa falta de confiança, pois sabe-se que nada parece ser um "valor absoluto" e tudo parece ser transitório, ao mesmo tempo que nenhum compromisso do Estado para com os cidadãos comuns (desde a aposentação aos apoios sociais, passando pelas relações laborais na máquina administrativa do estado) tem qualquer valor contratual para ser verdadeiramente respeitado.

 

Resumindo, não existe qualquer base sólida sobre a qual seja possível estabelecer uma relação de confiança com qualquer governante em exercício, crescendo, muito pelo contrário, a plena consciência de que não há qualquer pudor em justificar o desrespeito pela garantia de ontem com qualquer argumento oportunista e com uma estratégia, no essencial, parecida à que antes se criticava aos governos de José Sócrates.

 

No caso do governo de Sócrates, fomo-nos habituando, mesmo que desgostando, a um estilo de fuga à realidade próximo do delírio, em que se substituíam os factos pela sua enunciação. Ele anunciava o fim da crise coma  convicção de que das suas palavras nasceria o crescimento económico.

 

No caso do governo de Passos Coelho temos algo um tanto ou quanto diferente, pois parece que as coisas são ditas, logo à partida, com a convicção de que se tornarão em... nada. A enunciação não se substitui à realidade, não há qualquer delírio, mas apenas uma enunciação instrumental para ocupar espaço e tempo, até ser substituída por outra enunciação que, por se saber totalmente desfasada dos factos, nem sequer se preocupa em justificar minimamente a anterior falsa enunciação.

 

Sócrates fazia declarações descoladas da realidade na esperança que elas se concretizassem. Passos Coelho faz declarações descoladas da realidade na certeza que elas não se concretizam.


E no meio disto tudo, todos os elementos do seu governo, Nuno Crato incluído, aceitaram esta estratégia como válida e exercitam-na com maior ou menor habilidade, mas já com muito diminuta capacidade de convencimento de quem os ouve.

 

Este despacho de organização do ano lectivo existe, mas nada garante que não seja retorcido, adaptado ou truncado daqui a um mês ou dois, quando se descobrir a enésima derrapagem orçamental e o mais que enésimo buraco nas contas, a qual criará novas condições concretas, apresentadas como inesperadas e imprevisíveis.

 

Embora todos saibamos que nada disto é real.

 

Nuno Crato não deveria estar magoado com os professores, mas sim consigo mesmo. Por ter aceitado continuar tanto tempo nesta estratégia (?) ao ponto de se distinguir muito pouco de um qualquer outro Rosalino ou Moedas.

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