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Os donos do bom gosto

por Pedro Brinca, em 28.10.13

Há umas semanas foram colocadas umas esculturas numa rotunda de Setúbal e a polémica estoirou num ápice. Anda um monte de gente indignada porque “aquilo não tem jeito nenhum”. Chamam-lhe a “rampa de lançamento de mísseis” ou os “supositórios gigantes”, quando à evidência se nota que se tratam de três sardinhas esculpidas em pedra, colocadas na vertical.

Setúbal tem-se reclamado como a capital do peixe assado. Na verdade, é difícil encontrar melhor sítio para comer umas sardinhas na brasa, feitas em assadores com um modelo específico que ficaram típicos à porta dos restaurantes e que não têm igual noutra localidade. Por isso, as sardinhas parecem uma escolha natural de um artista quando confrontado com uma encomenda para um monumento para a cidade.

A rotunda em causa, de construção recente, fica próximo do embarque dos barcos para Tróia, numa zona típica da cidade, junto do bairro das Fontainhas, local onde, durante décadas, estiveram localizadas dezenas de fábricas de conserva. A meia dúzia de metros está mesmo uma dessas antigas fábricas, hoje transformada em Museu do Trabalho. Ao que parece, a escultora em causa é mesmo filha ou neta desses proprietários.

Ora, uma escultora natural de Setúbal, ligada familiarmente à atividade conserveira, conhecedora, portanto, da identidade da cidade, parece ser uma escolha mais do que acertada para a autoria da obra. Escolheu fazer umas sardinhas e parece óbvia a escolha. Podiam estar deitadas numa grelha, tornavam-se mais reais, mas o efeito visual proporcionado a quem passasse seria bem mais duvidoso. Estão em pé, estranhamente, mas é a única forma de se fazerem notar.

Pode-se questionar um conjunto de opções técnicas, mas questionar o gosto é uma coisa bem estranha. Aliás, comum em Setúbal. Há perto de trinta anos os ânimos andavam exaltados por causa do “mamarracho” da Praça de Portugal. Agora, também um monte de críticas se fizeram ouvir sobre uns painéis que uns artistas pintaram para o futuro centro comercial Alegro, a convite deste, e que estão expostos em redor da obra. Como aliás têm criticado uma série de grafitis que a câmara tem promovido ao longo da cidade

Há gente que se sente mesmo dona do bom gosto. Que tem sempre opções melhores para tudo o que é feito, mas de quem ninguém conhece obra nenhuma. Afinal, se virmos bem, o Picasso não sabia desenhar e o Dali pintava umas coisas esquisitas. E mesmo a Joana Vasconcelos, a quem hoje todos se vergam porque foi reconhecida no estrangeiro, não faria muito diferente daquelas sardinhas. Talvez lhes acrescentasse umas rendinhas, mas todos iriam considerar uma obra de arte notável.

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publicado às 16:05


1 comentário

De susana a 30.10.2013 às 12:42

Não percebo a questão. Qual é o problema das pessoas expressarem a sua opinião , ou gosto , como refere. Parece-me perfeitamente natural, que as pessoas tenham e expressem preferências estéticas. Não vem mal ao mundo, nem à artista, nem ás sardinhas.

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