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Enquanto o pau vai e vem…

por Fátima Inácio Gomes, em 03.07.13

Escrever sobre a vida política nacional, hoje, é o mesmo que caminhar sobre uma lâmina afiada com sapatos de manteiga nestes dias de calor. Arriscado. Mas não resisto a fazer a minha pequena avaliação/reflexão, correndo o risco de ser ultrapassada pelos acontecimentos, já nos próximos 5 minutos.

E talvez não seja despiciendo começar logo por avaliar os efeitos das altas temperaturas da última semana na política nacional: Vítor Gaspar já prevenira para os riscos que as ocorrências meteorológicas extremas podiam provocar na vida económica e, por extensão, política, do país (antigamente, a ordem dos fatores era inversa) e, de facto, Vítor Gaspar não resistiu a tanta fervura. De saída, fez mais uma previsão e falhou. Disse ele na carta de demissão que apresentou a Passos Coelho: “É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa”. Hoje, Portas demitiu-se. Portas nunca perderia uma oportunidade para contrariar Vítor Gaspar e Passos Coelho fica só na trindade. Da “coesão” pouco sobra. Diz-se que o caos se instalou no governo e que o país se vai afundar. Para alguns, Paulo Portas poderá ser considerado o responsável pela crise que se instalou, pela deceção desconsolada da Troika, pelo aumento da dívida... Paulo Portas corre o risco de se transformar num professor: o responsável de todos os males presentes e vindouros. Será uma experiência enriquecedora para ele. Enquanto isso, Passos Coelho procurará chegar a um memorando de entendimento com Portas para adiar o inadiável e evitar o inevitável.

Neste momento, a minha mensagem é de tranquilidade: nem o caos se instalou, nem o país se vai afundar. Na verdade, o governo já era um caos e o país já se afundou. Só assim se entende, inclusive, a nomeação de Maria Luís Albuquerque para chefiar a pasta das Finanças, com a “absoluta garantia” de Passos Coelho, dada ao Presidente da República, que, também se soube hoje, poderá ser chamado de “palhaço” pois a “expressão enquadra-se no direito à liberdade de expressão”, sempre que essa liberdade for a “do escritor e antigo jornalista, conclui Ministério Público”. Maria Luís Albuquerque, a mesma que está ligada aos negócios Swap que estão sob investigação pelo gigantesco prejuízo causado às finanças nacionais, a mesma que é protagonista da novela quem-disse-o-quê-a-quem-e-quando, onde contracena com Teixeira dos Santos, representa uma “garantia absoluta” dada ao Presidente da República pelo Primeiro-Ministro. Para o primeiro-ministro português, a “credibilidade externa”, que tanto procura obter a ponto de a invocar para fazer com que Portas fique, será garantida por esta senhora. Por outro lado, aceitou a demissão de Vítor Gaspar com base na exigência de “credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar”. Ou seja, Passos Coelho reconhece que a “credibilidade e confiança” são necessárias para implementar medidas de investimento no país, pelo que aceita a demissão de Gaspar por já não reunir estas condições e… nomeia este modelo impoluto de “credibilidade e confiança” que é a ex-secretária de estado do ex-ministro das Finanças para Ministra e nomeia para Secretário de Estado do Tesouro Joaquim Pais Jorge, até aqui presidente da Parpública e ex-director da Estradas de Portugal, que está mencionado no relatório preliminar da comissão parlamentar de inquérito como responsável pela negociação de concessões rodoviárias, tal como nomeara Franquelim Alves, ex-administrador do BPN, para secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação. Se é esta a “absoluta garantia” do nosso primeiro-ministro, então está tudo dito quanto à credibilidade de quem nos governa e, mais, quanto à credibilidade de tudo o que nos é dito, nomeadamente, no que diz respeito aos nossos (do povo) gastos excessivos e à “absoluta necessidade” de nos sujeitarmos à Troika.

Apenas se estivéssemos bem poderíamos temer ficar pior. Lamentavelmente, não é essa a nossa situação. E não é devido ao argumento estafado do “não há dinheiro” ou “gastou-se acima das nossas possibilidades” – tudo isto é resultado de uma política que não é apenas nacional, é europeia e resulta da satisfação de interesses que não são o dos povos. É bom lembrar que a política de investimento/endividamento da era Sócrates, com a construção de autoestradas a casas de banho, era política europeia, tanto quanto a atual política de austeridade. Portugal, afinal, tem cumprido com os desideratos europeus. Bem demais, convenhamos. Enquanto este ciclo não mudar, enquanto não se reinventar a Europa, enquanto não nascerem políticos comprometidos com a política e com o povo e não com os interesses dos grandes grupos financeiros, vai-se tornando irrelevante quem lá esteja.

Contudo, em cada mudança, haverá sempre a possibilidade de que algo verdadeiramente mude, haverá sempre a esperança de que uma brecha se abra no tal “arco do poder”, haverá sempre mais umas máscaras a cair e, como diz o ditado, “enquanto o pau vai e vem, as costas descansam”. As costas são as nossas, a dos contribuintes portugueses.

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publicado às 20:10





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  • silva

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