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Os Dias Claros

por Duarte Victor, em 27.05.13

Entrou na farmácia e esperou sem tirar a senha de atendimento. As mãos nos bolsos, um olhar vazio e desesperançado na direção do balcão, como se ali não estivesse o seu pensamento ou a sua vontade. Às vezes há pessoas que nos despertam a atenção e nos deixam espectáveis, como no cinema ou no teatro, à espera da cena reveladora e do respetivo desenlace. O homem parecia esperar o seu desígnio.

 

Simulei que aguardava por um medicamento já pedido e dei-lhe a vez. Dirigiu-se ao funcionário com um papel na mão, um documento do Centro de Emprego. Pediu educadamente e em voz baixa que o assinasse como se ali tivesse procurado trabalho. Era o primeiro de três que tinha de apresentar nessa semana, caso contrário suspendiam-lhe o subsídio de desemprego. Tinha 57 anos de idade e perdido a esperança de encontrar de novo trabalho depois de incontáveis tentativas. Perante a recusa saiu da mesma forma como entrou, desesperançado e de olhar vazio.

 

Limitou-se a cumprir as regras do jogo e angariar comprovativos do seu porta a porta. Esta governação não faz jus ao provérbio, dá-lhe uma cana e ensina-o a pescar. É mais económico e mais rápido dar o peixe e matar a fome por um dia.

 

Fiquei a pensar como serão os dias destas pessoas. Como se repetem infinitamente entre a esperança e o desespero que lhes interdita a réstia de sol dos dias claros, a felicidade.

 

O sentido da vida está na procura incessante da felicidade. Ninguém é feliz se despojado ou cerceado dos seus objetivos de vida e da legitimidade de os alcançar.

 

O desemprego em Portugal é uma condenação ao ostracismo e ao esquecimento. Os desempregados que constam nas estatísticas oficiais e os que não têm lá lugar, que não auferem qualquer apoio do estado, representam capital humano desperdiçado e abandonado. Tudo isto num cenário de desenvolvimento económico e social nulo.

 

A maior destruição de postos de trabalho de sempre em Portugal está a destruir o tecido social. Que perspetivas de futuro se o estado negligenciar medidas que respondam a esta realidade? Sobretudo quando a idade é um entrave para uma oportunidade de trabalho ou para mudança de vida.

 

O empobrecimento tem um impacto avassalador nos rendimentos das famílias e nos direitos económicos e sociais, agora em causa. São as consequências da austeridade na economia que cria esta vulnerabilidade crescente dos grupos e comunidades mais fragilizados da população.

O homem que vi na farmácia anseia pelos dias claros porque na vida o desígnio dos Homens é a felicidade.  

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publicado às 15:26


1 comentário

De Anónimo a 27.05.2013 às 16:27

É a condenação a que todos estamos sujeitos, apesar de termos de ver o desemprego como uma oportunidade... de suicidio!

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