Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




E quanto cortarão nos vícios privados?

por Fátima Inácio Gomes, em 18.04.13

No dia em que se tomará conhecimento de mais cortes na despesa do Estado, penso num dos alvos que tem estado sempre na linha da frente da gadanha governamental: a Educação. Cortarão mais aqui, certamente. Mesmo quando o Conselho Nacional de Educação, no seu último relatório, refere que o normal funcionamento das escolas já está no limite e que "a melhoria dos resultados educativos e a consolidação dos patamares já alcançados não se compadecem com o abrandamento do esforço ou com políticas errantes”. Mesmo quando a presidente do CNE tenha declarado, no parlamento, que reduzir o investimento público na Educação abaixo de 4% do PIB “é colocar Portugal ao nível da Indonésia”. Cortarão.

 

E penso, então, nas escolas do ensino particular e cooperativo com contrato de associação com o Estado. Penso numa, em particular. Nesta escola, que recebe dinheiro do estado (85 mil euros ano, por turma, segundo dados nacionais, publicados), praticamente não há funcionários nos corredores da escola. Haverá o porteiro e um funcionário na secretaria. Todo o restante trabalho é assegurado por professores. Os professores são escalonados, nos seus intervalos entre aulas (intervalos que deixam, pois, de existir) e nos tempos da componente não letiva (necessários para preparar o trabalho letivo) para vigiar corredores, vigiar recreios, vigiar casas de banho, atender no bar dos alunos. Sim, um professor sai da sua sala de aulas e vai abrir o bar, tirar cafés, vender a sande e o bolo. E outros professores têm blocos de 45 ou 90 minutos de plantão à casa de banho, para controlar se os alunos demoram lá muito tempo, se fumam, se usam o telemóvel. Um professor para a casa de banho dos rapazes, uma professora para a das raparigas. Estes professores ocupam toda a sua componente não letiva (tanto a de estabelecimento como a do trabalho individual) nestes afazeres, tempo necessário e precioso para preparar aulas, preparar testes e fichas, corrigir testes, relatórios, portefólios, fazer formação, pesquisar, fazer relatórios, grelhas, atas... Esse trabalho, que derrete horas e horas, fica relegado para as noites que se prolongam pela madrugada e pelos fins-de-semana roubados à família. Aliás, este é, um filme conhecido de todos os professores, não só dos professores desta escola. Mas, o que é verdadeiramente extraordinário é que o patrão desta escola recebe dinheiro para pagar a funcionários, pois uma escola precisa destes “auxiliares da ação educativa”. E ele até tem os funcionários, mas com outras funções, fora da escola, noutros negócios. Privados. Esta escola recebe a visita da IGE (Inspeção Geral da Educação), como todas as escolas. Mas os alunos, os pais, os professores são instruídos antes de serem ouvidos. Nesta escola, paga com dinheiro de pais iludidos e com dinheiro do Estado, o nosso dinheiro, não há ensino laboratorial nas ciências, pois fica caro manter o laboratório (comprar produtos, substituir materiais que se partem ou degradam), mas recebe dinheiro para ter ensino laboratorial, como as escolas públicas. Nesta escola, não há turmas desdobradas para o ensino laboratorial, mas quando os alunos foram ouvidos pelos inspetores disseram que sim, que havia. Nesta escola, o ensino da música é teórico, mas quando a IGE lá foi, pôde ser prático: o professor de música e seus alunos tiveram direito a uma sala equipada com instrumentos musicais. Alugados, possivelmente, pois ainda os inspetores por lá andavam, mas tendo já sido feita a visita às instalações, já o professor e os alunos regressavam à sua normal sala de aula, sem instrumentos. E mais umas habilidades que são feitas com a ADSE, com prejuízo dos professores, e as licenças de maternidade e maternidade atropeladas.

 

Por que não se denunciam estes casos? - Pela mesma razão que eu não identifico a escola, nem o farei, pois não quero prejudicar quem lá anda, quem se cala para proteger o seu emprego, a garantia de pão na mesa. Mas tenho a certeza que muitos leitores, por este país fora, estarão a identificar outras escolas, com filmes idênticos. A precarização do trabalho escancara, cada vez mais, as portas ao despotismo e à manipulação de quem emprega. Com o aval do Estado. Aliás, até já há investigações de uma televisão a propósito de outros esquemas semelhantes. Não será, portanto, novidade.

 

Nas escolas públicas, aquelas que o Governo quer reduzir a pó, nunca houve escândalos financeiros. O executivo/direção de uma escola age como a sopeira, seja de casa abastada ou remediada: o patrão passa-lhe uma quantia para as mãos, para os gastos domésticos, e ela lá cumpre, incapaz de meter o que quer que seja ao bolso, com as contas tão controladas. Mas as escolas particulares e cooperativas têm um dono, um patrão, que não é o Estado. E é interesse do dono que sobre o mais possível, para seu lucro pessoal.

 

Maria Filomena Mónica, na sua coluna do Expresso de 13.04.2013, insurge-se contra o facilitismo e interesses obscuros das universidades privadas “Foram necessários 26 anos para que um governo – calhou ser o de Passos Coelho – descobrisse a aldrabice que impera em muitas destas instituições.”. E a sua indignação é justa. Quando nos insurgiremos todos, justamente, contra os interesses obscuros que imperam nas escolas básicas e secundárias com contratos de associação? Quando é que o “bom povo português” exigirá a verdade e a transparência dos seus governantes, salvando aquilo que ainda garantirá a possibilidade de futuro?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:03


1 comentário

De Fátima Inácio Gomes a 18.04.2013 às 13:35

Mesmo a propósito, de hoje mesmo:

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/financas_publicas/orcamento_do_estado/detalhe/empresas_publicas_e_gabinetes_escapam.html

Comentar post





Últ. comentários

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...