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Casais Desempregados

por Eugénio Fonseca, em 16.04.13

Na multidão de desempregados portugueses aumenta o número de casais a carregarem com a pesadíssima cruz do desemprego. Não ter trabalho tem sempre nefastas consequências. Não se perde apenas autonomia financeira mas também estatuto social. Estar desempregado é ficar mais vulnerável à pobreza e à exclusão social. Por isso, o direito ao trabalho está inscrito «no vasto contexto do conjunto dos direitos do homem, direitos que lhe são conaturais, tendo sido muitos deles proclamados pelas várias instituições internacionais»[1], este, como muitos outros direitos consagrados, não está a ser respeitado em todo o mundo nas suas várias facetas.  Por outro lado, trabalhar é um dever, porque cada um dos seres humanos deve, por esse meio, buscar «o pão quotidiano e contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade»[2]. Não proporcionar trabalho é uma violação dos Direitos Humanos, porque rouba a cidadania e, pior do que isso, aniquila as condições de dispor de uma vida, minimamente, digna.

Hoje, perder o emprego é entrar numa encruzilhada e até numa espiral de variadas carências. Há famílias que viram diminuídos, significativamente, os seus recursos monetários. Basta um dos membros do casal ter ficado sem trabalho para a família entrar em dificuldade. Manter o habitual conforto em casa e, em situações limite, a manutenção da mesma, na maioria das situações adquirida com recurso a empréstimo bancário, estes são alguns dos bens que estão a ser mais penalizados. Sem casa não há família. Quando é o homem a ficar desempregado, em alguns casos, surgem outro tipo de problemas relacionados com o modelo cultural predominante. Apesar das transformações já conseguidas, ainda perpassa pela sociedade a ideia de que compete ao homem, em primeiro lugar, garantir as condições de bem-estar da sua família. Ser substituído pela mulher nesta sua “original” obrigação é mais uma penalização a acrescentar a todas as outras que é, muitas vezes, agravada pelas reações negativas expressas em agressões físicas, na opção pelo consumo desmesurado de álcool ou até no abandono do lar.

Todos estes males tomam uma proporção acrescida quando a falta de trabalho atinge o casal. Já é, altamente, preocupante o número dos já atingidos por este flagelo social. Torna-se impossível imaginar as dores sentidas, portas dentro, por tantas famílias que não dispõem de qualquer fonte de rendimento para valerem à satisfação das suas necessidades e dos seus dependentes. Para alguns agregados familiares, estas dificuldades motivam a uma maior coesão familiar, contribuindo para reforçar a sua unidade e os seus laços amorosos. Mas o habitual é o que se traduza no vulgarizado ditado popular que diz: “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

Sabemos que a lógica de acesso ao mercado de trabalho é outra, assente sobretudo nas condições adequadas para gerar produtividade com baixos custos e que gere abundantes lucros. É o trabalho ao serviço do capital e não da pessoa. Assim sendo, a prioridade no acesso ao trabalho é para pessoas competitivas. Nesta lógica, o fator humano e a satisfação das suas necessidades são ignorados. Se assim não fosse, faria todo o sentido colocar nas filas da frente os que, legitimamente mais necessitam de trabalho. Nestas filas estariam, sem dúvida, os casais desempregados, retirando desta condição pelo menos um dos seus membros.

As exigências do mercado de trabalho, agravadas no futuro pela sua manifesta escassez, apontam como solução para os atuais desempregados o recurso à criação do próprio emprego. É uma opção a ser considerada, mas que deve ser bem pensada. Num mercado globalizado é preciso pesar os riscos, nomeadamente, no que concerne à comercialização daquilo que se produzir. Os riscos são acrescidos, quando for um casal a optar por esta via. Basta para isso constatar que alguns dos atuais casais desempregados trabalhavam, precisamente, por conta própria em empresas familiares.

Se o desemprego tem que ser a prioridade fundamental no combate à crise, deve começar-se pelas famílias em que o casal esteja atingido por esta desgraça. Só assim o trabalho cumprirá o seu sublime desígnio.



[1] JOÃO PAULO II, Laborem Exercens, n.º 16.

[2] Ibidem, n.º 1.

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publicado às 12:55


1 comentário

De i a 19.04.2013 às 10:57

Um problema sério. se na minha família, ambos empregados, com cortes de vencimento sucessivos acrescido do aumento de despesas devido ao aumento do custo de vida, temos vindo a perder, dia a dia, qualidade de vida, já sentimos a supressão de muitos bens já quase essênciais, imagino quem perde o emprego na totalidade. é uma viragem de vida rumo à pobreza de uma forma fulgorante.

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