Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Os Materialismos da Infelicidade

por Paulo Guinote, em 15.04.13

Há um tema a que gosto de voltar com regularidade, pois parece estar sempre na ordem do dia. Trata.se da simetria dos materialismos que ao longo dos últimos 200 anos têm servido de base aos regimes que mais desumanizaram os indivíduos.

 

Tanto o materialismo marxista, como o materialismo liberal, reduzem, nas suas formulações simplistas a que infelizmente estamos submetidos, os indivíduos a peças mensuráveis de uma engrenagem determinista que lhes retira qualquer capacidade – talvez mesmo o direito – a um livre arbítrio que os torne condutores do seu próprio destino, sem que ao fazerem isso corram o risco de ser acusados de inimigos de um totalitário interesse comum.

 

Se uns defendem um modelo baseado no determinismo das forças económicas que conduz ao esmagamento dos indivíduos perante mecanismos que os transcendem, os outros defendem cada vez mais um modelo definido pela eficiência de um governação economicista que despreza esses mesmos indivíduos quando não se enquadram, com os seus comportamentos singulares, na pureza dos seus teoremas.

 

Os leitores de Hayek que nos couberam em sorte (liberais de 3ª categoria à semelhança do que um saudoso professor meu dizia dos marxistas nacionais) não conseguem (ou não querem) ir dois milímetros abaixo da superfície e entender que a denúncia que ele fez do marxismo tinha origem no que ele representaria de perigo para a liberdade individual, sendo o meio errado para servir ao progresso da Humanidade. Hayek aponta-o como caminho para a servidão, porque o que ele recusava era exactamente essa mesma servidão humana.

 

Ora… o que temos mais entre nós são defensores de um outro caminho para a servidão, pintado enganadoramente com as tintas de um falso liberalismo, usado apenas como fórmula vaga, mas destituída de conteúdo e com uma fundamentação empírica e histórica atroz. Dificilmente Hayek (ou mesmo Popper que há 25 anos serviu de tábua de salvação intelectual para muito esquerdista arrependido) defenderia um liberalismo de máquina de calcular que transforma os seres humanos em peças de uma equação tão descarnada quanto a resultante da aplicação de um qualquer materialismo dialéctico à experiência humana.

 

Os governos podem ser conduzidos por princípios ideológicos, por visões do mundo, da sociedade e do ser humano, mas eu recuso qualquer visão que esqueça que o valor essencial é o da vida humana e que o bem estar de todos é o que deve nortear, enquanto ideal, a acção dos governantes, aliás como é explícito na primeira constituição liberal do mundo ocidental (a americana), herdeira directa da crença iluminista de que a felicidade terrena deve ser o objectivo primordial de qualquer contrato social subjacente a um governo justo.

 

O que se passa entre nós (mas não só) nos dias que vão passando é o aviltamento consciente (duvido que seja por ignorância) dos ideais liberais originais de defesa dos direitos individuais em nome de uma racionalidade mecanicista ditada por uma alegada eficácia da acção governativa. E o recurso a autores altamente estimáveis para fundamentar políticas profundamente geradoras de desigualdades e que nada se importam com o mal estar de um número crescente de indivíduos.

 

Os leitores oportunistas de Hayek fazem por ignorar que o fundamental da sua mensagem – bem como da de Popper em defesa de uma sociedade aberta – é a necessidade de lutar contra os modelos de governação que, de forma abusiva, conduzem os seres humanos para uma indigna servidão. Materialista, mensurável, mecanicista.

 

Ou seja, fazem por ocultar que eles seriam objecto de tão forte reprovação ética e moral por aquele que afirmam seguir, quanto aqueles que ele originalmente criticou. E ainda há quem apareça a defender que os princípios que fizeram progredir a Humanidade para além da barbárie e da servidão são conjunturais, relativos.

 

O que significa qualquer dos materialismos em confronto nega a liberdade individual e ergue princípios gerais de matriz totalitária que desrespeitam aquilo que alegam querer alcançar: a liberdade e a felicidade de todos e cada um de acordo com as suas aspirações.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:12





Últ. comentários

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...

  • silva

    A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol IIINo caso da ...