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A dimensão política e humana da cidadania

por Helena Freitas, em 11.03.13

O afastamento dos cidadãos da actividade política não acontece apenas em Portugal, sendo antes um fenómeno que visivelmente se instalou de forma preocupante e generalizada nas sociedades democráticas. A intervenção política confunde-se hoje e cada vez mais com os partidos políticos, situação que tende a inibir qualquer participação noutro contexto. Por outro lado, toda a actuação que teime em emergir fora deste âmbito, rapidamente sucumbe ou é forçada a esvaziar-se, não resistindo ao jogo da censura e da cínica suspeição a que se condena tal atrevimento. Sendo indispensável o papel dos partidos políticos em democracia, também não tenho dúvidas que a maturidade das sociedades democráticas não dispensa – pelo contrário, exige - uma participação cívica atenta e activa.

 

O divórcio entre os representantes do Estado e o cidadão, entre outras coisas, tem conduzido a um elevado abstencionismo nos actos eleitorais, e à ausência de participação pública genuína e independente sobre os problemas que interessam ao país, renunciando-se deste modo ao papel vigilante sobre a actuação do Estado. Uma vigilância eficaz exige uma intervenção perseverante e sólida por parte da sociedade; a sua ausência, deixa a margem disponível para se forjarem os interesses que delapidam os recursos do país e nos deixam cada vez mais pobres.

 

Não podemos abandonar a política aos partidos políticos, e muito menos descurar uma vigilância atenta e participada na vida pública, sob pena de abdicarmos de promover os valores que alimentam a própria democracia.  É a essência da cidadania que fica em causa, quando nos demitimos de participar nos assuntos políticos e na sua decisão, desde logo no acto eleitoral e na eleição dos representantes no Governo da Nação, mas também no direito de ser eleito para os cargos políticos e na afirmação das opiniões discordantes. Quando a política se fecha à sociedade, facilmente se instala e domina uma espécie de casta política, económica e mediática.

 

A meu ver, o afastamento dos cidadãos do debate político tem um outro reflexo negativo que tendemos a esquecer, e que se traduz por uma profunda perda da dimensão humana que devia marcar as políticas públicas. Esta disponibilidade, depende muito da relação de proximidade e confiança que se estabelece entre o poder político e o cidadão; perdendo-se o espaço de cidadania, de intervenção e discussão pública da actividade do Estado, perde-se justamente o espaço natural para fecundar uma acção política diferente, aquela que todos desejamos, em que o exercício do poder se deixa orientar pelo valor da dignidade humana. 

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publicado às 11:01





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