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A intifada da canção

por Fátima Inácio Gomes, em 21.02.13

Ainda às voltas com o recibo de vencimento e a fazer contas com a restituição de um subsídio de natal mensal – o rei mago Gaspar lembra-nos que o Natal é todos os dias, ou todos os meses, conforme seu desejo – logo arrebanhado, por excesso, pelo também natalício aumento da taxa de IRS - e olhando saudosamente para o recibo de vencimento do mesmo mês do ano passado – como pensaria eu, à data, que olharia para aquele momento com nostalgia, quando então já me lamentava do corte salarial sofrido? – vejo-me confrontada com a indignação de tantos senhores democratas por o ministro Relvas ter sido impedido de falar no ISCTE. Que a democracia está doente, quando o povo acha que a sua legítima liberdade de expressão lhe permite coartar a legítima liberdade de expressão do outro, dizem. E eu, olhando para o meu encolhido recibo de vencimento, quase também me encolho por me ter sentido vingada na voz daqueles jovens. Quase.

 

Pois sim, têm toda a razão – a liberdade nunca o é se construída sobre a opressão de alguns. Mas qualquer um dos ministros de Portugal tem canais de expressão que não estão ao alcance dos restantes portugueses (e aproveito a deixa para elogiar este o Parlamento Global por dar espaço de expressão a pessoas como eu, uma portuguesa comum, funcionária pública, a braços com um recibo de vencimento encolhido). Por outro lado, não estará, de facto, a democracia doente, quando permite que alguém com o portefólio do ministro Relvas fale em público? Como se mede o grau de sanidade da democracia? É mais democrático o povo que deixa falar políticos sem dignidade nem moral ou aquele que os manda calar? Porque não estamos a falar do taxista que dá largas à sua verrina, nem da cabeleireira que vai tecendo uns comentários de política doméstica – com todo o respeito pelas suas opiniões livres - falamos de portugueses com responsabilidade política e que, quando falam publicamente, o fazem empossados de um cargo governativo. E, enquanto tal, terão liberdade para falar enquanto, e só enquanto, o povo que os elegeu lhes der a palavra. Talvez os portugueses já não queiram ouvir mais os dislates do ministro Relvas. E talvez já não estejam com paciência para esperar até às próximas eleições. O cidadão Relvas, apeado do cargo, terá toda a liberdade para dizer o que entender. Até terá liberdade para cantar… desde que não o tenhamos que ouvir.

 

Aqueles senhores democratas que agora criticam as manifestações verbais dos descontentes aplaudiram, certamente, o famoso “por qué no te callas” de um chefe de estado a outro chefe de estado, mas agora não aceitam que o povo esmagado por recibos de vencimento encolhidos, ou por recibos de vencimento inexistentes, revoltado com os discursos hipócritas e os compromissos falhados, atire com palavras de ordem e com canções para calar quem sentem que não os representa. E enquanto forem só canções…

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publicado às 15:39





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