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Gás aos megas

por Fátima Inácio Gomes, em 28.01.13

Na passada semana, a polícia usou gás pimenta contra alunos que se manifestavam frente aos portões da sua escola, a Secundária Alberto Sampaio, em Braga. Estes alunos tinham fechado os portões a cadeado, para assim manifestarem a sua indignação contra aquilo que consideram ser um ataque à sua escola. A polícia tomou esta atitude, segundo declarações à imprensa, para evitar uma “ação mais musculada”. Como primeiro ponto de ordem, torna-se difícil perceber que “ação musculada” teria sido exigida para atravessar um grupo de alunos que empunhavam cartazes e gritavam palavras de ordem. Que me conste, não houve arremesso de pedras, insultos, ou qualquer ataque da parte dos jovens, alguns bens jovens. Também não percebo que a polícia tenha partido para o gás pimenta antes até de chegar à fala com a Direção da escola. E não vislumbro, às portas de uma escola, qualquer ação de cariz mais didático… a menos que fosse de culinária, mas não eram estes alunos de hotelaria.

                Pode-se discutir a ilegitimidade de um grupo de alunos vedar o acesso livre a uma escola, mas justificar com isso a ação apimentada da polícia é delírio perigoso. Assim, não faltará muito para que uma qualquer agremiação de pessoas (e lembro o artigo 25º da Constituição “Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização") possa vir a ser considerado como um ato potencialmente e justificar uma ação dissuasora como a do gás pimenta ou a de outra especiaria igualmente convincente.

Como segundo ponto, a constatação que, no meio disto tudo, se perde o essencial: a razão do protesto. Aqueles alunos não eram arruaceiros. A própria Diretora, em declarações às televisões, os defendeu. Aqueles alunos protestavam contra uma ação danosa dos seus interesses e que lhes chega do Ministério de Educação e Ciência e do Governo. Aqueles alunos têm todo o direito à resistência, têm todo o direito a defenderem a sua escola.

E defendem-na do quê? Essa é a verdadeira questão. Defendem-na da transformação numa “unidade orgânica” (é esse o nome, agora) que agregará mais de 3 mil alunos, juntando sob uma única Direção, escolas do pré-escolar ao secundário, distribuídas por nove freguesias, a maior parte, de fora do perímetro urbano. E como a Alberto Sampaio, muitas outras escolas foram agrupadas, num processo que está longe de estar no fim, pois já se perspetivam novas agregações, envolvendo um número maior de alunos. Na verdade, não deveriam ser só os alunos da ESAS a manifestar-se, mas todos. E os pais. E os professores. Que escola será esta, em que se reúnem dois mil, três mil, em certos casos, quase 4 mil alunos, disseminados por “subunidades” espalhadas por vários quilómetros, dirigidos à distância por uma equipa de meia dúzia de professores? Será que os nossos governantes têm consciência da exigência de proximidade que a educação de crianças, adolescentes e jovens exige? Numa escola onde, cada vez mais, desaguam os problemas que este sistema económico (ou, na prática, a inexistência dele, pois vemos a economia subjugada pela alta finança) cria dia a dia?

Quando lemos um relatório como o do FMI, que prodigaliza exemplos de outros países para justificar cortes, estranha-se que não olhem para os exemplos dos vários países que já passaram por este processo, já o avaliaram e já estão a fazer o caminho inverso. Na Finlândia, modelo tanta vezes invocado, a pequena dimensão das escolas é uma imagem de marca, com uma gestão mais próxima dos alunos e, consequentemente, mais lesta e eficaz na resolução de problemas. Em vários estados dos EUA a aposta é já no redimensionamento das escolas, depois do reconhecimento que o seu sobredimensionamento potenciava a indisciplina e o insucesso. Em Nova Iorque, por exemplo, a taxa de sucesso destas megaescolas, que atingiam os 4 mil alunos, era de 40%. O mayor decidiu, então, acabar com esses gigantes e criar escolas com um máximo de 400 alunos. Um estudo financiado pela Microsoft (Fundação Bill e Melinda Gates) revelou que o sucesso, nestas novas escolas, subiu para quase 70% e atribuem-no a uma “dimensão mais humana”. Mas os nossos governantes nem precisariam de pedir pareceres a esta fundação, bastaria terem-se munido do mais elementar senso-comum para chegarem à mesma conclusão. Bastaria terem ouvido Conselhos Gerais, Diretores, Associações de Pais, Federação das Associações de Pais, os Conselhos Municipais de Educação, Autarquias e Associações de Alunos para chegarem à mesma conclusão. E nem teriam que pagar!

O afã de promulgar leis com eficácia monetária imediata é tal que o governo tem sido incapaz de reconhecer os custos que essas medidas trarão ao país. E já não falo de custos humanos, que é uma variável que não cabe nas grelhas excel, mas de custos económicos: escolas com alunos menos acompanhados, menos motivados e mais indisciplinados produzem resultados mais negativos. Ou seja, teremos uma população a regredir em termos de formação e, consequentemente, menos apta e menos produtiva no mercado de trabalho.

Digam-me lá agora então, quem merecia levar com o gás pimenta nos olhos.

 

Fátima Inácio Gomes

Braga

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publicado às 11:34


5 comentários

De Ana Paula Moreira a 28.01.2013 às 19:01

Está tudo dito e muito bem dito. Resta-nos gritar:

"ACORDAIIIIIIIIII...".

Parabéns, Fátima, pela clareza e pela coragem.

De Carlos Jerónimo a 28.01.2013 às 23:18

Fátima Inácio Gomes obrigado pela clara e assertiva reflexão que partilhaste! Parabéns a ti e aos criadores do Parlamento Global por esta excelente iniciativa!

MAIS UM EXEMPLO DE CIDADANIA ACTIVA!

A INTERVENÇÃO DO CIDADÃO COMUM É O CAMINHO DA REVOLUÇÃO QUE ESTE PAÍS NECESSITA PARA MUDAR A FORMA COMO SE GOVERNA A RES PÚBLICA!

NOTA: Já repararam que é um artigo assinado por uma cidadã comum? Por comum, falo de alguém que não vive da política nem de boys partidários e afins! É essa uma grande mais valia desta participação!

De Fátima Inácio Gomes a 02.02.2013 às 18:10

Obrigada a ambos!

É isso mesmo, Carlos Jerónimo, a grande mais-valia deste espaço é dar voz ao cidadão comum ;-)

De abcdamatrafice a 07.02.2013 às 00:29

Melhor impossível

Na minha opinião é tudo menos vantajosa, estes agrupamentos escolares.
Do ponto de vista educativo mais do que descrito a cima, económico, e das necessidades dos alunos.

Mas são contas de políticos, a principal razão são as condições dos alunos! o que é treta porque assim não haveria limite mínimo de alunos por turma para executar este procedimento.
É escandaloso do ponto de vista financeiro. transportarem por exemplo 20 crianças por 20 quilómetros 2 vezes por dia. alguém já fez as contas.?
A necessidade dos alunos é o pior, muitos para conseguirem ter 8h de descanso, nem 3 horas estão em casa com os pais ou familiares.

Como é possível isto?, talvez mandar os que realmente precisam de ir para a escola para la, e não para aquelas dos meninos bonitos com candeeiros do Cisa Vieira, mas sim para escolas sem condições onde crianças e adolescentes esquecidos pelo mundo politico tem aulas a chuva ou cujos tectos tem telhados e materiais já banidos por porem em causa a saúde (como o amianto)! decerto que o dinheiro de um candeeiro resolvia alguns casos!!

De Fátima Inácio Gomes a 08.02.2013 às 17:05

É o circo montado!
E cada vez mais, a fazerem de nós... ursos (que tenho muito respeito pelos palahaços, os ursos não se hão de importar com a metáfora...)

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