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O bolo de chantilly

por Rui Santos, em 22.01.13

Entre indígenas, no corre-corre da dialéctica política do quotidiano ouvimos ser utilizada muitas vezes a expressão de que ‘os cidadãos e as instituições viveram acima das suas possibilidades’ e que os portugueses estão agora a pagar o preço dos seus caprichos e megalomanias.

 

Se, nesta matéria, como noutras, nunca devemos tomar a nuvem por Juno, custa a entender que seja a classe política a atirar-nos violentamente à cara o bolo de chantilly.

 

Porque foi ela, no seu centrão democrático, que promoveu os excessos e não suscitou nunca nenhum tipo de debate sobre matérias tão estruturantes. Mesmo antes de se colocar o peso das gorduras no prato da balança das finanças públicas.

 

Como diz a letra do Sérgio Godinho ‘isto anda tudo ligado’. O Estado e a Banca. A Banca e o Estado. Nós andamos há décadas a financiar os disparates e ainda temos de refinanciar a Banca. E, na sequência da quase bancarrota, ainda corremos o risco de levar na cara com mais um bolo de chantilly, se nos disserem, ‘dentro de momentos’, pedindo desculpa pela interrupção, que não há dinheiro para nos pagarem as reformas, porque andámos a viver tão acima das (nossas) possibilidades que todo o dinheiro que, condenados, metemos nos cofres do Estado não chega para assegurar a nossa dignidade como contribuintes e, principalmente, como seres humanos.

 

Isto tornou-se num desavergonhado assalto às pessoas, nos seus direitos mais elementares. Direitos, sim. Porque é isso que está na Constituição e porque foram os políticos que nos convenceram que temos direitos e que devemos lutar por eles.

 

O ‘princípio da igualdade’, plasmado constitucionalmente no seu artigo 13, faz-me lembrar o conjunto de artigos vagos, inócuos e sem nenhuma aplicação, que povoa a densa legislação desportiva. São palavras bonitas mas não valem nada. Valem apenas na sua agora asfixiante retórica.

 

Quem incentivou a compra de casa própria?

Quem incentivou o consumo privado, a níveis na verdade de imensa irresponsabilidade?

Foram os cidadãos, por mero capricho?

Os cidadãos sempre votaram nos partidos e nos políticos, primeiro porque não foi descoberto até à data um sistema alternativo, considerado melhor relativamente aquele que nos fazia acreditar no futuro; segundo, porque quando somos chamados a depositar o voto nas urnas, fazêmo-lo na convicção de que estamos a contribuir para eleger um conjunto de representantes, no poder local e à escala nacional, capazes de cumprir as promessas eleitorais.

 

Está visto: agora dizem-nos que é preciso cumprir, mas isso é depois do não cumprimento, não sei se me faço entender. E o mexilhão não apenas tem de levar com o bolo de chantilly (e vão três...) como é instado a encolher os ombros sob o argumento de que foi a conjuntura internacional que ditou o incumprimento das promessas.

 

Isto anda mesmo tudo ligado, porque o sistema nas suas perversões é igual em todo o lado. A diferença que se estabelece, na Europa, não tem tanto a ver com os cidadãos e as suas alegadas autonomias mas com a qualidade, em cada país, da classe política. Por isso, apesar de haver um consensual denominador comum em perversões, todas relacionados com imparidades a uma escala brutal, há diferenças nas economias dos respectivos países. Um país pobre não deve ter comportamentos de país rico, mas essa é uma tarefa de matriz política que cabe, por isso, aos políticos disseminar, à margem da demagogia eleiçoeira.

 

Foi a classe política, à esquerda e à direita, que nos conduziu para este caminho escuro e sombrio. Não tenham, pois, o descaramento de nos atirar com o bolo de chantilly à cara, porque nós vivemos dentro das possibilidades que nos impingiram. Pagámos ao Estado para isso. Pagámos e continuamos a pagar à Banca para isso. Mas não chega.

 

Querem levar-nos tudo e o mais grave de tudo é que, nas entrelinhas, já vão dizendo que pode não restar nada. A não ser, talvez, para aqueles que, conhecendo os anexos das perversidades, estão preparados para a... ejecção. Para onde?!

 

(Texto escrito de acordo com a grafia antiga)

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publicado às 18:49





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  • silva

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